Mais de metade dos jovens dos 18 aos 35 anos já tiveram mais de um trabalho em simultâneo. Atualmente, esta continua a ser uma realidade para 20%, principalmente nos casos dos maiores de 26 anos e com salários mais baixos. A informação é avançada pelo Expresso, que teve acesso a um inquérito de 2023.
O estudo, que contou com 5.076 respostas, será publicado no livro “Os Jovens e o Trabalho em Portugal”. Os autores, Observatório das Desigualdades e Observatório do Emprego Jovem, garantem: “os jovens com percursos mais marcados pelo exercício de vários empregos em simultâneo são também os que, com maior regularidade, recebem apoios de familiares e amigos.”
Os jovens com mais de um trabalho são, maioritariamente, mulheres com menos escolaridade, rendimentos mais baixos e que vivem em situações precárias. O que justifica este contexto são os “constrangimentos financeiros” associados ao mercado de trabalho. Estes afetam grande parte da população em geral, mas têm especial impacto nas pessoas com menos de 35 anos.
O Observatório das Desigualdades e o Observatório do Emprego Jovem continuam: “Muitos jovens vivem num estado periclitante e continuado de ‘semiautonomia’. É como se não saíssem do mesmo: o salário não evolui, a situação contratual não se altera significativamente, as melhores expectativas de vida não se concretizam.”
O mercado de trabalho em Portugal
Os autores do livro esclarecem, ainda, sobre o mercado de trabalho em Portugal: “Apesar dos avanços ocorridos, o ensino público e as políticas de emprego em Portugal não têm conseguido impedir que a entrada dos jovens no mundo do trabalho reproduza, e até agrave, o fosso social existente.”
Renato Miguel do Carmo, coordenador do livro, quando entrevistado pelo Expresso, referiu: “O maior acesso a diplomas por parte dos jovens não quebrou decisivamente a reprodução da sua situação social de origem.” 80% dos jovens não licenciados têm pais que também não o são. Os investigadores alertam para a possibilidade desses jovens estarem “a ficar para trás.”
Os perfis profissionais dos jovens têm um grande impacto ao nível da Segurança Social. 13,9% dos jovens nunca descontou, ou fê-lo de forma intermitente ou parcial. Esta percentagem é, mais uma vez, constituída por quem tem menos qualificações e salários mais baixos. Estes jovens ficam, então, com menor acesso a proteção social.
São as mulheres quem dá mais importância ao papel da Segurança Social na reforma e nas prestações sociais. Também quem tem salários mais baixos e/ou contratos precários. Contudo, mais de 80% dos jovens inquiridos dão credibilidade a esta entidade.
Renato Miguel do Carmo repara: “Apesar de tudo, é importante para as políticas públicas existir este nível de confiança generalizada dos jovens, essa valorização.”