O
que levou a Sonae a assumir a requalificação profissional como um eixo central da sua responsabilidade corporativa?
A decisão da Sonae nasce da convergência de dois fatores: por um lado, a aceleração tecnológica e verde, que está a transformar profundamente o mercado de trabalho; por outro, a consciência de que essa transformação pode acentuar desigualdades e comprometer a competitividade, se não for acompanhada por respostas estruturadas.
Enquanto grupo com forte impacto económico e social, entendemos que a empregabilidade ao longo da vida deve ser encarada como uma responsabilidade partilhada entre empresas, Estado e sociedade civil. Foi neste contexto que, em 2021, lançámos o PRO_MOV, desafiando o modelo tradicional de formação, ao desenhar percursos a partir das necessidades reais das empresas e do mercado de trabalho, criando oportunidades concretas de integração profissional. Este compromisso evoluiu, mais recentemente, com o lançamento da New Career Network, que responde a um mercado de trabalho cada vez mais marcado por percursos não lineares e por uma lógica de competências transferíveis.
Que aprendizagens mais relevantes marcaram a forma como encaram, hoje, a requalificação, a empregabilidade e a aprendizagem ao longo da vida?
Aprendemos que a requalificação exige uma leitura contínua e muito próxima do mercado de trabalho, num contexto de mudança rápida, em que competências críticas hoje podem tornar-se obsoletas num curto espaço de tempo. Ficou também claro que este é um território ainda em consolidação, tanto para profissionais como para empresas, exigindo mudança de mentalidades, maior literacia sobre competências transferíveis e modelos de aprendizagem mais flexíveis. Hoje, encaramos a requalificação não como uma resposta excecional, mas como um pilar central da empregabilidade sustentável ao longo da vida.
O PRO_MOV assenta num modelo de colaboração entre entidades públicas, empresas e pessoas. O que o distingue e que fatores têm sido determinantes para gerar impacto real no mercado de trabalho?
O PRO_MOV distingue-se por uma articulação clara de papéis: o setor público cria enquadramento e escala; as empresas identificam necessidades de talento e cocriam os percursos formativos; e as pessoas assumem-se como protagonistas da sua própria requalificação. Esta abordagem, que parte da procura real do mercado para desenhar a oferta formativa, tem sido determinante para garantir relevância, empregabilidade e impacto. A confiança entre parceiros e a forte orientação para resultados, em particular no que respeita à integração profissional sustentada, são fatores-chave. Juntamente com a Sonae, são parceiros fundadores do PRO_MOV, o IEFP, a Nestlé e a SAP. A ABRP, a CIP e a Fundação Belmiro de Azevedo são parceiros institucionais do projeto.
Do ponto de vista das empresas envolvidas, que necessidades estão a ser respondidas através do PRO_MOV e com que impacto?
O PRO_MOV tem respondido a necessidades em áreas como tecnologia, indústria, agricultura, saúde, logística, serviços e funções operacionais qualificadas, onde a escassez de talento é estrutural. Para as empresas, o impacto traduz-se no acesso a perfis ajustados, numa maior diversidade de percursos e no reforço do compromisso e da retenção dos profissionais integrados.
Que desafios estruturais permanecem e que ensinamentos estão a orientar a evolução futura destes programas?
Até ao momento, 2.700 pessoas passaram por processos de requalificação no PRO_MOV, o que muito nos orgulha. Persistem, no entanto, desafios como acompanhar a rápida evolução do mercado de trabalho e garantir a relevância contínua dos percursos formativos.
Outro obstáculo prende-se com a escala e a sustentabilidade dos modelos, assegurando que o crescimento não compromete a qualidade do acompanhamento individual, bem como com a necessidade contínua de trabalhar a mudança de mentalidades em torno da aprendizagem ao longo da vida.
De que forma está a New Career Network (NCN) a transformar a forma como profissionais e empresas encaram a transição de carreira e a requalificação para áreas de futuro?
A NCN nasce para responder ao paradoxo da escolha: nunca existiram tantas oportunidades de requalificação, mas essa abundância gera, frequentemente, desorientação. Assume-se como um ponto de referência claro e orientado para o futuro.
O seu compromisso passa por dar palco a formações de elevada empregabilidade, cuidadosamente selecionadas, que permitem transições reais para áreas de futuro. Todos os cursos integrados apresentam taxas de empregabilidade superiores a 70%. Este modelo é potenciado por uma plataforma de inteligência artificial, que orienta decisões mais informadas e sustentadas.
Olhando para o futuro, quais são as prioridades estratégicas para aprofundar o impacto do PRO_MOV e da New Career Network e como será esse impacto avaliado?
Nos próximos anos, a prioridade passa por aprofundar o impacto, reforçar parcerias e escalar modelos eficazes, garantindo qualidade e consistência. Será também central criar um maior sentido de urgência em torno da requalificação e encaminhar os cidadãos para áreas de elevada empregabilidade e de futuro. Indicadores como taxas de empregabilidade, satisfação dos participantes e alinhamento entre competências adquiridas e funções desempenhadas serão centrais para uma avaliação objetiva e responsável do impacto.
PRO_MOV
- Lançamento: 2021
- N.º de pessoas abrangidas: 2719
- N.º de empresas envolvidas: 204
- Taxa de empregabilidade: ~70%
NCN
- Criação: 2024
- + de 8 mil vagas de emprego
- N.º de cursos: 77
- N.º de utilizadores registados: + 23 mil
- Visitas únicas ao site: 117 mil
Artigo publicado na edição 162 da RHmagazine, referente aos meses de janeiro e fevereiro de 2026
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