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ideia de que a inteligência artificial (IA) vai substituir empregos de forma massiva continua a dominar o debate público. Mas os dados mais recentes sugerem um cenário para já, menos dramático.
Um estudo da Anthropic mostra que, apesar do avanço acelerado da tecnologia, o impacto real no mercado de trabalho está ainda longe do seu potencial teórico. Há profissões sob pressão crescente, mas há também milhões de empregos que permanecem, por enquanto, fora do radar da IA.
No centro desta análise está uma nova métrica – designada “exposição observada” – que procura medir não o que a IA poderá gerar, mas aquilo que já está efetivamente a fazer no mundo do trabalho. E é precisamente nesta diferença entre capacidade e utilização que reside uma das principais conclusões: a disrupção existe, mas está a acontecer de forma gradual e desigual.
A Anthropic cruzou três fontes: a base de dados O*NET, que abrange cerca de 800 profissões nos Estados Unidos; dados reais de utilização do modelo Claude; e um estudo académico de 2023 que avalia se a IA consegue reduzir para metade o tempo necessário para executar tarefas. A partir desta combinação, cada profissão recebeu uma pontuação de exposição. Valores elevados indicam que a IA já executa uma parte significativa das tarefas, enquanto valores nulos significam ausência relevante nos dados de utilização.
Os resultados revelam um desfasamento expressivo entre potencial e realidade. Em teoria, a IA poderia executar até 90% das tarefas em funções administrativas e de escritório. Contudo, na prática, a utilização observada cobre apenas cerca de um terço das tarefas nas áreas mais expostas, como informática e matemática.

As profissões mais expostas
Entre as funções com maior exposição, os programadores informáticos lideram, com cerca de 75% de cobertura de tarefas. Neste domínio, a utilização do Claude já vai além do apoio à produtividade, aproximando-se de cenários de automação direta.
Seguem-se os assistentes de apoio ao cliente, onde as empresas começam a substituir, de forma discreta, agentes humanos por sistemas de IA, e os profissionais de introdução de dados, com 67% de cobertura, Outras funções com elevada exposição incluem analistas financeiros, funções administrativas e, de forma mais abrangente, trabalhadores das áreas da informática e matemática, onde a exposição observada ronda os 33% e continua a crescer.

Os empregos (para já) fora do radar da IA
Por outro lado, cerca de 30% dos trabalhadores apresentam uma exposição nula. São profissões cujas tarefas não surgem de forma relevante nos dados de utilização da IA.
Neste grupo estão cozinheiros, mecânicos de motociclos, nadadores-salvadores, bartenders e, entre outros, trabalhadores agrícolas. Também a advocacia surge como pouco exposta, dada a exigência de presença física, julgamento contextual e interação em tempo real.
Um dos dados mais relevantes do estudo diz respeito ao perfil dos trabalhadores mais expostos. Segundo o Current Population Survey, são tendencialmente mais velhos, qualificados, maioritariamente mulheres e com salários cerca de 47% superiores aos trabalhadores sem exposição.

Este padrão contraria ciclos anteriores de automação, que afetavam sobretudo funções menos qualificadas. Desta vez, a pressão incide diretamente sobre profissões de escritório e funções especializadas.
O primeiro sinal surge na entrada no mercado
Apesar de não existir, para já, evidência de aumento generalizado do desemprego entre os trabalhadores mais expostos, começam a surgir sinais subtis de mudança, sobretudo no acesso ao mercado de trabalho. Entre jovens dos 22 aos 25 anos, a taxa mensal de entrada em profissões altamente expostas caiu cerca de 14% desde o final de 2022, período imediatamente anterior ao lançamento do ChatGPT. O impacto da IA poderá estar, assim, a manifestar-se primeiro na contratação e não na substituição direta de trabalhadores.
Os investigadores sublinham que estas conclusões não são definitivas. O objetivo passa por acompanhar a evolução da tecnologia e atualizar as métricas à medida que a sua utilização se expande.
Para já, o retrato é claro: a IA está a transformar o trabalho, mas fá-lo de forma progressiva, assimétrica e, em muitos casos, ainda pouco visível. Para as organizações, o desafio passa por antecipar esta transformação, ajustando estratégias de talento, requalificação e recrutamento, num contexto em que o impacto pode não ser imediato, mas tende a ser estrutural.
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