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Formação em 2026: especialistas determinam o que separa L&D com impacto do invisível

O futuro do Learning and Development (L&D) está a ser desenhado agora. A RHmagazine ouviu a PwC’s Academy, a Nestlé, a Galp, o novobanco e a Academia Montepio para perceber que decisões estratégicas estão a ser tomadas para este ano e que critérios vão determinar quem prova valor e quem perde relevância.

Ana Rita Rebelo Por Ana Rita Rebelo
4 de Março, 2026
em APRENDIZAGEM & FORMAÇÃO, DESTAQUE DA SEMANA
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Formação em 2026: especialistas determinam o que separa L&D com impacto do invisível
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Em 2026, a formação é chamada a provar, com dados, aquilo que durante anos prometeu em discurso: impacto no negócio. Já não basta cumprir planos anuais ou somar horas de aprendizagem. Para os especialistas ouvidos pela RHmagazine, a exigência é outra: resolver dores concretas, acelerar decisões, reduzir ineficiências e produzir indicadores que resistam à análise financeira.

A PwC, através da PwC’s Academy, sintetiza esta mudança de paradigma ao identificar como prioridade para 2026 a reorientação estratégica dos próprios departamentos de L&D, defendendo que a função de formação deve evoluir para um modelo mais alinhado com o negócio e suportado por métricas.

E se o desafio for a maturidade do próprio L&D?

A reflexão mais estrutural surge da PwC’s Academy. “Aquilo que temos sentido em diversos clientes é a necessidade de reorientação do próprio departamento de formação. Perante um mundo disruptivo, onde os radares estão virados para a capacitação do talento, existem departamentos de formação que precisam de se reinventar para conseguir dar resposta a estes desafios”, afirma Catarina João Morgado, Diretora da PwC’s Academy.

Catarina João Morgado, Diretora da PwC’s Academy

O ponto de partida é diagnóstico. “A análise de maturidade de L&D da PwC’s Academy permite às organizações compreenderem de forma objetiva em que ponto estão na sua jornada de aprendizagem, avaliando o grau de alinhamento entre práticas de formação, necessidades estratégicas e impacto no negócio.” O modelo posiciona a função numa escala que “pode ir do nível utilitário até modelos dinâmicos e integrados de aprendizagem” e analisa dimensões como estratégia de L&D, cultura de aprendizagem, oferta formativa, processos operacionais, tecnologia e capacidades das equipas.

“O valor desta análise está não só na leitura qualitativa das práticas existentes, mas sobretudo na capacidade de gerar indicadores quantificáveis, que permitem passar a medir, monitorizar e justificar o investimento em aprendizagem.”

Num contexto de maior exigência orçamental e pressão por resultados, esta capacidade de provar valor torna-se decisiva. A formação que não “fala” a linguagem do negócio arrisca-se a perder relevância.

Na Nestlé Portugal, “identificámos uma situação em que existem equipas (ou pessoas dentro das equipas) com muito tempo consumido por trabalho rotineiro e repetitivo que necessitava de ser otimizado”, explica Marcelo Fonseca, Iberian Learning & Development Lead. Relatórios manuais, validações em Excel e consolidações dependentes das mesmas pessoas criavam fricção, atrasavam decisões e absorviam horas de trabalho que poderiam ser canalizadas para tarefas de maior valor.

A resposta foi assumidamente pedagógica: “Foi estruturada uma iniciativa de formação como um piloto com um grupo pequeno, precisamente para testar uma abordagem muito prática.” “Para a Nestlé, a formação tem um papel muito relevante para o desenvolvimento de competências, aumentar a motivação, a retenção e o envolvimento dos colaboradores, promover a inovação e a transformação digital, assim como reforçar a nossa cultura organizacional.”

Marcelo Fonseca, Iberian Learning & Development Lead da Nestlé Portugal

Daqui nasceu a prioridade para 2026: “Priorizaria uma iniciativa transversal de literacia prática em ferramentas digitais e IA, com foco em três aspetos: conhecer que ferramentas existem, perceber o seu potencial e, sobretudo, começar a experimentar com segurança no dia a dia”.

Mais do que tecnologia, está em causa mudança cultural. “A transformação acelera quando as pessoas deixam de encarar a tecnologia como ‘um projeto de especialistas’ ou ‘do departamento de IT’ e passam a sentir que têm ferramentas úteis nas mãos.” E, “quando alguém entende bem o que uma ferramenta executa, como se usa e quais são os limites, começa naturalmente a identificar oportunidades no próprio trabalho. É quase inevitável passarem a aparecer casos de uso, melhorias, automação de tarefas repetitivas e, a partir daí, a mudança ganha tração sozinha”.

Para garantir impacto, o desenho da aprendizagem é determinante. “Para garantir resultados mensuráveis e sustentáveis, esta iniciativa não deve ficar num modelo apenas informativo. Deve incluir momentos curtos de demonstração, prática guiada e um espaço de experimentação onde cada participante sai com pelo menos um caso aplicado no seu contexto”, aponta. “O objetivo desta iniciativa traduz-se em criar confiança para usar, criar linguagem comum e criar massa crítica para que a inovação venha também ‘de baixo para cima’.”

Os resultados já são visíveis. “Há já casos em que colaboradores criaram automações em VBA para acelerar consolidações e validações em ficheiros recorrentes e, noutros, pequenos scripts em Python que reduziram em mais de 60% o tempo gasto em tarefas regulares e rotineiras.” Mas “mais interessante do que poupança otimização de tempo de trabalho é o efeito cultural: pessoas que nunca tinham programado, começaram a criar soluções, a documentar passos, a partilhar com colegas e a olhar para o trabalho com outra lente. Ou seja, não é só eficiência, é autonomia e confiança”.

“A principal recomendação da Nestlé para quem quiser replicar esta iniciativa é não tratar isto como uma ‘formação de ferramentas’”, conclui.

Sustentabilidade como competência crítica

Se na indústria alimentar o foco está na eficiência e autonomia, na Galp a formação acompanha duas transformações estruturais do setor: sustentabilidade e inteligência artificial (IA). Num contexto de transição energética e pressão regulatória, a capacitação interna em ESG deixa de ser discurso e passa a ser condição de competitividade.

“O tema sustentabilidade tem sido um pilar essencial para o nosso setor, não apenas como resposta às exigências globais de redução de emissões e transição energética, mas também como condição para garantir resiliência operacional, reputacional e financeira”, afirma Marisa Conde, especialista de L&D da Galp.

Marisa Conde, especialista de L&D da Galp

O modelo é híbrido, global e transversal. “Trata-se de um conjunto de iniciativas, presenciais (síncronas) com peritos em cada pilar e uma curadoria digital de conteúdos Galp e externos.” A aprendizagem é reforçada com partilha interna: “Disponibilizamos conversas (webinars que ficam depois disponíveis como gravações) com colegas que apresentam exemplos do que estamos a fazer em cada área”.

Em paralelo, a IA surgiu de forma orgânica. “Em 2024, no processo de levantamento de necessidades, destacou-se a curiosidade e necessidade dos colaboradores em relação ao potencial da inteligência artificial”, conta. A experiência com o Microsoft Copilot revelou-se catalisadora: “Para muitos, esta oportunidade revelou-se um verdadeiro sucesso, demonstrando como a integração de IA pode simplificar tarefas, acelerar processos e abrir novas possibilidades de trabalho com métricas de satisfação e de impacto surpreendentes. A análise da utilização das ferramentas M365 com ajuda de IA tem vindo a demonstrar, de forma consistente a eficácia do programa de aprendizagem.”

A lição é clara: “A realização de um diagnóstico de necessidades rigoroso é essencial para desenhar jornadas híbridas de aprendizagem que combinem diferentes soluções formativas adequadas aos vários níveis de proficiência e criem experiências realmente relevantes para os colaboradores.” Antes de formar, é preciso escutar e medir.

No caso do novobanco a prioridade para 2026 é “evoluir da literacia digital para a orquestração do trabalho com IA, através de um plano de capacitação de competências digitais e do uso de agentes”. Como explica Ana Vala, Head of L&D do novobanco, esta abordagem “permite ligar a aprendizagem diretamente aos processos core do negócio, capacitar por níveis de maturidade e garantir um modelo robusto de governance e qualidade, assegurando que a IA é usada de forma segura, responsável e com impacto real na produtividade individual e da nossa organização”.

A iniciativa resulta da integração do Programa Ser Digital com o Programa de Aceleração Copilot e surgiu para  responder a três desafios concretos: “A diversidade na literacia digital, a subutilização do ecossistema Microsoft 365 e a crescente exigência de eficiência, rapidez e inovação num contexto altamente regulado”.

Ana Vala, Head of L&D do novobanco

“Um diagnóstico de cultura digital e gestão de equipas híbridas “permitiu identificar necessidades reais e orientar o programa. Seguiram-se “masterclasses de mindset digital, workshops práticos organizados por clusters de desenvolvimento (produtividade, colaboração, automação e análise de dados) e ações específicas para líderes de equipas híbridas”.

Ana Micaela Vala revela que “o Programa de Aceleração Copilot focou-se na adoção prática da IA, com exploração de casos de uso reais, workshops com diferentes níveis de proficiência e o envolvimento ativo da comunidade de Learning Champions, assegurando impacto direto no trabalho diário”.

O acompanhamento é feito com métricas operacionais: “a adoção efetiva das ferramentas, a utilização do Copilot em processos reais, ganhos de eficiência e autonomia das equipas, e a criação de comunidades internas que sustentam a mudança”, realça.

Para quem pretenda replicar a iniciativa, as recomendações são “garantir uma forte ligação entre negócio e academia, começar sempre pelo diagnóstico, conectar a formação a casos de uso concretos, investir em comunidades de Champions e medir impacto no negócio, e não apenas volume de formação”, promovendo uma transformação digital sustentável e orientada a resultados.

Liderança intermédia: o elo crítico da execução?

No setor financeiro, a preocupação centra-se na consistência e no alinhamento estratégico. A Academia Montepio, estrutura do Banco Montepio, definiu como prioridade um modelo integrado de competências.

Lurdes Romeiro Serrão, da Academia Montepio

“Esta iniciativa combina formação técnica (risco, produto, processos), formação de negócio (CRM, atendimento, execução comercial) e desenvolvimento comportamental”, explica Lurdes Romeiro Serrão, da Academia Montepio. O objetivo é claro: acelerar talento, reforçar agilidade organizacional e garantir alinhamento estratégico.

A visão ganhou forma no programa VENCER para gerentes, criado para responder à “variabilidade na preparação técnica e comportamental de gerentes recentemente nomeados”. Num setor onde a execução depende fortemente da liderança intermédia, a inconsistência torna-se risco operacional.

O programa integrou módulos técnicos, comerciais e de liderança, com aplicação prática e casos reais. Os efeitos observados apontam para maior autonomia, redução de erros operacionais e maior consistência entre direções comerciais, indicadores diretamente ligados à eficiência e ao foco comercial.

Da experiência, Lurdes Romeiro Serrão sintetiza recomendações objetivas para quem pretenda replicar o modelo:

  1. Envolver desde o início as áreas de negócio para garantir alinhamento;
  2. Combinar conteúdos técnicos, comerciais e comportamentais;
  3. Priorizar metodologias práticas e imediatamente aplicáveis;
  4. Medir resultados simples, mas relevantes, como autonomia, consistência, qualidade da execução;
  5. Garantir continuidade.

O que muda para os RH

Os exemplos partilham um denominador comum: a formação que gera impacto começa por um problema concreto, desenha experiências aplicadas e mede efeitos operacionais. O que está em causa não é apenas atualizar conteúdos, mas reposicionar a função.

Em 2026, o L&D é chamado a:

  • Diagnosticar com rigor;
  • Priorizar com critério estratégico;
  • Experimentar em escala controlada;
  • Medir antes de escalar;
  • Traduzir aprendizagem em indicadores de negócio.

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