Qual a importância de avaliar a implementação e o impacto da Inteligência Artificial nas empresas?
Avaliar o estado da implementação e o impacto da Inteligência Artificial (IA) nas empresas e nas pessoas é importante, sobretudo devido aos receios e ideias preconcebidas que rodeiam esta tecnologia e as consequências da automação. A verdade é que a IA já está a mudar o mundo do trabalho, com impactos nas funções, na criação de emprego e na produtividade e inovação. Perceber as vantagens e os desafios, tanto para empresas como trabalhadores, ajuda-nos a aumentar a confiança e a tomar decisões mais informadas.
O estudo indica que, até 2027, 81% das empresas deve usar Inteligência Artificial. Quais são as principais consequências desta realidade para os colaboradores?
Os impactos da IA não serão os mesmos em diferentes indústrias e empresas, pelo que, naturalmente, as consequências específicas para os trabalhadores podem variar consoante o setor, a função e as circunstâncias individuais. No entanto, há um conjunto de impactos que estão hoje claramente identificados.
Com a IA esperamos uma maior produtividade do trabalho, com um foco dos trabalhadores em atividades de maior valor acrescentado. A IA irá permitir automatizar determinadas tarefas e processos, libertando os colaboradores para as atividades que exigem mais pensamento crítico, criatividade e interação humana. Isto, naturalmente, deverá levar a um aumento da eficiência no local de trabalho.
Não obstante, para que esta promessa de criação de mais valor se torne efetiva, será necessário que os trabalhadores estejam capacitados para trabalhar com estas ferramentas. Vão ter de aprender a colaborar eficazmente com os sistemas de IA, ultrapassando receios e conseguindo que esta aumente as suas funções. Isso implica desenvolver um nível de conforto e proficiência na utilização dos sistemas de IA que lhes permita compreender como tirar partido dos mesmos para melhorar o seu trabalho e maximizar os seus benefícios.
A IA irá permitir automatizar determinadas tarefas e processos, libertando os colaboradores para as atividades que exigem mais pensamento crítico, criatividade e interação humana.
A segunda grande consequência está intimamente ligada com a primeira e prende-se com a necessidade de atualização de competências e requalificação dos trabalhadores face às previsíveis mudanças nas funções e no mercado de trabalho.
De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), até 2030, 1,1 biliões de empregos são suscetíveis de ser transformados de forma radical pela tecnologia. Face a esta transformação, os trabalhadores terão de adquirir novas competências que os capacitem no uso das novas tecnologias, permitindo-lhes desempenhar as suas atuais funções, redesenhadas, ou acederem a novas funções, mantendo a sua empregabilidade e relevância no mercado de trabalho. Neste âmbito, as empresas têm um papel importante a assumir, desenvolvendo programas de formação e de upskilling que ajudem os trabalhadores a desenvolver as competências necessárias para trabalhar com a IA.
Os trabalhadores terão de adquirir novas competências que os capacitem no uso das novas tecnologias.
Dado o atual cenário de escassez de competências, atrair talento externo para responder às necessidades desta transformação não será suficiente. As empresas devem construir esse talento, apostando nas equipas, no seu potencial e nas competências transferíveis.
Finalmente, um elemento importante que devemos também ter em conta e que irá impactar os trabalhadores prende-se com as considerações éticas e a privacidade dos dados. À medida que a IA se torna mais integrada nas empresas, as considerações éticas ao nível da transparência e compreensão das decisões e da proteção dos dados serão cada vez mais importantes, podendo impactar o desempenho das funções. As empresas devem, por isso, estabelecer diretrizes e políticas, e mesmo um comité de IA, para assegurar a conformidade legal e ética na utilização da IA.
Qual é a possível explicação para serem as lideranças séniores e intermédias as mais otimistas relativamente ao impacto da Inteligência Artificial?
Efetivamente observamos uma variação no sentimento dos trabalhadores, consoante o nível hierárquico, com os trabalhadores da linha da frente, a mostrar um menor otimismo. Isto deve-se a um conjunto de fatores, que poderão ser mais da ordem da perceção do que um efeito real esperado.
Uma preocupação comum em torno automação e da IA é a de que esta resultará na perda de empregos em larga escala, já que o trabalho anteriormente feito por pessoas é assumido pela tecnologia. Como os postos de trabalho da linha da frente envolvem frequentemente tarefas repetitivas e de rotina, que são mais suscetíveis de ser automatizadas, esse receio pode ser exacerbado junto destes trabalhadores, que acreditam que os seus empregos poderão ser mais facilmente substituíveis por tecnologias de IA.
De facto, a investigação sugere a adoção das novas tecnologias tem resultado realmente num aumento líquido do número de empregos e os dados mais recentes do estudo de Global Insight sobre IA, do ManpowerGroup, revelam que 48% dos empregadores antecipam um aumento nas suas equipas, em consequência da adoção da IA e do Machine Learning, face a 25% que esperam reduções. O saldo esperado, ao nível da criação de emprego, é por isso claramente positivo.
O saldo esperado, ao nível da criação de emprego, é por isso claramente positivo.
Para além disso, a maior capacidade da IA generativa para compreender a linguagem natural significa que esta vai ter um impacto maior que tecnologias anteriores de automação nos trabalhadores do conhecimento e em funções menos manuais. Por isso, estas funções irão também evoluir, com a IA a assumir algumas tarefas repetitivas e rotineiras e os trabalhadores a poderem focar-se mais em atividades que exigem criatividade, pensamento crítico, competências interpessoais e inteligência emocional.
Em resumo, é claro que trabalhadores e funções de todos os níveis serão impactados. Segundo dados da McKinsey, até 375 milhões de trabalhadores em todo o mundo poderão ter de mudar de profissão ou aprender novas competências até 2030 devido à automatização. Mas enquanto algumas funções serão automatizadas ou desaparecerão, outras novas funções e oportunidades de emprego vão também surgir. O desafio está em minimizar o impacto desta disrupção no emprego e nos trabalhadores e, nesse âmbito, as estratégias de reskilling e upskilling tornam-se fundamentais. As organizações e os decisores políticos têm de considerar estratégias para requalificar e melhorar as competências dos trabalhadores, da linha da frente e não só, permitindo-lhes adaptarem-se a um mundo do trabalho em mudança e garantirem uma transição suave para novas funções.
Qual a possível explicação para a resistência à mudança ser verificada como um dos principais desafios da implementação da Inteligência Artificial?
Prende-se muito com os elementos já referidos na pergunta anterior e com o receio face à mudança e ao desconhecido. E efetivamente o fator humano pode definir o sucesso ou insucesso das iniciativas de transformação nas empresas.
O estudo indica que os empregadores esperam impactos positivos da implementação da IA no desempenho geral das suas empresas e negócios. No entanto, uma vez mais, esta promessa de resultados futuros não depende só da tecnologia. Muitas transformações falham, não devido a um planeamento deficiente ou a tecnologias inadequadas, mas sim devido a uma incapacidade de integrar, motivar e capacitar adequadamente as pessoas para a mudança e para as novas formas de trabalhar. Claramente, o segredo de uma transformação de sucesso assenta predominantemente nas pessoas que compõem a organização.
Só as empresas com uma força de trabalho empenhada e motor dessa inovação conseguirão realmente ver melhorias contínuas na sua eficiência e o crescimento diferencial que lhes permitirá prosperar no atual ambiente de transformação.
Quais podem ser os principais argumentos para incentivar a implementação de Inteligência Artificial numa empresa?
Há vários argumentos que suportam o atual interesse e apetência das empresas para adotar a IA. A IA permite às empresas aumentar a sua eficiência e produtividade, já que possibilita automatizar tarefas repetitivas, libertando os colaboradores para se concentrarem em tarefas mais estratégicas e complexas, que trazem mais valor para o negócio. Por outro lado, estas tecnologias permitem também às empresas reduzir custos, através da automatização de processos que, de outra forma, exigiriam trabalho humano. Desta forma reduz-se tempo, recursos e custos associados. Para além disso, a adoção da IA é frequentemente associada também a uma melhor capacidade de tomada de decisões: os sistemas e algoritmos de IA podem analisar grandes volumes de dados e fornecer informações valiosas para apoiar os processos de tomada de decisão, pelo que capacitam as empresas para avançar de forma mais informada e baseada em dados.
Em resumo, as empresas que adotam as tecnologias de IA podem ganhar uma vantagem competitiva no mercado – e é essa claramente a perceção das empresas inquiridas no nosso estudo, com 72% dos empregadores nacionais a antecipar impactos positivos no desempenho geral dos negócios. A IA permite melhorar a eficiência operacional, desenvolver a inovação e acelerar o crescimento dos negócios.
De acordo com o estudo, a maioria dos inquiridos considerou que a Inteligência Artificial aumentaria o número de colaboradores de uma empresa. Concorda? Porquê?
Sim. Como referido anteriormente, a IA vai provocar uma disrupção significativa no mercado de trabalho. De acordo com o Fórum Económico Mundial, os empregadores prevêem um impacto em 23% dos postos de trabalho nos próximos cinco anos, sendo que este impacto pode ser de diferentes ordens, entre novos empregos que surgem e empregos em declínio que desaparecem. No entanto, a experiência passada e a investigação mostram que, de facto, a adoção das novas tecnologias tem resultado num aumento líquido do número de empregos. As empresas que investem em tecnologia acabam muitas vezes por empregar mais trabalhadores, em resultado do reforço da sua atividade resultante desse investimento.
Dito isto, é importante realçar mais uma vez o desafio estratégico da capacitação do talento e do foco nos trabalhadores, à medida que integramos a IA nas nossas organizações. Num ambiente de trabalho em evolução tecnológica contínua, manter-se atualizado em termos de competências é um desafio para os trabalhadores. O estudo Immersive Tech Report da Experis revelou, por exemplo, que 63% dos inquiridos não têm experiência com o Metaverso num contexto profissional, sendo esta uma tecnologia que 70% das organizações planeia implementar no futuro.
Os trabalhadores precisarão, por isso, de apoio para aprender novas competências que os capacitem na sua atual função ou para fazer a transição para uma nova função. Face a este cenário, é cada vez mais fundamental que os empregadores desenvolvam um ecossistema que apoie continuamente o desenvolvimento das competências dos seus trabalhadores, ajudando-os nesta transição, para que possam manter a sua empregabilidade e prosperar nas suas carreiras.
