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Opinião: Da necessidade de uma gestão de RH politicamente correta

IIRH Por IIRH
1 de Janeiro, 2021
em CRÓNICAS & OPINIÃO, GESTÃO DA CARREIRA RH, RECRUTAMENTO & ONBOARDING
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Níveis de engagement dos colaboradores regressam a máximos históricos
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POR:

Anabela Moreira – Managing Partner UpTogether Consulting

 

Quem me conhece sabe que sou pouco politicamente correta. Gosto de dizer as coisas com a frontalidade que necessitam e a assertividade que consigo ter naquele momento. No entanto, durante o período de confinamento comecei a apreciar o politicamente correto de muitas coisas, inclusive relacionadas com a gestão de recursos humanos e com a gestão empresarial.

Na empresa que dirijo, para além da assistência contratada que damos diariamente aos nossos clientes, tratamos, sempre que possível de desbloquear situações que nos pedem e fazemos com gosto, só para que possam também eles estar bem. E deparei-me, neste assistir clientes e mesmo com coisas da minha empresa em factos que não me servem e, de facto, nunca serviram, mas que são reiterados.

Vou começar por dar alguns exemplos práticos:

Porque é que investimos em Employer Branding?

Quando trabalhava por conta de outrem e em grandes empresas (mesmo nas médias), havia um grande investimento em employer branding: posicionar a empresa como bom empregador e a melhor empresa para se trabalhar.  Hoje olho para trás…

As mesmas empresas que investiam na altura em employer branding, são exatamente aquelas que, após as pessoas remeterem CVs para candidaturas, nunca recebiam respostas. São piores empregadores por isso? Não são. O ambiente de trabalho é exatamente o mesmo e os salários de benefícios não mudam. O volume de candidaturas é tão grande que não respondem e não têm sequer mensagens automáticas de comunicação adequadas. São sempre frias e distantes. Algo do tipo “se não o contactarmos em 15 dias, não foi selecionado e perdoe-nos pela ausência de resposta”.

Porque é que investimos em employer branding se falhamos nesta simples comunicação a uma pessoa que vem ter connosco e quer trabalhar connosco? Metemos o orçamento de employer branding diretamente por terra.

Quando falo nisto e me dizem “já não é assim”, peço aos meus colegas para verem junto dos respetivos departamentos se “já não é assim”, e alguns confirmam-me “de facto, ainda é assim”.

Sou 100% a favor de uma gestão de talentos politicamente correta, onde as pessoas não recebem respostas de bots mas de pessoas e onde recebem respostas.

Porque é que contratamos recrutadores e pessoas especializadas em trabalho administrativo?

Vejo cada vez mais pessoas mesmo muito novas nas novas funções como “gestores de talentos” e “recrutadores” e fico mesmo feliz porque pessoas novas trazem ideias também elas novas. Mas insisto em dizer que pessoas novas trazem novidade e pessoas seniores trazem resolução de problemas. Nunca contrato consultores jovens por exemplo. Quero que me resolvam problemas e sei, por facto, que isso acontece em pessoas experientes.

No entanto, contratamos recrutadores e esperamos deles o melhor trabalho possível e sei que fazem o melhor trabalho possível com o que sabem e sentem naquele momento. No entanto, como qualquer ser humano, têm emoções, medos e reações. E com isso excluem porque é gordo, é magro, vestia mal ou outros que tais. Falo na primeira pessoa e estou em fóruns de supervisão empresarial em que recém-empreendedores falam do mesmo. Pessoas amplamente capazes e discriminadas por ser geek ou eu, por ter 100 kg há 3 anos quando votei ao mercado e não servi para lado nenhum (minto: servi para a Jason Associates onde a Sónia Lara Nunes viu mais que um corpo). Mas notava que incomodava a 98% das pessoas que me entrevistavam. Preconceitos que ligam o peso ao desleixo e não à saúde (ou falta dela). “Já não é assim Anabela”, vão dizer. Eu digo: é, é assim.

É humano? É. Temos de trabalhar para sair desta falácia da imagem ainda que tudo seja branding. É politicamente correto ouvir a pessoa, sentir a pessoa, questionar para perceber as competências e não a excluir em função de “nadas”. Por isso sou 100% a favor de um recrutamento politicamente correto.

Ao mesmo tempo, sou a favor de que se leia o CV das pessoas de antemão, e que não se vá ler em frente à pessoa. A entrevista não é para isso: é para dúvidas, é para conhecer aquela pessoa e não o percurso profissional que nos entrou na porta dias antes. Sou a favor de se ler e estudar e por isso ser politicamente correta com as pessoas na entrevista.

Sou a favor de uma gestão politicamente correta

Falamos muito de humanismo e liderança, muito mesmo. E investimos imenso nisso. O que é chover no molhado já que somos todos humanos e o humanismo nunca deveria ser uma bandeira. Como digo e incomoda muita gente: se houvesse respeito não precisava haver direito.

E não. Nem direito, nem lei.

Mando muitas vezes elogios a pessoas pelos posts que fazem no Facebook e grande parte das vezes não tenho respostas. São bandeiras de nada os posts. Ou, pelo oposto, quando tenho algum problema, tento abordar as pessoas dessa empresa para resolver proactivamente. Como fiz recentemente com a IKEA que não responde há 3 meses e manda e-mails de mês a mês a 2 associações que me contrataram para fazer 2 casas abrigo para pessoas em situação de pobreza e exclusão. Ora bem, nem cartão, nem prazos de pagamento e tudo enviado, nenhuma resposta. Quando há, é para se desculparem com o Covid e para pedirem as mesmas coisas do último e-mail, o de há 1 mês atrás. Abordei pessoas da IKEA no linkedin e seria politicamente correto dizerem: “vamos ver” ou “vou passar”. Mensagens lidas e situação igual. Tanto investimento em marketing para quê? Humanismo? É politicamente correto responder. E é humano. Responder sempre.

Poderia continuar e dar exemplos. Fazer métricas, mas o objetivo não é acusar. O objetivo é a autoanálise e a análise aos nossos negócios e ao que pretendemos fazer. Adianta investir para atrair pessoas que as expulsamos com a nossa falta de comunicação? Numa época em comunicamos unilateralmente tanto, comunicamos em comunidade tão pouco.

 

Seja politicamente correto e coerente com os seus investimentos. Sendo politicamente correto nem precisa ser muito humano, só porque já o é.

 

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