As dificuldades na negociação salarial, a penalização das interrupções de carreira e a falta de preparação para a reforma continuam a condicionar a autonomia financeira das mulheres. Estes foram alguns dos desafios debatidos no pequeno-almoço dedicado à literacia financeira no feminino, promovido recentemente pela RHmagazine, com o apoio do Doutor Finanças. O encontro, realizado no Centro de Bem-Estar do Doutor Finanças, em Algés, reuniu um grupo exclusivo de responsáveis de recursos humanos (RH).
Duas pessoas podem iniciar a carreira em condições semelhantes e chegar à reforma com uma segurança financeira muito diferente. Pelo meio, contam as interrupções profissionais, as oportunidades de progressão, as decisões sobre remuneração e a forma como são repartidas as responsabilidades familiares. A desigualdade entre homens e mulheres, como concluíram as participantes, não se explica apenas pelo salário.
Foi este um dos pontos de partida para a conversa que reuniu representantes da Accenture Portugal, Brisa, Ericsson, MSD Portugal, Noesis e Oniverse. Ao longo da manhã, as responsáveis cruzaram experiências e práticas empresariais para discutir o que continua a dificultar a autonomia económica das mulheres e de que forma as organizações podem contribuir para a reforçar.
A maternidade surgiu como um dos exemplos mais evidentes. As interrupções de carreira podem ter consequências que ultrapassam largamente o período de ausência, refletindo-se nas oportunidades de promoção, na evolução salarial e, mais tarde, no valor da pensão de reforma.
Mas o debate não se ficou pelas licenças parentais. As participantes questionaram também a persistência de culturas de trabalho que confundem disponibilidade com desempenho e acabam por valorizar quem permanece mais tempo no escritório ou consegue participar em reuniões fora de horas.
A discussão estendeu-se aos processos de recrutamento e progressão. Segundo as experiências partilhadas, as diferenças podem começar logo na negociação do primeiro salário e prolongar-se nas decisões de candidatura a funções de maior responsabilidade. A importância de incentivar as mulheres a concorrer a posições de liderança, dar-lhes maior visibilidade e assegurar que são consideradas nos processos de seleção esteve entre as medidas debatidas.

Mas garantir oportunidades profissionais é apenas uma parte da equação. A conversa avançou para uma questão que continua a suscitar constrangimento nas empresas: a relação dos trabalhadores com o dinheiro. O endividamento, a dificuldade em responder a despesas inesperadas e a ausência de planeamento financeiro não afetam apenas quem recebe salários mais baixos. Mesmo profissionais com rendimentos elevados podem enfrentar situações de fragilidade económica.
Foi neste contexto que a literacia financeira surgiu como uma dimensão do bem-estar que começa a reclamar maior atenção dos departamentos de RH. Tal como aconteceu com a saúde mental, as participantes defenderam a importância de trazer o tema para a agenda das organizações, sem desvalorizar a necessidade de garantir remunerações justas.
A experiência partilhada pelo Doutor Finanças levou a discussão mais longe: até que ponto um workshop sobre poupança ou gestão do orçamento consegue alterar comportamentos? A necessidade de adaptar a informação às diferentes fases da vida, assegurar acompanhamento continuado e proteger a confidencialidade dos trabalhadores esteve entre os desafios identificados. Também a comunicação dos benefícios financeiros, cujo valor nem sempre é compreendido pelos colaboradores, mereceu atenção.
No final, quando desafiadas a identificar o que mudariam nas suas organizações, as participantes regressaram a uma preocupação transversal ao encontro: o fosso entre as políticas e a sua aplicação no dia a dia. Da avaliação de desempenho à parentalidade, passando pelas oportunidades de liderança e pelos benefícios, defenderam que a igualdade exige decisões consistentes e chefias preparadas para reconhecer diferentes necessidades e percursos profissionais.
As reflexões reunidas ao longo deste pequeno-almoço serão agora desenvolvidas na edição 166 da RHmagazine, referente aos meses de novembro e dezembro de 2026.
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