Por Filipe Seixas, Business Director do ISQe
Até 2026, a maioria das funções empresariais será partilhada entre humanos e agentes de inteligência artificial (IA) – copilotos de produtividade, assistentes virtuais, bots analíticos e modelos preditivos que apoiarão a tomada de decisão e a execução de tarefas. Esta transformação não significa substituir pessoas, mas sim reinventar a forma como entendemos o talento, a liderança e o trabalho em equipa.
Num cenário em que as máquinas pensam, aprendem e executam com precisão, o verdadeiro fator competitivo deixa de ser apenas tecnológico. O que diferencia as organizações é a capacidade humana de criar sentido,
estabelecer relações de confiança, exercer empatia e inspirar colaboração.
A tecnologia amplia as nossas capacidades, mas são as competências humanas – as powerskills – que conferem direção, ética e propósito ao uso da IA. É neste contexto que surge a Gestão 6.0, um modelo evolutivo que combina inteligência humana, digital e emocional.
Este modelo propõe uma nova visão da liderança: mais fluida, colaborativa e inclusiva. O líder 6.0 deixa de ser o centro do comando para se tornar o orquestrador de um ecossistema cognitivo onde pessoas e algoritmos aprendem, interagem e evoluem em conjunto.
“Gerir talento, neste novo paradigma, significa gerir ecossistemas humanos-digitais. As equipas do futuro serão híbridas, compostas por pessoas e agentes de IA que colaboram entre si.”
Os recursos humanos (gestores de talento) também se encontram num ponto de viragem. Deixam de ser apenas facilitadores ou parceiros de negócio e passam a atuar como co-líderes estratégicos.
Neste novo papel, os profissionais de talento partilham com as lideranças a responsabilidade pela cultura, pelo desenvolvimento de talento e pela performance global. Para tal, precisam dominar tanto ferramentas tecnológicas – como People Analytics e plataformas de IA – como as powerskills que lhes permitem influenciar, mediar e humanizar a transformação: empatia organizacional, pensamento sistémico, comunicação estratégica e capacidade de antecipar impactos humanos da tecnologia.
Gerir talento, neste novo paradigma, significa gerir ecossistemas humanos-digitais. As equipas do futuro serão híbridas, compostas por pessoas e agentes de IA que colaboram entre si. Cada um desempenha papéis distintos, mas interdependentes.
Esta realidade traz novos desafios à gestão:
- Como liderar equipas onde parte dos membros são algoritmos?
- Como garantir segurança psicológica quando a IA influencia decisões?
- Como medir performance e mérito individual quando o output é partilhado com sistemas inteligentes?
De acordo com a McKinsey (2024), cerca de 30% das tarefas cognitivas serão automatizadas até 2030. Já a Gartner (2025) prevê que 25% da força de trabalho incluirá “digital teammates” – agentes de IA que atuarão como verdadeiros colegas de equipa. Estes agentes potenciarão a produtividade, analisarão dados em tempo real, anteciparão cenários e apoiarão decisões com base em padrões comportamentais.
Contudo, esta integração obriga a repensar profundamente os modelos de avaliação de desempenho. Já não basta medir eficiência ou resultados operacionais: será necessário avaliar competências humanas como ética, empatia, adaptabilidade e pensamento crítico.
A incorporação das powerskills nos processos de desenvolvimento e nas métricas de sucesso torna-se, assim, uma prioridade estratégica. As powerskills são o elo entre a IA e a inteligência emocional. São as competências que permitem às pessoas adaptar-se a novos contextos com agilidade emocional, trabalhar com IA sem abdicar da reflexão crítica e liderar equipas híbridas com empatia e ética.
Segundo o Future of Jobs Report do World Economic Forum (2023), as competências mais determinantes para o futuro são:
- Pensamento analítico e inovação;
- Aprendizagem ativa e estratégias de aprendizagem;
- Resiliência, tolerância ao stress e flexibilidade.
Todas são powerskills. Todas humanas. Todas insubstituíveis
A Gestão 6.0 traduz esta nova visão: uma liderança que promove a integração entre pessoas e tecnologia com base na confiança, na aprendizagem contínua e na partilha de sentido. As organizações que adotarem este mindset irão redefinir o conceito de talento – não apenas pela capacidade de fazer, mas pela capacidade de compreender, criar e conectar.
Em síntese, não é a IA que vai substituir pessoas – são as pessoas sem powerskills que serão substituídas. Num
mundo onde a IA executa, automatiza e até recomenda, o verdadeiro diferencial humano será quem lidera, interpreta e dá significado.
As powerskills deixam de ser “competências comportamentais” para se tornarem competências estratégicas,
vitais à sustentabilidade das organizações.
As empresas que hoje investirem em cultura, aprendizagem ativa e liderança humana estarão não apenas preparadas para 2026 – estarão a moldar o próprio futuro do trabalho.
Artigo publicado na edição 161 da RHmagazine, referente aos meses de novembro e dezembro de 2025
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