POR: Irene Vieira Rua, Chief People Officer, Doutor Finanças
Quantas vezes não estivemos já perante alguém que tentou algo completamente diferente e falhou? Quantas vezes nós próprios não estivemos já nesta situação e as sensações de derrota e fracasso são as únicas que vingam?
Ao contrário do que está instituído pela maior parte da sociedade, o maior falhanço que devemos temer é nunca falhar.
Não poucas vezes, estamos tão focados apenas no resultado final que desvalorizamos o que nos levou até ele. Mais… estamos tão focados no falhanço que temos dificuldade em perceber que, apesar de não ter funcionado, o que conseguimos é uma vitória. Nem sempre, é verdade, mas arrisco dizer que na maior parte das vezes alguma coisa de boa conseguimos reter.
Jogarmos pelo seguro, fazendo as coisas invariavelmente da mesma forma, é uma garantia de que conseguiremos os resultados de sempre e dentro do expectável. Mas… onde fica a inovação, a criatividade e a evolução?
Falhar tem de ser mais valorizado! Não diabolizar o erro é importante. Se assim não for, corremos o risco de alimentar equipas com tolerância 0 ao risco, à inovação e à criatividade. E isto será como declarar a morte a qualquer empresa.
Dito isto, é determinante que consigamos perceber a importância de parabenizar também os erros, quando são cometidos num contexto de explorar novos caminhos e novas abordagens. Quantas descobertas foram feitas devido a erros? A lista é infindável: penicilina, algumas vacinas, o post-it, a coca-cola, etc.. E podia continuar a dar exemplos de coisas que fazem parte do nosso dia a dia, que tanto acrescentaram à sociedade e cuja origem foi um erro.
Obviamente que muitos outros erros não passaram disso mesmo: de erros. Mas se isso é certo, também é verdade que muitos desenvolvimentos tecnológicos, científicos e empresariais que revolucionaram o mundo passaram por muita experimentação.
Se fizermos sempre da mesma forma, a probabilidade de errar é menor. Verdade. Mas se assim for – se privilegiarmos o certo em detrimento de novas abordagens –, corremos o risco de nos tornarmos obsoletos. Correr riscos aumenta a probabilidade de evoluir e fazer evoluir.
Os benefícios de parabenizar o erro
Quando estamos perante um erro por se tentar fazer de outra forma, por se olhar para o problema sob uma perspetiva diferente, é vital dar os parabéns a quem tentou. Os ganhos desta abordagem são imensuravelmente maiores do que se penalizarmos alguém porque tentou mas falhou.
1. Reconhecer o esforço, mesmo quando não resulta, é fundamental.
Este reconhecimento tem o poder de motivar para se melhorar procedimentos, se encontrar novas soluções para questões que são as de sempre, mas que podem ser melhoradas. Além disso, ao reconhecer esse esforço, estamos a deixar claro ao outro que o seu trabalho é apreciado e isso é fundamental para a sua autoestima e, consequentemente, para a sua confiança e bem-estar.
2. Olhar para o erro como algo natural num processo de aprendizagem é também vital para evoluirmos, seja enquanto indivíduos seja enquanto sociedade.
E aqui temos de perceber como ajudar o outro a melhorar e aperfeiçoar os seus processos. Um ambiente que fomente este espírito aumenta a sensação de segurança entre as equipas, que não temem errar se isso puder significar melhorar.
3. Criar uma cultura de reconhecimento pode contribuir para um ambiente mais positivo, colaborativo e, inevitavelmente, mais saudável.
Além de ajudar a construir equipas mais resilientes perante fracassos.
4. E como não extrair o melhor das pequenas conquistas?
Por vezes, o resultado final não foi um sucesso, bem pelo contrário, mas ao longo desse caminho houve progressos e pequenas conquistas que merecem ser reconhecidas. Enfatizar a importância do desenvolvimento contínuo, em vez de apenas do resultado final, pode ser a chave para o sucesso.
5. E, não menos importante, o reforço de comportamentos positivos acaba por estimular comportamentos e atitudes que todos ambicionamos numa equipa:
Colaboradores que estão focados na solução e não no problema. E isso só é possível se relativizarmos o erro. Nesse sentido, este ambiente que fomenta este tipo de comportamentos vai ajudar a incentivar a persistência e a determinação, mostrando que o esforço é valorizado.
É importante salientar que não defendo – longe disso – a predominância do erro. É preciso acompanhar as pessoas, dar feedback construtivo e que identifique onde se falhou, o que correu mal e de que forma podia ter corrido bem (ou melhor). Não se trata de fomentar o erro pelo erro. Nada disso.
Mas é importante termos todos a consciência de que só conseguiremos evoluir se sairmos da nossa zona de conforto. Se corrermos risco, se nos desafiarmos e se, inevitavelmente ao longo do processo, falharmos. E é neste sentido que considero que o erro não tem de ser demonizado, não faz de nós piores profissionais, nem é sinal de incompetência. Não, não nos devemos envergonhar pelos nossos erros, nem fazer sentir que quem erra é um falhado!
Artigo publicado na edição 154 da RHmagazine, referente aos meses de setembro e outubro de 2024
Aproveite e leia gratuitamente as últimas edições da RHmagazine AQUI