Autora: Alexandra Barosa-Pereira, membro do Comité de Ética da ICF Portugal
Coaching é um conceito que tem muitas conotações. É definido de forma diferente em diferentes contextos e é frequentemente confundido com outras práticas como mentoring e aconselhamento. Atualmente, na esfera pública, coaching é também associado a discursos motivacionais, em que se procura inspirar as pessoas com mensagens positivas e cenários ideais.
Ora, todas as práticas são válidas e terão todas a intenção positiva de retirar um indivíduo de um determinado estado, eventualmente, de passividade, para um estado de maior amplitude de perspetivas, convidando à proatividade de cada um fazer escolhas que promovam o seu bem-estar.
Coaching difere de outras práticas pelo seu foco na reflexão e experimentação do futuro desejado e pela sua não-diretividade, partindo-se do princípio de que o indivíduo se conhece melhor que ninguém e que deverá tomar responsabilidade pelas suas escolhas futuras.
Não pretende ser um processo centrado em resolver problemas pessoais, muitas vezes com origem em assuntos não resolvidos no passado, os quais devem ser acompanhados através da psicoterapia. Não pretende ser um processo com indicação explícita do que o indivíduo deve fazer para melhor se adaptar a determinada realidade, que se enquadra na esfera de práticas de aconselhamento, de consultoria ou mesmo de mentoring.
Assim, qualquer pessoa que apoia outra a sair de um determinado estado utilizando o foco no futuro e promovendo a escolha individual responsável, não indicando caminhos, pode, eventualmente, utilizar o conceito de coaching para descrever a sua atividade.
Contudo, à semelhança de qualquer outra relação de ajuda profissional, em que se trabalha com o outro com vista à criação de um ambiente favorável ao seu desenvolvimento, utilizando técnicas como a escuta ativa e o questionamento, exige que o profissional detenha um conjunto de saberes (saber saber, saber fazer e saber ser) que indicam atitudes de cumprimento de uma deontologia e ética profissional rigorosas.
Não basta querer ajudar. Muitas vezes, estamos no domínio de estruturas internas do indivíduo que procura ajuda que, se o profissional que ajuda não possuir os saberes necessários, pode desequilibrar essas estruturas e conduzir a cenários fraturantes.
Se o profissional que ajuda não possuir os saberes necessários, pode desequilibrar […] estruturas e conduzir a cenários fraturantes.
Todos nós temos um pouco de psicólogos, de médicos ou de enfermeiros. Quantas vezes na nossa vida não recorremos a amigos ou pessoas próximas para nos ajudarem com um problema ou situação para a qual necessitamos de resolução rápida? Ou quantas vezes não ouvimos falar de “gurus”, eventualmente, curandeiros que, de facto, ajudam as pessoas a sair de um determinado estado de potencial sofrimento? E tudo isto está muito bem. O problema é quando não está…
Quando tenho um problema de saúde, porque vou a um médico e não a um curandeiro? Ou porque vou a um serviço de enfermagem para levar uma vacina e não recorro a um familiar conhecedor da área da saúde para a administrar?
A minha escolha pelo médico ou pelo enfermeiro não tem tanto a ver com a confiança que o profissional me inspira, mas mais pela confiança que o profissional me oferece pelo facto de ter passado alguns anos a obter conhecimento, alguns outros anos em prática supervisionada e porque subscreve princípios deontológicos e éticos, que asseguram as suas intervenções e que, no limite, poderão ser utilizados para que eu exponha a má conduta, podendo, inclusive, o profissional perder a sua cédula.
Qualquer intervenção em coaching é uma escolha ética. Porque estamos a trabalhar com Pessoas e ao serviço dessas Pessoas, é de extrema importância que o profissional de coaching, para além de um trabalho sustentável de autoconhecimento, seja formado em conhecimentos técnicos indispensáveis para a atividade, tenha prática consistente em técnicas apropriadas e incorpore condutas éticas especificamente elaboradas para a profissão, ao mesmo tempo que procure supervisão, questionando e consolidando escolhas e linhas de trabalho.
O profissional ICF (International Coaching Federation) é aquele que escolhe fazer o caminho do saber e da sustentabilidade da sua prática, através do recurso de standards e padrões éticos. É o profissional que se compromete com o seu desenvolvimento contínuo, ou seja, não é porque frequentou um curso de coaching uma vez que será coach toda a vida – a sua credenciação tem de ser validada a cada três anos.
O profissional ICF é aquele que escolhe fazer o caminho do saber e da sustentabilidade da sua prática
E é o profissional que se disponibiliza para o feedback e para o escrutínio, subscrevendo o Código de Ética da ICF – pode ser instaurado um processo junto da ICF que, no limite, conduz à perda da credenciação do profissional. “A ICF continua a liderar o desenvolvimento de uma definição e filosofia de coaching e a estabelecer padrões éticos entre os seus membros. A ICF estabelece padrões profissionais de coaching, enquanto proporciona aos consumidores um local para apresentarem queixas éticas.”
Em forma de conclusão: qualquer pessoa pode intitular-se coach e praticar coaching como profissional? Sim, pode! A questão é outra – prefere recorrer a alguém para obter apoio no seu desenvolvimento futuro que não subscreve um código de ética? Ou prefere alguém credenciado para o efeito?