Segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), a população empregada em Portugal encontra-se cada vez mais envelhecida, com os professores a constituírem-se como o grupo profissional mais velho – nomeadamente do ensino básico e secundário -, com uma média de 50,2 anos.
Face a estes dados, e tendo em conta a atual escassez de talento que o mercado enfrenta, é essencial apostar na requalificação destes profissionais, para que possam também preparar os profissionais do futuro com as novas competências necessárias.
No momento em que se torna absolutamente essencial acompanhar as tendências e adquirir novos conhecimentos, a RHmagazine conversou com Pedro Amorim, Corporate Clients Director do ManpowerGroup e Managing Director da Experis.
Os dados recentes do INE revelam que a população é cada vez mais envelhecida, com uma idade média de 48,7 anos. Como olha o ManpowerGroup, entidade especializada em gestão de talento, para uma população ativa cada vez mais envelhecida?
O talento em idade mais avançada representa um grande potencial para as empresas e deve ser visto como um valioso reforço para as suas estruturas. Sobretudo, no atual contexto de elevada escassez de talento.
Os empregadores devem olhar para a população ativa de uma maneira mais global, compreendendo que todos os profissionais – independentemente da idade – devem ser valorizados para mitigar a enorme necessidade de profissionais qualificados. No entanto, é necessário que esta e a restante população acompanhe as tendências do mercado de trabalho, adaptando-se e adquirindo novas competências que deem resposta às necessidades do mercado.
Face ao desencontro entre as competências disponíveis e as necessidades das empresas, devemos focar-nos em 3 eixos de atuação. Por um lado, as organizações devem investir no talento interno e dotá-lo das competências que empresas e mercado precisam. Para isso é importante a aposta em programas de formação, que atuem ao nível do reskilling e upskilling dos profissionais e que permitam a sua capacitação e requalificação.
Esta aposta na formação das pessoas não deve, porém, ser só uma prioridade das empresas, mas também dos Estados e Governos – sendo este o segundo eixo de atuação prioritário. É fundamental aumentar o investimento em programas de requalificação de profissionais por forma a garantir a sua empregabilidade atual e futura, à medida que a digitalização das empresas se acelera.
Finalmente, temos ainda um terceiro eixo de atuação, que depende dos próprios profissionais, e do seu compromisso e investimento no desenvolvimento de novas competências, ao longo de todas a sua vida profissional – a chamada learnability – e que é hoje fundamental para que possam manter-se relevantes no mercado de trabalho, adquirindo novas competências. Tem também de haver uma responsabilização individual no que toca à requalificação.
Como especialistas de recrutamento que são, quais têm sido as profissões que as empresas mais precisam neste momento? Onde existe mais falta de mão de obra, por sector e profissão?
Atualmente, existe um acentuado desencontro entre as competências que estão disponíveis no mercado de trabalho e aquelas que são procuradas pelas empresas, o que provoca os elevados níveis de escassez de talento que observamos atualmente no mercado de trabalho em Portugal. As empresas relatam grandes dificuldades em preencher as vagas que lançam para o mercado, com 62% dos empregadores portugueses afirmarem ter alguma dificuldade em encontrar os candidatos com as competências desejadas e 22% a reforçarem terem muita dificuldade, de acordo com estudo Talent Shortage Survey 2023, do ManpowerGroup.
Segundo o mesmo estudo, é nos setores de Energia e Utilities e da Indústria Pesada e Materiais que a escassez de talento é mais acentuada, com 89% das empresas de ambos os setores a revelarem dificuldades na contratação. Seguem-se os setores das Tecnologias da Informação (TI), com 87%, o de Bens e Serviços de Consumo, que contempla as atividades de Retalho, Distribuição, Hotelaria e Indústria de Bens de Consumo, com um valor de 86%, e o de Transportes, Logística e Automação, com uma escassez de talento situada nos 85%.
Relativamente às funções mais procuradas, e ainda referindo-nos aos dados do mesmo estudo, os profissionais especialistas em TI e Data são, atualmente, dos mais procurados, sendo referidos no topo das necessidades de 30% dos empregadores portugueses, um valor que cresce 4 pontos percentuais face a 2022. Logo a seguir, surge a necessidade de profissionais com competências em Operações e Logística e para funções de Recursos Humanos. São igualmente fortemente procuradas as competências de Engenharia e de Indústria e Produção.
Que estratégias tem adotado o ManpowerGroup para conseguir preencher as necessidades dos vossos clientes?
Entre as várias estratégias que estamos já a disponibilizar e que permitem apoiar os nossos clientes, destaca-se o trabalho que temos feito para promover uma maior proatividade na sua planificação do talento. Ao planear as suas necessidades de talento, alinhando com as estratégias de desenvolvimento de negócio, as organizações poderão identificar as estratégias de talento mais adequadas para suprir as suas necessidades futuras, já seja ao nível da atração de talento, como também ao nível da construção do talento, identificando os profissionais que poderão evoluir para novas funções e investindo na sua capacitação, para que consigam responder às suas necessidades futuras. Esta atuação por parte das empresas, para além de otimizar os custos de atração do talento, tem também efeitos sociais muito positivos, porque retém e requalifica o talento interno, em vez de o dispensar.
Por outro lado, estamos também a trabalhar para ajudar os nossos clientes a aumentarem as suas pools de talento, identificando novos mercados, de outros setores ou países, que possam ser contributos valiosos.
O ManpowerGroup pode, portanto, fornecer toda esta ajuda aos seus clientes, desde a formação dos profissionais ao recrutamento do talento mais capacitado e indicado para cada empresa, contribuindo, assim, para que as organizações sejam capazes de se adaptar e responder aos desafios do mercado, sempre com perspetivas de futuro.
A imigração é uma solução? Está a ser feito o necessário para facilitar os vistos?
A abertura ao exterior e a criação de um mercado de trabalho global é, atualmente, uma realidade comum a todos os países e empresas, sendo que têm já sido dados passos relevantes com vista à facilitação deste intercâmbio de talento.
Hoje, nenhum país é autossuficiente em termos de talento e as empresas devem poder olhar para o mercado de trabalho a nível global. E, apesar de haver ainda um certo protecionismo nos países, privilegiando-se o talento nacional, economias e setores em diferentes ciclos de maturidade devem poder aceder a talento fora das fronteiras do país para suprir as suas necessidades de crescimento. Sempre e quando sejam garantidas as adequadas condições de trabalho e de vida para os trabalhadores que vêm de fora.
É importante que o talento internacional seja percebido como parte da solução para dar resposta às necessidades de talento das nossas empresas. Por outro lado, os Governos devem também criar condições para estes profissionais, promovendo políticas com vista à sua integração. Os fluxos migratórios são, hoje, uma verdadeira fonte de talento e de diversidade, que é essencial para a saúde da economia.
O ManpowerGroup entende que a requalificação ou upskilling é fundamental para melhorar a empregabilidade do trabalho? Como devem as empresas agir em relação a este fenómeno?
Uma das principais medidas que têm vindo já a ser implementadas pelas empresas para dar resposta ao atual desencontro de competências passa, precisamente, pela requalificação ou upskilling dos seus profissionais.
Segundo o Talent Shortage Survey 2023, 76% das organizações planeiam investir na formação das suas equipas, adotando uma atitude proativa em relação às pessoas que compõem a sua força de trabalho. O talento é um ativo importante e raro e, por isso, as empresas devem privilegiar o foco nos seus atuais trabalhadores, em vez de se focar apenas em recrutar talento externo.
As organizações devem olhar para as suas equipas e delinear estratégias para as capacitar, dando resposta às necessidades atuais e futuras da organização e do mercado. Esta estratégia passa, portanto, por analisar as competências técnicas e humanas que os trabalhadores já possuem e que podem ser ativadas na realização de novas funções – as chamadas competências transferíveis –, e reforçá-las através de planos de formação, que permitam que estas respondam aos novos desafios que vão surgindo.
Tendo a problemática da escassez de talento implicações a nível económico e social, a responsabilidade pela formação dos profissionais deve ser assumida como uma prioridade tanto pelas empresas, como por governos e países, no geral. No entanto, também os próprios profissionais devem assumir esta responsabilidade e colocar-se ao volante do seu próprio percurso, procurando a capacitação ao longo da vida.
Existem programas, dentro do ManpowerGroup, para desenvolver a formação e a requalificação dos candidatos para os seus clientes?
A aposta na formação e requalificação profissional é um dos pilares do ManpowerGroup, pelo que temos, atualmente, duas academias em Portugal: a Experis Academy e a Manpower Academy. Este trabalho está ligado ao nosso foco crescente na vertente social do ESG – o “S” – por via da reconversão de competências para responder à necessidade de uma gestão sustentável do talento.
No que respeita à Experis Academy, esta academia nasceu com o objetivo de dotar os profissionais com as competências necessárias para desenvolver uma carreira num dos setores que se encontra em mais rápido crescimento: as tecnologias de informação. Neste âmbito, são desenvolvidos programas de formação nas diversas áreas deste setor, entre as quais cibersegurança, low-code ou data, através de um formato não convencional – modelos de formação que combinam teoria e prática -, para rapidamente prepararem os profissionais para uma entrada segura no mundo do trabalho.
Já a Manpower Academy disponibiliza uma vasta gama de propostas de formação com o objetivo de transmitir competências específicas para algumas funções mais difíceis de preencher no mercado português, como em áreas comerciais e de Marketing e Vendas (atendimento ao cliente, gestão de conflitos). Neste contexto, trabalhamos em estreita relação com empresas e outras entidades formativas, no sentido de desenvolver uma oferta integral de competências e experiências para responder às necessidades do mercado.
Através destas iniciativas, o ManpowerGroup investe numa estratégia de construção de talento para abordar a atual escassez de perfis tecnológicos e com competências técnicas, atuando tanto numa orientação direta para candidatos, como através de uma oferta de serviços de formação customizada para clientes, por via do upskilling e reskilling dos seus colaboradores.