Aumentaram o seu número de forma exponencial nos últimos anos e são, por isso, um dos principais vetores da expansão do investimento internacional no país. Resultam dos respetivos processos de transformação digital mas são lançados por empresas de diversos setores de atividade. A RHmagazine apresenta-lhe o estado da arte dos centros de competência no território português, ilustrado com quatro exemplos, todos bem sucedidos.
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e 2016 a 2021 (junho), abriram em Portugal 104 centros de competência de empresas, na sua quase totalidade estrangeiras, segundo dados da AICEP – Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal. Na mesma data, esta entidade pública empresarial estimava a existência de um total de 192 centros pertencentes a 170 empresas, empregando 64.000 pessoas.
A diversidade inerente ao número já elevado destas unidades empresariais não impede que seja traçado
um perfil sobre o seu conjunto, que responda a estas perguntas:
- qual a natureza dos processos envolvidos?
- que serviços são desenvolvidos/prestados?
- quais os fatores que determinaram a escolha de Portugal?
- onde (cidades) estão maioritariamente instaladas?
O “Business Service Centres in Portugal” (BSCP) – primeiro e até agora único relatório global sobre o tema, realizado em 2020 pelo IDC Portugal e pela Nova IMS (a escola de gestão de informação da Universidade Nova de Lisboa) para a AICEP – e a edição de junho passado da revista Portugalglobal (da AICEP) são as fontes de informação que permitem obter o retrato dos centros de competência localizados em Portugal.
Digitalização e tecnologia são os conceitos-chave da criação destes centros. O primeiro atravessa, sem exceção, as quase duas centenas de unidades existentes: é crucial para a eficiência de processos e otimização de custos, já que concentra diversas atividades num só local, constituindo-se como o único ponto naquele setor que serve o universo das empresas do grupo (e por vezes dos seus clientes) em todo o mundo.
O segundo confirma o aumento substancial do investimento estrangeiro na área tecnológica. Para a AICEP, os centros de competência têm mesmo “contribuído significativamente para a consolidação do hub tecnológico, pelo qual o país começa a ser reconhecido na esfera internacional”.
O estudo BSCP (que reporta a dados do ano de 2019, com entrevistas recolhidas junto de quase 60 por cento das empresas com centros de competência em Portugal) indica que 21 por cento destas pertencem ao setor das Tecnologias de Informação (TI) – apenas superados pelo conjunto das várias indústrias de fabricação. Um ano e meio depois, segundo a revista Portugalglobal (AICEP), esta cifra já tinha crescido para 35 por cento, com destaque para as áreas do software, digitalização, data analytics, cloud, inteligência artificial, cibersegurança e blockchain.
A NFON é uma destas empresas. A fornecedora alemã de serviços de comunicação em nuvem – com mais de 50.000 empresas clientes em 15 países – inaugurou o seu centro de serviços, em Lisboa, em setembro de 2020, cujas principais funções são front-end, programadores back-end, engenheiros de voz SIP e programadores UI e UX. Cresceu de 7 para 27 trabalhadores, decorridos um ano e 4 meses.
Exemplos de Empresas estrangeiras com centro(s) de competência em Portugal:
- Mercedes-Benz
- BNP
- Paribas
- Bosch
- Cisco
- Fujitsu
- Microsoft
- Nokia
- Siemens
- Volkswagen
Centros de Competência (Retrato-Tipo):
- Número médio de colaboradores – 370
- Idade – 32.5
- Género – 57%/43% (H/M)
- Licenciatura ou grau superior – 85%
- Média de colaboradores estrangeiros – 8%
- Colaboradores que usam a língua inglesa nas funções – 84%
- Centros que operam em mais do que uma língua – 45%
Predomínio de serviços de TI
Se analisados os serviços prestados pelos centros de competência, o peso das TI é ainda maior, já que as empresas necessitam internamente de ferramentas tecnológicas (e respetiva monitorização) mesmo quando as TI não são o seu ramo de atividade. Como é o caso da ConvaTec, a multinacional de tecnologias e produtos médicos, que tem em Lisboa desde janeiro de 2020 o seu Global Business Service, assegurando as funções de Finance e IT para todo o grupo (nos mais de 100 países onde a empresa está presente). Nestes dois anos, apesar da pandemia, a ConvaTec mais do que decuplicou o número de colaboradores deste seu centro de competência (de 20 para 220).
O relatório BSCP estima que 44 por cento dos trabalhadores dos centros de competência desempenham funções nesta área (em segundo lugar aparece o “Finance/Accounting”, com 22 por cento). A AICEP refere mesmo que “grande parte dos Centros de Serviços especializam-se em atividades de elevado valor acrescentado, nomeadamente na área das TI”.
Quanto às unidades de empresas com outros core business, os setores de atividade são muito diferenciados: financeiro, automóvel, químico e farmacêutico, telecomunicações, retalho e grossista, entre tantos outros. O respetivo peso individual nunca ultrapassa os oito por cento.
Na segmentação geral das empresas detentoras dos centros de competência por setor de atividade, o estudo BSCP identifica três grandes categorias: as indústrias de fabricação, que englobam quase 12 subsetores (38 por cento); as TI (21 por cento) e outros serviços (15 por cento).
O que distingue Portugal?
Elevadas qualificações, baixos custos e posição geográfica favorável: os maiores fatores de atração apontados pelas empresas internacionais.
Nas respostas das 80 empresas que suportaram as conclusões do relatório BSCP relativamente a este tema, os baixos custos foram indicados por 91 por cento dos inquiridos; seguindo-se a facilidade em encontrar recursos humanos altamente qualificados – com 72 e 70 por cento, respetivamente em termos globais/académicos e no conhecimento de outros idiomas, em especial o inglês, uma vez que os centros são plataformas que servem todas as latitudes dos seus grupos empresariais. A completar o podium das razões de atratividade, a localização geográfica do país (53 por cento). As empresas – Capgemini, ConvaTec, NFON e Tridonic – contactadas pela RHmagazine para abordarem a experiência dos seus centros em Portugal apontaram também estas três razões, a par de outras.
Elevadas qualificações, baixos custos e posição geográfica favorável: os maiores fatores de atração apontados pelas empresas internacionais [relativamente a Portugal]
A AICEP, na sua revista oficial, desenvolveu dois destes pontos e apontou ainda outros fatores. Na vertente das qualificações, referiu o papel importante das universidades portuguesas. Desde logo na preparação fornecida aos alunos através dos currículos adotados (já notável nos lugares ocupados por várias instituições académicas portuguesas nos rankings internacionais), mas igualmente nas áreas críticas em que está a formar (30 por cento dos graus académicos são obtidos nas Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática) e na ligação que vem estabelecendo com o meio empresarial (tanto em parcerias de investigação & desenvolvimento como nos estágios que permitem fazer a transição dos alunos na parte final do percurso escolar para o mundo laboral).
Na localização geográfica, a Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal realça o “conveniente fuso horário português que permite prestar serviços a múltiplas geografias, num período de trabalho diurno” (de que são exemplo os serviços prestados a todo o continente americano, Rússia e norte de África).
Como outros aspetos determinantes para a escolha de Portugal, a AICEP enumera ainda a “existência de um ecossistema vibrante” ligado ao empreendedorismo e a afinidade cultural/linguística com países como o Brasil, Angola e Moçambique, destinatários de alguns serviços disponibilizados por centros de competência.
A Tridonic é a empresa responsável pelo software do Grupo Zumtobel (austríaco), desenvolvendo sistemas inteligentes de gestão para iluminação. O diretor-geral do Centro Global de Competência de Software da Tridonic, João Granjo testemunhou à RHmagazine o processo de escolha da localização do seu centro de competência:
“O processo de avaliação envolveu uma equipa de cinco elementos, durou meio ano, envolveu mais de um mês em viagens a localizações diferentes, e considerou os seguintes fatores: a qualidade dos recursos humanos, em particular na área da engenharia informática; o ecossistema existente de empresas de software; a estabilidade política e a facilidade de fazer negócios e o custo da infraestrutura e recursos humanos. Na fase final da análise, Portugal esteve a competir com a Sérvia, Polónia e Hungria, tendo acabado por ser escolhido por unanimidade pela equipa de gestão do Grupo Zumtobel, visto que apresentava o melhor equilíbrio nos fatores mencionados”.
O responsável máximo pela Tridonic Portugal sublinhou ainda que “os benefícios que levaram à escolha de Portugal, não só se confirmaram como se excederam”. A Tridonic está em Vila Nova de Gaia desde janeiro de 2019 e, este ano, vai duplicar a sua equipa inicial (de 30 elementos).
Proveniência Geográfica das empresas com centros de competência:
- Alemanha 21%
- França 18%
- Estados Unidos 16%
- Portugal 8%
Alcance geográfico dos serviços prestados pelos centros de competência:
- Mundial 53%
- Multirregional 24%
- Regional 23%
Lisboa, Porto e cidades com ensino superior
Ainda segundo o estudo BSCP, as áreas metropolitanas das duas principais cidades do país concentram 84 por cento dos centros de competência (Lisboa com 56 por cento e Porto com 28). A fatia (atualmente de 16 por cento) que escapa à preferência dominante por estas urbes tem tido, segundo a AICEP, um “forte crescimento”. A existência de polos universitários é o critério decisivo que tem levado as empresas a não temerem instalar os seus centros em cidades mais pequenas, como Braga/ Guimarães, Aveiro, Évora, Covilhã/Fundão e Vila Real, e até naquelas em que as instituições de ensino superior não são tão credenciadas, casos de Leiria, Viseu e Tomar.
Diversas empresas criaram mais do que um centro de competência, em localizações diferentes. É o caso
da francesa Capgemini, multinacional especializada em consultoria, serviços tecnológicos e transformação digital, que tem o que chama de “centros de excelência” em Évora (área de Dynamics e Salesforce), Fundão e Lisboa (OutSystems). Em qualquer destes centros, o crescimento do número de colaboradores passou de um número que não ultrapassava a dezena para o patamar das centenas (entre os 130 e 150). No caso de Évora, a Head of Marketing & Communications and Corporate Social Responsibility da Capgemini Portugal referiu à RHmagazine a importância das sinergias criadas com o IEFP, “muito benéficas no que respeita à formação e recrutamento de recursos humanos”, que se enquadram nas parcerias constituídas para promoção da sustentabilidade social e económica nas regiões do país em que a empresa está localizada.
Para este ano, estão previstos lançamentos de mais centros de competência. A consultora Deloitte é uma das gigantes que escolheu Portugal: dois novos “centros tecnológicos e de transformação digital”, que preveem criar 1.500 a 2.000 postos de trabalho nos próximos quatro anos, nas cidades de Lisboa, Porto, Viseu, Braga, Coimbra, Faro, Leiria e Setúbal.
Artigo publicado na edição n.º 138 da RHmagazine, referente aos meses de janeiro/fevereiro de 2022.
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