Um terço dos trabalhadores da Geração Z já pergunta primeiro à IA antes de recorrer ao chefe e o impacto desta mudança começa a sentir-se na forma como as equipas comunicam, colaboram e tomam decisões. A conclusão é de um estudo da Robert Walters, que conclui que a IA está a tornar-se o primeiro ponto de contacto para resolver dúvidas no trabalho.
Segundo os dados, 33% dos profissionais da Geração Z recorrem a ferramentas de IA antes de questionarem superiores ou colegas e 39% dos inquiridos admitem que fazem menos perguntas aos seus managers, independentemente da idade.
Para David Ferreira, Country Director na Robert Walters Portugal, “as ferramentas de IA estão a transformar a forma como nos comunicamos no trabalho, ao mesmo tempo que melhoram a produtividade e reduzem o tempo que os profissionais gastam à espera de respostas por parte dos colegas”. No entanto, adverte que “também criam complicações ao delegar a tomada de decisões ou manter as suas equipas informadas sobre cada atividade, além de limitarem o pensamento crítico e a criatividade”.
Na prática, a rapidez e disponibilidade da IA estão a redesenhar os fluxos de informação dentro das organizações, mas essa autonomia pode ter um custo, que se reflete em decisões menos discutidas, menor partilha de conhecimento e um potencial enfraquecimento do pensamento crítico.
Managers sem preparação para liderar na era da IA?
Se os colaboradores estão a adaptar-se rapidamente, o mesmo não se pode dizer da liderança. O estudo revela que 71% dos managers não receberam qualquer orientação ou formação para gerir equipas num contexto marcado pela IA. E, mesmo entre os que tiveram acesso a formação, mais de metade considera-a insuficiente. Mais: cerca de 35% dos managers apontam o excesso de trabalho e o esgotamento como os principais desafios, num contexto de maior pressão para cumprir objetivos com recursos limitados.
Ao mesmo tempo, o estudo evidencia uma resistência crescente à liderança por parte das novas gerações, sendo que 69% dos profissionais da Geração Z afirmam querer evitar cargos de responsabilidade, por os considerarem demasiado stressantes.
David Ferreira alerta para o risco de substituição informal do papel do manager. “Aos managers são atribuídos projetos mais exigentes, o que os torna menos disponíveis para as suas equipas e abre espaço para que as ferramentas de IA atuem como substitutos da sua gestão. No entanto, as respostas fornecidas por estas ferramentas nem sempre são precisas e podem levar a erros significativos.”
Acrescenta ainda que “ignorar este problema agora pode corroer as relações entre os managers e os membros das suas equipas, interromper o fluxo de conhecimento entre perfis mais experientes e juniores e até criar lacunas significativas em competências essenciais para o futuro do trabalho”. Apesar dos riscos, mostra-se convicto de que “os managers que assumirem um papel ativo na implementação da IA dentro das suas organizações estarão mais próximos do sucesso. Ao acompanhar os membros mais juniores das suas equipas no uso das ferramentas de IA, conseguirão poupar tempo no desenvolvimento das suas tarefas e aumentarão a sua autonomia. Assim, o tempo ganho pode ser utilizado para sessões presenciais onde se resolvem dúvidas ou se desenvolvem novas ideias”.
Num ambiente onde as respostas são cada vez mais imediatas, o valor da liderança pode deixar de estar na disponibilidade constante e passar a residir na capacidade de orientar, questionar e dar contexto.
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