De acordo com o estudo, a IA já faz parte do quotidiano do recrutamento. Em Portugal, 63% dos candidatos recorrem a ferramentas de inteligência artificial para melhorar a linguagem, personalizar currículos e sintetizar competências. Do lado das empresas, 30% utilizam estas tecnologias para otimizar descrições de funções, estruturar entrevistas e agilizar a comunicação com candidatos.
A utilização de IA generativa também aumentou de forma expressiva no contexto profissional, passando de 24% em 2024 para 67% dos profissionais em 2026. No entanto, esta generalização traz novos desafios às organizações. Segundo o estudo, 35% dos empregadores admitem não conseguir distinguir se uma candidatura foi elaborada ou otimizada com recurso a IA, o que torna menos fiável uma avaliação baseada exclusivamente no currículo.
Neste contexto, a Michael Page defende a importância de abordagens complementares, como exercícios práticos, simulações e avaliação de situações reais, que permitam compreender melhor a forma como os profissionais pensam, comunicam e tomam decisões em ambiente de trabalho.
Competências ganham peso nas decisões de contratação
A escassez de competências continua a ser apontada como o principal desafio para 39% dos empregadores, levando muitas empresas a rever os seus modelos de recrutamento. O estudo revela que 31% das organizações já privilegiam competências face à formação académica ou ao percurso profissional.
Esta mudança encontra correspondência entre os candidatos: 71% dos profissionais mostram maior disponibilidade para se candidatarem a oportunidades em que as competências são apresentadas como o principal fator de avaliação.
Num mercado em que a tecnologia contribui para tornar as candidaturas mais homogéneas, destacam-se as competências menos suscetíveis de automatização. A capacidade de adaptação, referida por 57% dos inquiridos, as competências interpessoais, apontadas por 48%, e a comunicação, indicada por 30%, surgem como os atributos mais valorizados pelas empresas.
“A inteligência artificial não reescreveu as regras do recrutamento, alterou o seu ritmo. O verdadeiro valor reside na sua utilização para reforçar o discernimento humano, não para o substituir. Num mercado tão dinâmico, são as pessoas que fazem a diferença. A IA permite-nos, sobretudo, identificar potencial de forma mais rápida do que nunca”, afirma Carlos Andrade, Senior Director da Michael Page Portugal.
Equilíbrio e confiança travam mobilidade profissional
Do lado dos profissionais, o estudo identifica uma redução da intenção de mudança de emprego. Apenas 44% admitem considerar mudar de função, face a 59% em 2023. O principal fator que explica esta menor mobilidade é o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, atualmente referido como prioridade acima da remuneração, da progressão de carreira ou da segurança no emprego.
Segundo o Talent Trends 2026, dois em cada cinco profissionais receiam comprometer esse equilíbrio ao aceitar uma nova função. Ainda assim, quando esse equilíbrio se deteriora no emprego atual, a intenção de saída aumenta rapidamente: cerca de 40% afirmam que procurariam outro emprego se lhes fosse exigido um maior número de dias presenciais no escritório.
A confiança na liderança surge também como um fator determinante na retenção de talento. Entre os profissionais que não estão em processo de mudança, 77% confiam na capacidade das suas lideranças para proteger o seu bem-estar. Este valor desce para 63% entre os indecisos e para 33% entre aqueles que procuram ativamente novas oportunidades.
A transparência salarial é outro elemento relevante na atração e fidelização de talento. O estudo indica que 85% dos candidatos em procura ativa provêm de organizações com estruturas salariais pouco transparentes. Em sentido inverso, 49% dos empregadores com políticas salariais claras afirmam que os processos de recrutamento se tornaram mais simples no último ano.
Para a Michael Page, o recrutamento evolui para um modelo mais exigente, no qual tecnologia, competências e expectativas dos profissionais se influenciam mutuamente. A inteligência artificial trouxe maior eficiência, mas reforçou também a necessidade de processos mais claros, avaliações mais aprofundadas e interações mais consistentes com os candidatos.
“O recrutamento é hoje mais exigente, mais competitivo e mais dependente de decisões bem informadas. Neste contexto, a clareza, a consistência e a qualidade na tomada de decisão assumem um papel determinante, num processo que continua a ser profundamente humano e relacional. As organizações que mantêm uma abordagem pragmática e relações sólidas estão mais bem posicionadas para gerar estabilidade”, refere Álvaro Fernández, Managing Director da Michael Page Portugal.
O Talent Trends 2026 foi realizado junto de mais de 60 mil inquiridos a nível global, em 36 países, incluindo 1211 inquéritos em Portugal, com o objetivo de identificar tendências relevantes para a gestão de talento e apoiar as empresas no seu posicionamento estratégico no mercado.
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