“Se já estou numa situação de burnout, não me mandem para um workshop.” A frase, lançada por Rita Roque de Figueiredo, Head of Health, Safety & Wellbeing do grupo Fidelidade, sintetiza uma das conversas da 31.ª edição do Fórum RH, que decorreu a 5 de maio, no Estádio do Sport Lisboa e Benfica, sob o mote “Trabalho 5.0 – Humanos no Centro, Inteligência em Movimento”.
Entre alertas contra o “bem-estar cosmético”, críticas às iniciativas sem impacto real e apelos a uma maior coragem organizacional, a mesa-redonda “Como distinguir bem-estar eficaz de iniciativas meramente simbólicas?” colocou no centro do debate uma questão cada vez mais incómoda para as empresas: estarão as organizações verdadeiramente a cuidar das pessoas ou apenas a criar iniciativas que ficam bem na “fotografia”? O debate contou com moderação de Raquel Mendes, Global Learning Solutions da Workplace Options. À mesa juntaram-se Ricardo Sousa, Director of Business Solutions Iberia da Workplace Options, Sofia Roque, Head of People Wellbeing & Sustainability da Cofidis, e Rita Roque de Figueiredo.
O público foi convidado a avaliar diferentes iniciativas frequentemente associadas ao bem-estar corporativo – da fruta na copa às consultas de medicina no trabalho, passando por workshops sobre saúde mental ou férias pagas em Punta Cana – distinguindo aquilo que pode ter impacto real do que é apenas simbólico. Mas a conversa rapidamente evoluiu para temas como liderança, desenho do trabalho, riscos psicossociais e cultura organizacional.
Para Sofia Roque, o verdadeiro critério para distinguir bem-estar autêntico de ações simbólicas está na intencionalidade e no enquadramento estratégico. Na Cofidis, explicou, o programa de bem-estar CofiWELL envolve diferentes áreas – dos recursos humanos à sustentabilidade, passando pela administração, marca e embaixadores internos – numa lógica de atuação sustentada por dados concretos das equipas.
A responsável deu o exemplo da fruta disponibilizada nos espaços da empresa. Isoladamente, pode parecer apenas um gesto simbólico, mas, integrada numa estratégia focada em nutrição e bem-estar físico, a iniciativa ganha outro peso. “Existem, de acordo com os dados da medicina do trabalho, um crescimento do índice de massa corporal dos nossos colaboradores, que é bastante evidente e tem vindo a evoluir ao longo do tempo”, destacou.
Do lado do grupo Fidelidade, Rita Roque de Figueiredo defendeu uma visão integrada da saúde ocupacional e do bem-estar, criticando abordagens superficiais ou excessivamente promocionais. “O bem-estar tem de ser a base para as nossas condições de trabalho serem saudáveis, inclusivas, seguras e nós podermos ser, estar e dar o nosso melhor”, defendeu.
O que continua a falhar?
A responsável explicou ainda que o grupo Fidelidade decidiu, há cerca de um ano, reunir numa única estrutura áreas que até então funcionavam de forma separada, como segurança, medicina do trabalho e bem-estar corporativo, numa abordagem mais integrada à saúde e ao bem-estar das pessoas. Ao longo da conversa, insistiu na necessidade de as empresas deixarem de atuar apenas sobre os sintomas e começarem a intervir sobre as causas reais dos problemas. “Temos de ter esta coragem de ir a fundo, ir à raiz dos problemas e não fazer mais iniciativas para tratar sintomas.” Deixou ainda um alerta direto sobre algumas respostas organizacionais ao burnout: “Se já estou numa situação de burnout, não me mandem para um workshop. Isso até é contraproducente e altamente frustrante”.
Um dos momentos mais marcantes da sessão surgiu quando Sofia Roque admitiu que a própria avaliação de riscos psicossociais pode tornar-se um exercício meramente formal. “Já usámos ou já aplicámos a avaliação de riscos psicossociais de forma cosmética”, reconheceu. A responsável explicou que, numa primeira fase, a Codifids se concentrou, sobretudo, em atuar sobre os sintomas, como stress, burnout ou problemas de sono, em vez de atacar diretamente as causas estruturais. Agora, “estamos finalmente a conseguir explorar as causas e trabalhar a esse nível”, afirmou. Entre essas causas, apontou fatores como excesso de carga de trabalho, falta de autonomia, processos pouco transparentes ou modelos de liderança inadequados.
Ricardo Sousa, da Workplace Options, sublinhou que o bem-estar continua, em muitas empresas, a ser tratado como um tema à parte. “O meu desejo seria que o bem-estar passasse a ser um dos temas principais da organização e não só um tema paralelo”, disse mesmo.
O responsável destacou ainda a importância da personalização das estratégias, lembrando que diferentes gerações e fases de vida exigem respostas distintas. “Se estiver no início de carreira, vou ter umas necessidades. Mas se eu estiver numa fase já de pré-reforma, tenho outras.”
Ao longo da sessão, repetiu-se várias vezes a ideia de que não existem fórmulas universais e que qualquer estratégia eficaz de bem-estar depende da capacidade das organizações para ouvir, recolher dados e adaptar respostas.
Recorde-se que a 31.ª edição do Fórum RH contou com o patrocínio premium da Adecco, Aon, DECO PROteste, Edenred, Grow-Ing/isEazy, ISQ Academy, Seresco, Sibs Multicert e Workplace Options. Entre os restantes patrocinadores encontram-se a Cegid, Factorial, GFoundry, GoFluent, GoodHabitz, ISCTE – Executive Education, Cornerstone/ISQe, Mercer, Team 2, Urban Sports Club e Wospee. A Actuasys, a Associação Portuguesa de Gestão das Pessoas, a Dynargie, a Didaskalia, a Nubhora e a Pulso Portugal integraram o conjunto de expositores e apoios. O Networking Lounge foi patrocinado pelo Clan.
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