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EXCLUSIVO: Como está a saúde mental da sua empresa?

IIRH Por IIRH
1 de Janeiro, 2021
em ARTIGOS TÉCNICOS, HR, SAÚDE E BEM-ESTAR
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EXCLUSIVO: Como está a saúde mental da sua empresa?
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O burnout já entrou no vocabulário dos portugueses e é, desde o ano passado, considerado uma doença pela OMS, mas será que as empresas já estão a dar a devida atenção a este problema?

Fruto de dificuldades em gerir a vida, um “estado de exaustão vital” – era esta a definição de burnout, até maio do ano passado, altura em que passou a ser considerado um problema de saúde
relacionado especificamente com o trabalho, pela Organização Mundial de Saúde (OMS). “Burnout é um síndrome conceptualizado como o resultado de stress crónico no local de trabalho que não foi gerido com sucesso”, dita a nova definição. A entrada do burnout, ou stress profissional na nova classificação internacional de doenças da OMS, que vigorará a partir de janeiro de 2022, veio chamar, reforçadamente, a atenção das pessoas e organizações para esta temática.

13,7% das pessoas ativas em Portugal estavam em estado de burnout em 2016.

Apesar de num primeiro momento a doença afetar apenas o colaborador, os especialistas concordam que o tratamento e a prevenção do burnout precisam partir de mudanças internas nas empresas. Segundo a Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho, os riscos psicossociais e o stress relacionado com o trabalho são das questões que maiores desafios apresentam em matéria de segurança e saúde no trabalho, e têm um impacto significativo na saúde de pessoas, mas também das organizações e das economias nacionais.

“Estou em querer que a grande maioria das empresas não contabilizam os prejuízos decorrentes deste tipo de problemas nem o impacto destes no negócio. Na verdade, os custos resultantes dos problemas de saúde física  e mental podem ser muito expressivos para a empresa”, explica Samuel Antunes, diretor do Programa de Promoção da Saúde Mental no Trabalho da Ordem dos Psicólogos Portugueses, acrescentando que estes podem traduzir-se em absenteísmo, presenteísmo, diminuição da qualidade do trabalho prestado, diminuição da satisfação com o trabalho, desmotivação, aumento da incidência de erros e de acidentes de trabalho, redução da produtividade, abandono da empresa e/ou intenção de deixar o local de trabalho.

O diagnóstico é frequente em profissionais com atividades exigentes e stressantes, muitas vezes sujeitas a turnos, como é o caso de médicos, enfermeiros e professores. Mas num mercado de trabalho cada vez mais acelerado, exigente e competitivo, o burnout tem-se tornado cada vez mais comum. O acúmulo de tarefas e as cobranças excessivas têm levado ao esgotamento profissional de trabalhadores dos mais diversos segmentos do mercado, fazendo com que este problema esteja cada vez mais presente no ambiente de trabalho.

Segundo dados da Associação Portuguesa de Psicologia da Saúde Ocupacional, 13,7% das pessoas ativas em Portugal estavam em estado de burnout em 2016. No mesmo ano, 82% estavam em risco elevado de entrar em estado de burnout, 11% em risco moderado e 3% em risco médio. A nível europeu, dos 31 países que participaram num inquérito de opinião sobre segurança e saúde ocupacional, da Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho, em maio de 2013, Portugal era o terceiro país com maior percentagem de trabalhadores a referir que o stress relacionado com a atividade profissional é muito comum (28%).

Burnout: um tabu difícil de quebrar

Filipa Palha, psicóloga e presidente da ENCONTRAR+SE – Associação para a Promoção da Saúde Mental, diz não ter dúvidas de que as empresas estão mais alerta e cientes da importância desta temática, no entanto, defende que ainda falta às organizações saber abordá-la. “Na verdade, a demonstração de interesse não significa capacidade de concretizar medidas adequadas. Das conversas que temos vindo a ter com muitas empresas e pessoas que trabalham no desenvolvimento de múltiplos projetos no local de trabalho, ainda enfrentamos muitos desafios para quebrar o silêncio que se mantém a propósito da saúde mental. É como se estivéssemos a invadir a privacidade dos outros. Claramente o efeito do estigma e da iliteracia em saúde
mental”, explica.

Foi também a pensar em promover a saúde mental nas organizações que a Team24, um projeto para promover o bem-estar no local de trabalho, lançou em 2017 a Assistência Psicológica telefónica, com o objetivo de prestar apoio aos colaboradores, de forma fácil e confidencial. Mas, ao contrário do que seria expectável, a utilização desta linha de apoio telefónico não é muito frequente. “O estigma associado à saúde mental e o medo de que a entidade patronal, de alguma forma saiba que o colaborador não se sente bem psicologicamente, mesmo o serviço sendo 100% anónimo e confidencial, é ainda uma realidade no nosso país”, justifica Ana Ruivo, responsável pelo
projeto Team24.

A profissional acredita que as empresas em Portugal ainda estão muito atrasadas no que concerne à consciencialização da importância da saúde mental e bem-estar psicológico na produtividade dos colaboradores e na saúde geral e financeira das organizações. “As empresas preferem investir em workshops e atividades de well-being, team buildings, ginástica laboral, benefícios extrassalariais ou outras medidas, do que investir na prevenção de riscos psicossociais ou psicólogos de atuação preventiva e/ou iterventiva. É certo que as empresas vivem de pessoas, mas
também vivem de números.”

Um investimento necessário, mas difícil de medir

Por cada euro investido em saúde mental, há um retorno de 4 euros

O facto de a saúde mental ser pouco mensurável acresce desafios à perceção da real importância do tema. Um estudo da OMS, revelado em 2016, apontava que, por cada euro investido em saúde mental, há um retorno de 4 euros, porém, estes números parecem não ser suficientes.

Só uma percentagem reduzida de empresas – cerca de 15% no setor privado e 5% no setor público – investe na prevenção do stress laboral e do burnout dos seus colaboradores, quem o diz é Samuel Antunes. “Os investimentos das empresas portuguesas na promoção da saúde, bem-estar e qualidade de vida dos colaboradores, estão claramente abaixo da média europeia (34%), o que aumenta o risco dos profissionais portugueses em termos de saúde física e mental.”

Para Ana Ruivo, enquanto os decisores não se consciencializarem do retorno do investimento nesta área, nunca vão investir em planos de saúde mental de forma consistente. A profissional acredita que há duas grandes razões para as organizações não falarem sobre o tema da saúde mental: o estigma e o ROI (return of investment). “Se, por um lado, no nosso país a saúde mental continua a ser tabu e sinal de fraqueza, por outro lado, investir numa área que pouco se conhece torna-se arriscado para os decisores. O estigma associado à saúde mental é enorme. As empresas têm medo de assumir e de perceber que as pessoas não estão bem. No que diz respeito ao burnout, que no fundo se trata de um esgotamento provocado por stress excessivo, por sua vez, provocado pelas condições gerais de trabalho, o estigma é ainda maior. Os colaboradores têm medo de aceder aos serviços por medo de represálias e os líderes têm medo de investigar, monitorar e assumir que os colaboradores não estão bem devido a questões de burnout”, realça.

Prevenir, identificar, agir

Apesar de ainda não ter a devida atenção no tecido empresarial portugues, há já várias empresas a trabalhar este tema e desenvolver projetos dentro das suas organizações. Vejamos alguns casos.

O Município de Vila Verde realizou, em março de 2016, uma avaliação de riscos psicossociais, cujos resultados revelaram pressão psicológica, por parte de colegas e superiores, assédio moral e ingestão de medicação do tipo ansiolítica ou antidepressiva entre os profissionais. Desde então, passou a constituir um desígnio da divisão de RH delinear um projeto consistente que permitisse mitigar as fragilidades detetadas. Nesse âmbito, foi desenvolvido o “Projeto Sanus”,cujos objetivos foram claramente traçados: “investir na melhoria do relacionamento interpessoal e na melhoria da transmissão de informação para os trabalhadores (objetivos, ordens de trabalho, mudanças a serem introduzidas, etc.) e também para os superiores hierárquicos(preocupações, opiniões e necessidades dos trabalhadores); estar atentos a indícios de ânsia por parte dos trabalhadores com o objetivo de perceber qual a origem de tais situações, permitindo assim dar apoio na resolução das situações perturbadoras, que certamente se traduzirá em gratidão e reconhecimento do humanismo da instituição e,consequentemente, trará um maior empenho na dinâmica da instituição por parte de todos os profissionais; promover a resolução de eventuais conflitos com justiça, procurando avaliar as situações de conflito com objetividade e imparcialidade, tendo por base o respeito; e promover atividades estratégicas com o objetivo de fomentar o bem-estar físico e psicológico dos trabalhadores”, avança Dulce Filipe,chefe da divisão de RH do Município de Vila Verde.
Entre outras atividades, a organização iniciou, em 2019, o projeto “Mind at Work”, desenvolvido pela ENCONTRAR+SE, que começou por proceder à avaliação dos riscos psicossociais, do burnout, da literacia em saúde mental, junto de um grupo de colaboradores selecionados aleatoriamente, por carreira profissional. Paralelamente, os dirigentes foram alvo de uma intervenção individualizada,começando pela avaliação da IE (inteligência emocional), a partir da qual se definiram planos de ação individual para dotar os dirigentes de maior capacidade de desempenhar o papel de promotores de organizações saudáveis. Foram ainda realizados workshops destinados exclusivamente a dirigentes sobre estilos de liderança, gestão de pessoas e conflitos e work-life balance, e outros que abrangeram todos os colaboradoressobre autoconhecimento
e mindfulness, empatia e gestão de stress.
A Deeply foi outra empresa que aplicou o projeto “Mind@work”. Mónica Pimentel, general manager da organização,sublinha que para o sucesso das empresas é imprescindível a criação de ambientes de trabalho positivos e de confiança, onde cada um possa expressar a sua individualidade e dar o ser melhor,sem receio de exposição ou risco. Nas suas palavras,só assim se
pode aspirar ao compromisso das equipas e como consequência ao aumento da produtividade. “Neste contexto surgiu o “Mind@work”, trabalhando os temas da saúde mental, autoconhecimento, empatia,comunicação com os outros e gestão do stress em contexto laboral. Não é possível existir foco e excelência no trabalho,se se luta internamente consigo próprio ou se tenta sobreviver em contextoslaborais porvezes «tóxicos»”, explica.
O programa realizou-se na sequência de um conjunto de ações desenvolvidas ao longo de 2019, iniciando com o projeto “Deep Dive”– uma iniciativa de autoconhecimento e potenciação de talentos, traduzida num conjunto de ações de transformação cultural, desenhadas pela própria equipa e que agora ligam com o “Mind@work”, para proporcionar um local de trabalho feliz e saudável em todas as componentes.

Reportagem publicada na edição 127, março/abril 2019, da RHmagazine.
Por Flávia Brito
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