O burnout já entrou no vocabulário dos portugueses e é, desde o ano passado, considerado uma doença pela OMS, mas será que as empresas já estão a dar a devida atenção a este problema?
Fruto de dificuldades em gerir a vida, um “estado de exaustão vital” – era esta a definição de burnout, até maio do ano passado, altura em que passou a ser considerado um problema de saúde
relacionado especificamente com o trabalho, pela Organização Mundial de Saúde (OMS). “Burnout é um síndrome conceptualizado como o resultado de stress crónico no local de trabalho que não foi gerido com sucesso”, dita a nova definição. A entrada do burnout, ou stress profissional na nova classificação internacional de doenças da OMS, que vigorará a partir de janeiro de 2022, veio chamar, reforçadamente, a atenção das pessoas e organizações para esta temática.
13,7% das pessoas ativas em Portugal estavam em estado de burnout em 2016.
Apesar de num primeiro momento a doença afetar apenas o colaborador, os especialistas concordam que o tratamento e a prevenção do burnout precisam partir de mudanças internas nas empresas. Segundo a Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho, os riscos psicossociais e o stress relacionado com o trabalho são das questões que maiores desafios apresentam em matéria de segurança e saúde no trabalho, e têm um impacto significativo na saúde de pessoas, mas também das organizações e das economias nacionais.
“Estou em querer que a grande maioria das empresas não contabilizam os prejuízos decorrentes deste tipo de problemas nem o impacto destes no negócio. Na verdade, os custos resultantes dos problemas de saúde física e mental podem ser muito expressivos para a empresa”, explica Samuel Antunes, diretor do Programa de Promoção da Saúde Mental no Trabalho da Ordem dos Psicólogos Portugueses, acrescentando que estes podem traduzir-se em absenteísmo, presenteísmo, diminuição da qualidade do trabalho prestado, diminuição da satisfação com o trabalho, desmotivação, aumento da incidência de erros e de acidentes de trabalho, redução da produtividade, abandono da empresa e/ou intenção de deixar o local de trabalho.
O diagnóstico é frequente em profissionais com atividades exigentes e stressantes, muitas vezes sujeitas a turnos, como é o caso de médicos, enfermeiros e professores. Mas num mercado de trabalho cada vez mais acelerado, exigente e competitivo, o burnout tem-se tornado cada vez mais comum. O acúmulo de tarefas e as cobranças excessivas têm levado ao esgotamento profissional de trabalhadores dos mais diversos segmentos do mercado, fazendo com que este problema esteja cada vez mais presente no ambiente de trabalho.
Segundo dados da Associação Portuguesa de Psicologia da Saúde Ocupacional, 13,7% das pessoas ativas em Portugal estavam em estado de burnout em 2016. No mesmo ano, 82% estavam em risco elevado de entrar em estado de burnout, 11% em risco moderado e 3% em risco médio. A nível europeu, dos 31 países que participaram num inquérito de opinião sobre segurança e saúde ocupacional, da Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho, em maio de 2013, Portugal era o terceiro país com maior percentagem de trabalhadores a referir que o stress relacionado com a atividade profissional é muito comum (28%).
Burnout: um tabu difícil de quebrar
Filipa Palha, psicóloga e presidente da ENCONTRAR+SE – Associação para a Promoção da Saúde Mental, diz não ter dúvidas de que as empresas estão mais alerta e cientes da importância desta temática, no entanto, defende que ainda falta às organizações saber abordá-la. “Na verdade, a demonstração de interesse não significa capacidade de concretizar medidas adequadas. Das conversas que temos vindo a ter com muitas empresas e pessoas que trabalham no desenvolvimento de múltiplos projetos no local de trabalho, ainda enfrentamos muitos desafios para quebrar o silêncio que se mantém a propósito da saúde mental. É como se estivéssemos a invadir a privacidade dos outros. Claramente o efeito do estigma e da iliteracia em saúde
mental”, explica.
Foi também a pensar em promover a saúde mental nas organizações que a Team24, um projeto para promover o bem-estar no local de trabalho, lançou em 2017 a Assistência Psicológica telefónica, com o objetivo de prestar apoio aos colaboradores, de forma fácil e confidencial. Mas, ao contrário do que seria expectável, a utilização desta linha de apoio telefónico não é muito frequente. “O estigma associado à saúde mental e o medo de que a entidade patronal, de alguma forma saiba que o colaborador não se sente bem psicologicamente, mesmo o serviço sendo 100% anónimo e confidencial, é ainda uma realidade no nosso país”, justifica Ana Ruivo, responsável pelo
projeto Team24.
A profissional acredita que as empresas em Portugal ainda estão muito atrasadas no que concerne à consciencialização da importância da saúde mental e bem-estar psicológico na produtividade dos colaboradores e na saúde geral e financeira das organizações. “As empresas preferem investir em workshops e atividades de well-being, team buildings, ginástica laboral, benefícios extrassalariais ou outras medidas, do que investir na prevenção de riscos psicossociais ou psicólogos de atuação preventiva e/ou iterventiva. É certo que as empresas vivem de pessoas, mas
também vivem de números.”
Um investimento necessário, mas difícil de medir
Por cada euro investido em saúde mental, há um retorno de 4 euros
O facto de a saúde mental ser pouco mensurável acresce desafios à perceção da real importância do tema. Um estudo da OMS, revelado em 2016, apontava que, por cada euro investido em saúde mental, há um retorno de 4 euros, porém, estes números parecem não ser suficientes.
Só uma percentagem reduzida de empresas – cerca de 15% no setor privado e 5% no setor público – investe na prevenção do stress laboral e do burnout dos seus colaboradores, quem o diz é Samuel Antunes. “Os investimentos das empresas portuguesas na promoção da saúde, bem-estar e qualidade de vida dos colaboradores, estão claramente abaixo da média europeia (34%), o que aumenta o risco dos profissionais portugueses em termos de saúde física e mental.”
Para Ana Ruivo, enquanto os decisores não se consciencializarem do retorno do investimento nesta área, nunca vão investir em planos de saúde mental de forma consistente. A profissional acredita que há duas grandes razões para as organizações não falarem sobre o tema da saúde mental: o estigma e o ROI (return of investment). “Se, por um lado, no nosso país a saúde mental continua a ser tabu e sinal de fraqueza, por outro lado, investir numa área que pouco se conhece torna-se arriscado para os decisores. O estigma associado à saúde mental é enorme. As empresas têm medo de assumir e de perceber que as pessoas não estão bem. No que diz respeito ao burnout, que no fundo se trata de um esgotamento provocado por stress excessivo, por sua vez, provocado pelas condições gerais de trabalho, o estigma é ainda maior. Os colaboradores têm medo de aceder aos serviços por medo de represálias e os líderes têm medo de investigar, monitorar e assumir que os colaboradores não estão bem devido a questões de burnout”, realça.
Prevenir, identificar, agir
Apesar de ainda não ter a devida atenção no tecido empresarial portugues, há já várias empresas a trabalhar este tema e desenvolver projetos dentro das suas organizações. Vejamos alguns casos.