Por José Crespo de Carvalho, Presidente do ISCTE Executive Education
Em tempos incertos, a formação de executivos deixa de ser um adorno curricular para voltar a ser aquilo que sempre deveria ter sido: instrumento de sobrevivência, de lucidez e de decisão. Algumas constatações impõem-se, mesmo custando.
A primeira é simples: a experiência, por si só, já não chega. Muitos anos de carreira não garantem melhor leitura
do contexto, nem maior capacidade de decidir sob pressão. Há gestores muito experientes a repetir velhas fórmulas para problemas novos. Isso paga-se caro. Caríssimo.
A segunda constatação é esta: em crise, quem não aprende depressa fica para trás bem mais depressa do que pensa. A velocidade da mudança não espera pelo conforto de ninguém. Mudam os mercados, a geopolítica, a tecnologia, o custo do capital, as cadeias de abastecimento, as expectativas dos clientes e os padrões do trabalho. Quem lidera sem atualizar instrumentos, conceitos e capacidade de interpretação arrisca decidir mal. E fá-lo, normalmente, com grande convicção. Decidir mal com convicção continua a ser decidir mal.
Terceira constatação: formação de executivos não serve para levar um diploma. Serve para pensar melhor. Para
compreender problemas, separar barulho dos sinais, ganhar método, aumentar a qualidade do juízo e reduzir a improvisação. Não elimina a incerteza, mas melhora a forma como se convive com ela.
Quarta constatação: nem toda a formação vale a pena. Há oferta em excesso, algum charme superficial e demasiada teoria sem consequências, sem impacto. Formação séria tem de criar capacidade aplicável, confrontar o participante com problemas reais, obrigá-lo a questionar pressupostos, a desenvolver pensamento crítico, a alargar racionais e linguagem e a disciplinar a decisão. O resto entretém, não transforma.
Quinta constatação: a formação não substitui a coragem, mas ajuda a evitar a ignorância. E a ignorância na liderança sai cara. Paga-se em más contratações, em maus investimentos, em equipas desorientadas, em oportunidades perdidas e em organizações que demoram um tempo excessivo a perceber que o contexto mudou.
Num quadro de incerteza, inflação, tensão geopolítica, aceleração tecnológica e fadiga organizacional, formar executivos é reforçar o músculo da liderança. É investir em solidez, em melhor capacidade de decisão, em maior autonomia, em pensamento mais estruturado e em melhor preparação. É desenvolver pessoas mais aptas para escolher quando não há respostas perfeitas.
Há despesas que se cortam em tempos difíceis. Esta não deveria ser uma delas. Porque, quando tudo treme, o valor está menos no discurso e mais na qualidade de quem decide.
Warren Buffett disse-o de forma exemplar: “The best investment you can make is in yourself”. Em crise, em incerteza, isso vale ouro. Porque é a única coisa que temos por certo e que levaremos connosco à saída.
Artigo publicado na edição 163 da RHmagazine, referente aos meses de março e abril de 2026
Aproveite e leia já as últimas edições da RHmagazine AQUI