Ao longo da sua carreira esteve sempre ligado ao setor dos transportes. O seu primeiro emprego foi na Rodoviária Nacional (RN)?
Entrei na Rodoviária Nacional em junho de 1979 com a categoria de técnico de planeamento. Na altura, com 25 anos, não pensava permanecer muito tempo no setor. Não sabia ainda que os desafios e as oportunidades que os transportes públicos de passageiros me colocariam levariam a que, passados 33 anos, ainda permaneça com o mesmo entusiasmo, a procurar acrescentar valor a todos os que necessitam do transporte público para as suas deslocações.
Quando é que a RN foi «desmembrada» e surgiu a Rodoviária de Lisboa (RL)?
A Rodoviária Nacional Investimentos e Participações, SA iniciou a privatização das suas empresas em 1994. No entanto, desencadeou-se anteriormente um processo de adaptação da organização da empresa, que foi dividida em várias empresas locais de passageiros e mercadorias, as quais foram posteriormente vendidas. Neste processo, a Rodoviária de Lisboa foi constituída em fevereiro de 1991 como empresa pública, tendo como acionista único a Rodoviária Nacional Investimentos e Participações, SA.
Qual é atualmente a estrutura acionista da empresa?
A Rodoviária de Lisboa é detida a 100% pelo Grupo Barraqueiro.
Além de Lisboa, quais são os concelhos que a empresa serve e quantos passageiros são transportados diariamente?
A RL serve os concelhos de Odivelas, Loures, Vila Franca de Xira, Amadora e Sintra, transportando diariamente 160 mil passageiros.
Quantas viaturas é que asseguram a operação?
A frota da RL é composta por 390 viaturas.
Quando é que ocorreu a promoção a administrador da Rodoviária de Lisboa?
Quando a Rodoviária de Lisboa foi constituída como empresa, em fevereiro de 1991, fui nomeado administrador, tendo passado a presidente do conselho de administração em fevereiro de 1994.
Qual a realidade da RL antes de assumir o cargo de presidente da empresa?
Quando a Rodoviária de Lisboa foi criada, era a maior empresa do grupo Rodoviária Nacional, com mais de 650 autocarros, 2100 efetivos, servindo oito concelhos da área metropolitana de Lisboa e transportando mais de 500 mil passageiros por dia.
Quando assumiu a presidência, quais foram as prioridades que estabeleceu?
Quando assumi a presidência da empresa, faltava cerca de um ano para que esta fosse privatizada. Nessa altura, a prioridade era melhorar os seus níveis de produtividade, afirmar a empresa como uma opção válida nas opções de deslocação das populações, acrescentando valor à sua rede de serviços, e assim melhorar a sua rentabilidade.
Nessa estratégia, qual foi a prioridade dada à gestão de recursos humanos?
Nessa altura, havia uma grande incerteza sobre o futuro da empresa, pelo que o nível de ansiedade dos colaboradores era muito grande. Por outro lado, o número de efetivos existente era bastante superior às necessidades, o que envolveu um profundo trabalho de reorganização de processos e racionalização de recursos.
Neste contexto, a gestão de recursos humanos foi crucial para se manter um ambiente de cooperação na empresa e os níveis motivacionais necessários para cumprir os objetivos de melhoria de produtividade e rentabilidade. Ao mesmo tempo que se desenvolveu um processo de redução de efetivos, através de negociação e de apoio na procura de novos empregos, desenvolveram-se também programas de formação para melhoria de competências internas e elevação dos níveis motivacionais.
Com quantos colaboradores conta atualmente a Rodoviária de Lisboa?
Na sessão de privatização em bolsa, a Rodoviária de Lisboa foi vendida a três empresários, que, após a sua aquisição, a dividiram em três partes, representando a atual Rodoviária de Lisboa cerca de um terço da empresa privatizada. Atualmente temos 812 colaboradores, dos quais 601 são motoristas.
O efetivo tem-se mantido mais ou menos constante ou tem havido redução?
Apesar da situação de crise que vivemos, e que tem reduzido com algum significado a nossa atividade, temos mantido todos os atuais postos de trabalho.
Os serviços de apoio são integralmente assegurados pela empresa ou recorrem a outsourcing?
Recorremos a outsourcing nas atividades que, por não termos competências internas por não ser a nossa atividade, devem ser desempenhadas por especialistas, nomeadamente abastecimentos, lavagens e segurança.
E no que toca ao departamento de recursos humanos?
Face à especificidade do nosso setor, todos os procedimentos administrativos são garantidos internamente. No processo de recrutamento, recorremos ao exterior para a realização de testes específicos para as funções em causa e o nosso plano anual de formação inclui determinadas ações que são ministradas por especialistas em diversas áreas.
Além da formação profissional, quais são as áreas funcionais que privilegiam?
A área da comunicação, interna e externa, é fundamental numa empresa de serviços que lida diariamente com os hábitos de mobilidade dasessoas. Procuramos incutir nos nossos colaboradores valores de respeito, urbanidade e rigor nas informações aos nossos clientes, para além da prestação de um serviço de condução defensiva e em segurança. Na comunicação externa e marketing, existe a necessidade de informar com rigor os níveis e as alterações de serviço que a empresa vai realizando, para melhor servir as necessidades de deslocação das populações.
Na área da inovação, procuramos estar atentos às necessidades do mercado e recentemente fomos premiados pelo Instituto da Mobilidade e Transportes Terrestres com um prémio no âmbito de um concurso sobre acessibilidades aos transportes públicos, pelo desenvolvimento do projeto «Informação sem barreiras» que permite que invisuais e iletrados tenham acesso a informação em tempo real sobre os destinos dos autocarros que chegam à paragem.
Quais são os critérios estabelecidos relativamente à avaliação dos motoristas?
A avaliação dos motoristas tem em consideração aspetos objetivos relacionados com o tipo de condução, bem como aspetos qualitativos do seu relacionamento com os clientes. A monitorização dos aspetos técnicos é efetuada por um programa específico desenvolvido no interior da empresa, denominado GISFROT, e que apura indicadores relativos à velocidade, acelerações, travagens, abertura de portas, consumo de combustível, ralenti, entre outros. Os aspetos qualitativos têm a ver com a imagem do motorista e a forma como se relaciona no seu dia a dia com os passageiros. Fatores como acidentes de viação, vertente disciplinar e absentismo são também considerados.
De que forma é gerida a grande responsabilidade sobre os vossos motoristas no que toca ao estado psíquico e à eventual ingestão de bebidas alcóolicas e substâncias psicotrópicas?
A nossa área de medicina no trabalho tem uma particular atenção a esta matéria. Nos exames de admissão, realizamos testes para despistar este tipo de questões e, no que respeita a bebidas alcoólicas, efetuamos diariamente testes de avaliação dos níveis alcoólicos dos nossos colaboradores. Felizmente a taxa de resultados positivos é praticamente nula. Quanto ao apoio psíquico, foi criado recentemente na empresa o projeto + Solidário, onde cada motorista passou a ter um elemento destacado para o apoiar nas suas necessidades quer de integração na empresa quer em dificuldades pessoais. Este elemento foi sujeito a rigorosos testes de aptidão e a formação específica para estar apto a fornecer o apoio necessário nas diversas ocasiões, incluindo situações de acidente ou agressão. Pretendemos, assim, melhorar o nível de integração e comunicação no interior da empresa, aumentando os níveis de pertença do grupo.
A RL é reconhecida pelas ações conducentes à preservação do meio ambiente. Peço-lhe para especificar o projeto GISFROT.
Como referi anteriormente, o projeto GISFROT pretende monitorizar a atitude de condução dos motoristas, incentivando uma condução económica e segura. O objetivo é a prática de uma condução defensiva, que aumente o conforto e a segurança dos passageiros e, em consequência, diminua o consumo de gasóleo e as correspondentes emissões de CO2 para a atmosfera. Desde o início do projeto, foi possível registar uma redução do consumo de combustível em 1,76 milhões de litros e das emissões de CO2 em 4726 toneladas.
Através de uma caixa negra instalada na viatura, é possível obter um conjunto de dados sobre a condução efetuada, que depois são analisados em conjunto com o motorista, pretendendo-se corrigir os indicadores menos favoráveis. O programa utiliza inclusivamente dados da Internet que permitem informar o motorista do local e hora onde esses eventos menos favoráveis ocorreram.
Qual é a taxa de sinistralidade da RL comparativamente a empresas nacionais congéneres?
A formação que efetuamos e o tipo de acompanhamento que realizamos aos nossos motoristas têm dado resultados positivos ao nível da sinistralidade. Nos primeiros cinco meses deste ano, o total de acidentes de viação diminuiu 14% relativamente a idêntico período do ano anterior e os acidentes de responsabilidade própria diminuíram 25%.
Em termos de qualidade, quais são as políticas levadas a efeito pela RL?
Nesta matéria, a empresa tem os seus processos de trabalho estruturados num sistema integrado de ambiente e qualidade, de acordo com as normas NP EN ISO 14001:2004 e NP EN ISO 9001:2008. Neste contexto, temos como missão disponibilizar uma rede de serviços de transporte rodoviário que satisfaça as necessidades de mobilidade dos nossos clientes, assegurando continuamente a sua satisfação. Neste momento estamos a desenvolver um trabalho de certificação das nossas instalações em saúde e segurança de acordo com a OHSA 18001:2007.
Fazem a monitorização da satisfação do cliente?
Todos os anos efetuamos um inquérito de satisfação aos nossos clientes, obtendo dados sobre a sua perceção de vários aspetos do serviço de transporte. São efetuadas perguntas relativamente aos aspetos comportamentais de como o serviço é prestado, isto é, a forma como os nossos agentes se relacionam com os passageiros, e aspetos respeitantes ao nível de serviço, como sejam horários, percursos e paragens. Estas respostas, como podem ser obtidas por carreira e por área, permitem-nos desenvolver ações para corrigir os aspetos mais negativos do serviço.
O nível de satisfação global com o serviço é de 6,8 numa escala até 10.
A RL serve alguns concelhos limítrofes de Lisboa onde os índices de criminalidade são elevados. As viaturas da empresa já foram alvo de vandalismo e criminalidade?
Esporadicamente existe alguma conflitualidade com os nossos motoristas e passageiros em bairros sociais mais problemáticos. Nesta área, temos desenvolvido uma parceria com a Câmara Municipal de Loures e as forças de segurança, integrando o projeto do contrato local de segurança. Este projeto pretende apoiar a integração da comunidade desses bairros através de iniciativas de esclarecimento, concursos e atividades culturais. Temos apoiado vários espetáculos dados pelos residentes desses bairros, patrocinado concursos à comunidade escolar sobre o tema transportes públicos e efetuado sessões de esclarecimento sobre a nossa atividade.
O que pensa acerca da interface da RL com a rede de transportes urbanos de Lisboa, designadamente com a Carris e Metro?
O que se assiste nessa matéria é à autorização para os operadores de Lisboa virem aos concelhos limítrofes transportar passageiros, retirando mercado aos operadores privados, enquanto não é autorizado que estes operadores privados possam efetuar transporte no interior de Lisboa. É uma concorrência desleal que muito tem prejudicado as nossas empresas.
A seu ver, justificar-se-ia uma Autoridade Metropolitana de Lisboa para o Transporte Público?
A Autoridade Metropolitana de Transportes de Lisboa existe, muito embora não tenha tido os recursos necessários para efetuar o necessário planeamento e financiamento do serviço de transporte público metropolitano na área de Lisboa.
Representou Portugal no programa DRIVE (Dedicated Road Infrastructure For Vehicle Safety in Europe). Em que estudos esteve envolvido?
Tive a oportunidade de participar nesse programa já lá vão 23 anos. Foi um dos primeiros passos a nível comunitário de definição de normas comuns para aspetos de segurança rodoviária na comunidade europeia. Analisaram-se várias vertentes associadas à segurança, desde as condições de construção das infraestruturas aos tipos de veículos, velocidades de circulação, sinalização, etc.
Recentemente foram distinguidos com o terceiro lugar do Prémio Acessibilidade aos Transportes 2011/2012, atribuído pelo Instituto da Mobilidade e dos Transportes Terrestres. Que projetos têm sido desenvolvidos neste âmbito?
Este projeto teve como objetivo melhorar a acessibilidade aos nossos serviços de pessoas com dificuldades de visão. Criámos um sistema de informação que, nas paragens e no interior dos autocarros, permite às pessoas com dificuldade de visão serem informadas dos serviços por via sonora. Também melhorámos a acessibilidade aos nossos autocarros para as pessoas com mobilidade reduzida, complementando a melhoria dos equipamentos com formação específica aos nossos condutores relativamente à forma como devem ajudar e facilitar a mobilidade destas pessoas para utilizarem os serviços de transporte.
A RL foi pioneira em atenuar a exclusão social dos clientes que apresentam limitações sensoriais, criando painéis multifunções para estes utentes. A inclusão é um valor essencial para a qualidade do serviço prestado…
Os transportes públicos devem servir a generalidade da população, procurando não excluir ninguém no acesso aos seus serviços. Desta forma, grupos sociais com dificuldades específicas devem ser tidos em consideração e devem ser tomadas as medidas possíveis para mitigar fatores que possam potenciar a sua exclusão. A qualidade do serviço também se pode ver pela forma como estes grupos são considerados no acesso à rede de serviços de transporte.
Crê que alguns destes projetos podem ser integrados por outras empresas do setor?
Estamos disponíveis para conversar e trocar experiências com todos aqueles que pretendam desenvolver projetos semelhantes nas suas empresas.
Sugiro que a partir de agora a entrevista tenha um cunho mais pessoal. Fora da atividade de gestor, quais são os seus interesses/hobbies?
Gosto do campo e das atividades ligadas ao mundo rural. Gosto de desporto; para além do futebol, golfe e ténis são modalidades que gosto de praticar.
Qual a sua viagem de sonho?
Conhecer o continente australiano é uma viagem que gostaria de fazer.
Peço-lhe para citar um livro que o tenha marcado, justificando a escolha.
A obra de António Alçada Baptista, pelas lembranças que me traz da infância na Beira.
Que valores são transversais à sua atuação enquanto profissional e enquanto pessoa?
O respeito, a confiança e o rigor na relação com os outros. Tratar os outros como gostaria de ser tratado se estivesse no lugar deles. As organizações e os seus resultados são feitos por pessoas, é fundamental não esquecer a dignidade humana no relacionamento interpessoal e potenciar o lado positivo de todos os colaboradores.
(Entrevista publicada na RH Magazine – 2012)