Autor: Sónia Pinote Bernardes, Especialista em Psicologia Clínica e da Saúde Ocupacional
Há 20 anos, fui convidada para falar sobre Gestão de Stress no extinto Serviço de Cirurgia do Hospital de Santo António dos Capuchos. Estava nessa altura a ocorrer um processo de mudança, uma junção de serviços de diferentes hospitais. Nos corredores ouvia-se frases que revelavam desconfiança, cansaço e desmotivação. Recordo-me que nessa sessão, entre cirurgiões e enfermeiros, apresentei o conceito Burnout e ninguém sabia do que se tratava.
Passado duas décadas, 1 em 4 médicos internos têm Burnout, sendo uma palavra do nosso quotidiano.
“Sinto-me exausto, tenho imenso medo de errar, não durmo bem e tenho dificuldade em recordar-me de algumas coisas”, este discurso é constante entre muitas consultas. Um estado que leva a pessoa a agir de forma despersonalizada, ou seja, fria e de forma distante. Acredita que é só uma fase, que vai passar e que de forma alguma pode revelar fraqueza. É uma realidade existente à nossa volta e que pode bater à porta sem que no apercebamos das suas terríveis consequências. Com as condições perfeitas “ele” se instaura em cada corpo e mente tornando a vida sem sentido.
Foi o que aconteceu à M. Uma enfermeira, de 50 anos, uma história pessoal longa e solitária, dedicada aos outros.
“…era uma manhã como outra qualquer.” – Responsável do serviço (RS) -Temos de ir ao gabinete da supervisora. M. – passa-se alguma coisa? RS – Temos de lá ir. RS – Sabe pq está aqui? Maria – Não. RS – A Sra. foi acusada pelas suas colegas de agressão, porque puxou pelos cabelos de uma doente e disse-lhe asneiras. Maria – Desculpe? Qual doente?
Expressa que ficou “surpreendida, sem chão, angustiada, desorientada, sem recordar de nada”. “Não me consegui controlar e bloqueei. A minha mente começou a tentar buscar informações, e não era a questão de ser despedida, era “o que me está a acontecer? Enfermeira há 28 anos… “não sabia o que era verdade e mentira. Só ouvi que tinha de ir falar com a Dra. Sónia.” Recorda com lágrimas pelo rosto, pálido. Uns olhos castanhos, grandes e meigos, ainda sem saber bem como lhe tinha acontecido tal incidente.
Quando regressou ao hospital, alguém lhe perguntou “então enfermeira voltou para o serviço para bater em mais alguém”.
Situação como estas são reais, delicadas e cruzam vários fatores. O Psicólogo do Trabalho com um olhar clínico e competências especificas consegue gerir situações como a descrita. Ao serem mal analisadas, podem ter intervenções e consequências desadequadas com custos intangíveis para a pessoa e para a Organização.
Nos casos mais graves é urgente o afastamento do local de trabalho, o que para muitos não é viável por falta de condições económicas. Só este passo, de aceitação para algumas pessoas é uma dor psicológica “eu nunca pus uma baixa”, uma sensação única de fraqueza, de derrota.
As melhoras são visíveis logo aos primeiros dias de afastamento, acabam por regressar achando que está tudo bem, percebem que não será numa semana que os pensamentos de medos e ansiedade constante vão desaparecer.
O regresso também pode ser um problema. A pessoa pode estar “fortificada”, no entanto se a/as causa/s se mantiver/em, o mesmo posto de trabalho; ritmos alucinados; falta de organização, clareza de objetivos; a existência de uma chefia tóxica ou a falta de bom ambiente entre colegas, facilmente a situação clínica regressa.
O acompanhamento psicológico é essencial para trabalhar pensamentos e crenças, no entanto nada disto funciona se não existirem políticas claras nas organizações face a esta circunstância.
No sector Público da Saúde, numa nova fase de mudança organizacional, parece ainda não se considerar prioridade uma diferente gestão das pessoas. Uma política de gestão de pessoas integrada com a saúde ocupacional.
A Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho desenvolve desde 2000, as campanhas «Locais de Trabalho Seguros e Saudáveis» Em 2009 lança o primeiro, de três relatórios (ESENER) sobre os riscos novos e emergentes para a promoção da saúde e bem-estar. Refere a urgente criação de ações formais e não formais nas empresas para combater o que na altura já era uma preocupação, a Gestão do Stress e a crescente violência nos locais de trabalho. Apontam como fator a pressão do tempo e o lidar com clientes difíceis, sendo que apenas 1/3 das empresas ofereciam estratégias para lidar com os fatores de risco psicossociais, existindo diferenças entre países.
Em 2012, é realizada uma campanha nacional sobre a Gestão de Stress e começam as formações de sensibilização. Em 2016 é o mote para o Dia mundial da Segurança e Saúde no trabalho pela Autoridade para as condições no trabalho (ACT).
Em 2017, o termo Burnout chega a mais profissões, segundo um estudo da Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (Deco), os profissionais em maior risco de desenvolver crises de ‘burnout’ são os empregados de lojas e supermercados (43%), profissionais de saúde (não médicos, 39%) e quem trabalha em serviços administrativos (37%) ou em profissões ligadas ao ensino (28%).
Em 2018 os media alertam para a existência de desmoralização afetiva face ao trabalho, um Inquérito a 5000 trabalhadores portugueses mostra que o risco de esgotamento aumentou, que a exposição ao stress é maior e que mais de 87% não se sentem recompensados.
O ESENER de 2019, acrescenta que alguns países consideram este tipo de riscos difíceis de gerir e começam empenhados em enfrentá-los. A existência de políticas claras e transparentes parece ser um caminho essencial para lidar com este flagelo. A novidade é a nova secção sobre o impacto da digitalização na segurança e na saúde dos trabalhadores.
No decorrer da Pandemia centenas de estudos foram realizados e alertaram para este flagelo com urgência de implementar estratégias organizacionais.
Em maio de 2023 a Organização Mundial de Saúde (OMS) coloca o Burnout, no ICD-10 como um fenómeno ocupacional.
O Burnout é um problema organizacional que exige medidas organizacionais para além das individuais. Um problema de todos, como uma pedra num charco, que propaga as suas ondas.
Esta retrospetiva possibilita um olhar de uma linha no tempo, a complexidade e severidade deste assunto, uma tomada de consciência. A Pandemia possibilitou, através da emergência de novas formas de trabalho, novas tecnologias e pela falta de limites laborais um aumento destes casos e a existência de ambientes tóxicos laborais.
Atualmente ainda é difícil trabalhar esta questão no mundo do trabalho, estando por vezes floreada com ações de bem-estar que colocam pensos rápidos em feridas profundas.
Há 40 anos, uma enfermeira dedicava exclusivamente a sua vida ao trabalho, hoje as novas gerações são mães, querem amamentar, partilhar tempo com a família. Esta realidade e outras alteram por completo a gestão dos recursos humanos sobrecarregando aqueles que cuja prioridade ainda pode ser o trabalho.
Os olhares de desprezo de alguns colegas face aos novos paradigmas deste novo mundo, a incompreensão e incapacidade de lidar com estas diferenças pelas lideranças ainda é uma realidade em muitos sectores.
A emergência de fatores de risco psicossociais à velocidade do mundo digital onde parece não haver limites no tempo e no espaço, conduzirá esta nova realidade para um problema de Saúde Pública. Ao fornecer toda a informação à inteligência artificial (IA), desenvolverá a consciência que nos falta a nós humanos para evitar o Burnout?
Parece urgente novas estratégias, como recrutar novos elementos nas equipas com competências relacionais, de gestão de novas equipas neste novo mundo. Treinar as lideranças, pessoas, que beneficiam urgentemente de ajuda perante a complexidade e rapidez de processos, validação nas tomadas de decisão, por vezes com grandes exigências emocionais e cognitivas. Uma figura nas equipas com capacidade de mediação de conflitos e de desbloquear caminhos.
A figura do Psicólogo do Trabalho, consultor de lideranças, promove a comunicação eficaz entre trabalhadores e contribui para um novo paradigma na promoção de uma mudança na cultura organizacional face ao erro, à critica e ao julgamento.
Bom artigo com as lacunas devidas, o que só revela que muito ainda deve ser dito sobre a real realidade do que leva alguem a Burnout independetementevda classe proofissional por opcçao escolhida ou obrigada a exercer…sao estorias do dia a dia de muitos que levam com as pedras de outros onde esses teem medo de ir…
Á Dra Sónia Pinote pelo seu Extraordinário Trabalho no âmbito da Saúde no trabalho, deixo um Muito Obrigada, porque é de Louvar todo o seu Empenho, Motivação e Resiliência. Ser Pessoa num mundo em constante mudança é dispôr dos 3 S’s: Saber Ser, Saber Estar e Saber Fazer. Parabéns!
É preciso, pelo menos, a arte de um Columbano para fazer um retrato com esta qualidade.
Muito obrigado pelo seu trabalho Dra Sónia
Plenamente de acordo necessitamos dum psicólogo no trabalho que muitas vezes vamos exaustão com os trabalhos sem condições e repletos de gente …