Autor: Sónia Pedroso Gonçalves
Professora Auxiliar do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, Universidade de Lisboa (ISCSP-ULisboa).
O vício do trabalho, também conhecido como workaholism, é uma preocupação crescente. É caracterizada por uma necessidade excessiva e compulsiva de trabalhar, muitas vezes em detrimento dos relacionamentos pessoais, da saúde física e do bem-estar geral.
A atual aceleração e exigência da Sociedade tem vindo a acentuar esta luta silenciosa com danos nefastos a múltiplos níveis. Longas horas de trabalho e uma cultura que glorifica a ocupação podem contribuir para o desenvolvimento e a perpetuação do vício do trabalho. Isso pode criar um ciclo em que os indivíduos se sentem pressionados a trabalhar excessivamente para atender às expectativas sociais e pessoais.
Uma das características-chave do vício do trabalho é a dificuldade em estabelecer limites entre trabalho e vida pessoal. Os workaholics têm um impulso incansável para serem produtivos constantemente, levando-os a passar longas horas no trabalho e a sacrificar o tempo de lazer.
Essa obsessão pelo trabalho pode resultar em stress crónico e burnout, afetando sua saúde física, mental e social. Pode resultar ainda, no negligenciar da família e amigos, o que poderá levar a relacionamentos tensos, sentimentos de isolamento e desconexão emocional, que em nada são benefícios.
Além disso, a procura incessante por objetivos relacionados ao trabalho pode levar a negligenciar o próprio autocuidado. Contudo, o impacto do vício do trabalho vai além do indivíduo. Também pode afetar o ambiente de trabalho e a produtividade. Embora os workaholics possam parecer altamente dedicados e produtivos a curto prazo, as consequências a longo prazo podem ser prejudiciais.
A exaustão e a diminuição da criatividade podem surgir do excesso de trabalho crónico, resultando numa diminuição no desempenho geral e na qualidade do trabalho.
Reconhecer e lidar com o vício do trabalho é crucial para o bem-estar dos indivíduos e das organizações para as quais trabalham. Importa uma ação urgente e conjunta. Todavia, esta requer previamente o conhecimento do fenómeno. É neste sentido que está a decorrer um projeto internacional que envolve mais de 60 países, nos seis continentes, com a coordenação na Polónia. Em Portugal o estudo conta com a participação do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa.
Desenvolver um equilíbrio saudável entre trabalho e vida pessoal é essencial, pois permite dedicar tempo aos relacionamentos pessoais, ao autocuidado e às atividades de lazer. Estabelecer limites e aprender a priorizar o autocuidado podem ajudar a quebrar o ciclo do vício do trabalho. Procurar apoio de psicólogos poderá constituir-se um recurso importante.
Os empregadores também desempenham um papel vital no combate ao vício do trabalho, através da promoção uma cultura de trabalho saudável, incentivando o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, enfatizando a importância do descanso e do lazer e desencorajando horas extras excessivas.
Estabelecer expectativas claras e objetivos de trabalho realistas pode ajudar a evitar que os trabalhadores caiam na armadilha do vício do trabalho. Os empregadores têm um papel na construção de ambientes de trabalho mais saudáveis. Já a Direção Geral da Saúde (2021) reforça esta premissa ao referir «O local de trabalho é um contexto “privilegiado de ação” para a realização de ações e programas de “Promoção da Saúde Mental (…) e um ambiente ideal para criar uma cultura de saúde “individual” e “organizacional”» (p. 75).
Em conclusão, o vício do trabalho é um problema significativo que pode ter consequências graves para os indivíduos e para a organização. Reconhecer os sinais do vício do trabalho, estabelecer limites e priorizar o autocuidado são etapas essenciais para se libertar de sua influência.
Ao fomentar uma cultura de trabalho mais saudável e promover o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, podemos criar ambientes onde os indivíduos possam prosperar tanto pessoal quanto profissionalmente, levando a um maior bem-estar e satisfação em todos os aspectos da vida.
Leituras recomendadas:
Killinger, B. (1992). Workaholics: The respectable addicts. Touchstone.
Loehr, J., & Schwartz, T. (2003). The power of full engagement: Managing energy, not time, is the key to high performance and personal renewal. Free Press.
Robinson, B. E. (2007). Chained to the desk: A guidebook for workaholics, their partners, and children, and the clinicians who treat them. New York University Press.