Quem chega aos 65 anos em Portugal tem, em média, mais duas décadas de vida pela frente, mas, enquanto a longevidade aumenta e a idade da reforma continua a subir, menos de 10% da população empregada está abrangida por um plano complementar de pensões. A WTW alerta para a necessidade de as empresas assumirem um papel mais ativo na preparação financeira dos trabalhadores para a reforma, numa altura em que as pensões públicas poderão representar uma parcela cada vez menor do último salário.
Em Portugal, a esperança de vida aos 65 anos é de 21,5 anos para as mulheres e de 18,4 anos para os homens, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, citados pela WTW. Na prática, a reforma pode prolongar-se por um período equivalente a metade de uma carreira contributiva de 40 anos.
O desafio torna-se mais complexo à medida que a população ativa envelhece. Atualmente, 51,4% dos trabalhadores portugueses têm 45 ou mais anos e quase um em cada quatro já ultrapassou os 55. Entre 2015 e 2025, o número de profissionais com idades entre os 55 e os 64 anos aumentou 68%. Ao mesmo tempo, a idade legal de acesso à pensão de velhice continua a acompanhar a evolução da esperança de vida, estando fixada nos 66 anos e 11 meses para 2027.
Foi neste contexto que a WTW promoveu um webinar dedicado à longevidade e à reforma, reunindo especialistas e representantes empresariais para discutir o papel das organizações na preparação financeira dos colaboradores. Jorge Bravo, Professor associado da NOVA IMS e da Université Paris-Dauphine PSL, apresentou projeções que apontam para uma redução da taxa de substituição bruta das pensões públicas. Para um trabalhador com salário médio e 40 anos de contribuições, este indicador poderá passar de 68,3% em 2025 para 58% em 2065.
A taxa de substituição traduz a relação entre o valor da pensão e o rendimento anterior à reforma. A diminuição projetada significa que os futuros pensionistas poderão ter de assegurar, através de outras fontes, uma parcela maior do rendimento necessário para manter o nível de vida. Contudo, segundo os dados apresentados na sessão, menos de 10% da população empregada está atualmente abrangida por um plano complementar de pensões, seja profissional ou individual.
Para Jorge Bravo, a preparação financeira deve começar durante a vida ativa e envolver trabalhadores, empregadores e Estado. “A preparação para a reforma tem de ser um trabalho partilhado entre o trabalhador, o empregador e o Estado. Os planos de pensões profissionais de adesão automática são a melhor solução para uma população com pouca literacia financeira e pouca capacidade de poupar a longo prazo: ninguém é obrigado a poupar, mas todos são incentivados a fazê-lo”, defendeu.
O especialista destacou os modelos de adesão automática, nos quais os trabalhadores elegíveis são inscritos num plano de pensões, mantendo a possibilidade de desistir. Estes mecanismos podem ser complementados por contribuições das empresas e incentivos fiscais. No Reino Unido, por exemplo, a introdução da adesão automática fez aumentar a participação dos trabalhadores elegíveis de 42% para 86% em menos de uma década, segundo os dados apresentados pela WTW.
Jorge Bravo defendeu ainda a possibilidade de criar um regime de reforma parcial flexível, permitindo uma transição gradual entre a atividade profissional e a aposentação, em alternativa à separação rígida entre estar empregado e estar reformado.
As empresas oferecem planos de pensões. Mas serão suficientes?
Os planos de pensões já integram a política de benefícios de algumas grandes empresas portuguesas. Segundo a WTW, três em cada quatro empresas cotadas no PSI disponibilizam este benefício aos colaboradores. Ainda assim, existe uma diferença entre a importância atribuída ao tema e a confiança nos resultados dos planos existentes. Embora 77% dos empregadores deem prioridade à melhoria das condições financeiras dos trabalhadores na reforma, apenas 41% consideram que o plano atualmente disponibilizado permitirá alcançar resultados adequados.
A consultora sustenta que a participação dos colaboradores depende, em grande medida, da estrutura dos planos e dos incentivos associados. Nos modelos com contribuições adicionais do empregador, a adesão pode atingir entre 75% e 90%, de acordo com os cenários apresentados pela WTW.
A experiência da Galp foi um dos exemplos discutidos no webinar. A empresa disponibiliza um plano de pensões com três perfis de investimento e acompanhamento dos colaboradores, além de outros benefícios financeiros.
Segundo David Canudo, Finance Director da Galp, cerca de 70% dos colaboradores participam ativamente no fundo de pensões através de contribuições voluntárias. Apesar da adesão, a empresa pretende reforçar a comunicação e desenvolver um programa de literacia financeira para ajudar os trabalhadores a compreender melhor as opções disponíveis. “As empresas não controlam as decisões de investimento dos colaboradores, mas podem criar as oportunidades e as condições certas. Uma comunicação clara e frequente pode fazer toda a diferença, mas não basta comunicar: é preciso que os colaboradores compreendam o valor destes benefícios“, afirmou.
Para além da criação de planos complementares, a WTW defende que as empresas devem disponibilizar informação clara, simulações sobre o rendimento esperado na reforma e acompanhamento ao longo da carreira.
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