Num mercado laboral em transformação, o salário deixa de ser o único critério de avaliação da relação entre trabalhadores e empresas. É esta a principal conclusão do relatório “O Estado da Compensação em Portugal 2026”, divulgado pela Coverflex e baseado numa amostra de 804 trabalhadores.
“O trabalho continua a desempenhar um papel central na estabilidade, identidade e realização pessoal”, pode ler-se no estudo. Mas “falar de compensação já não é apenas falar de salário. É falar de qualidade de vida, de perceção de justiça, de segurança financeira e de equilíbrio entre a esfera pessoal e a esfera profissional”.
Um país de rendimentos intermédios
Em Portugal, os salários continuam estruturalmente abaixo da média europeia e a maioria dos trabalhadores concentra-se em escalões intermédios. Cerca de 41,2% dos inquiridos diz receber entre mil e 1499 euros líquidos mensais, enquanto 25,2% se situa entre os 1500 e os 2499 euros.
Não surpreende, por isso, que o salário continue a gerar tensão. Quase metade dos participantes (48%) afirma estar insatisfeita com o salário líquido que recebe. Apenas 25,4% se mostra satisfeita, enquanto 26,6% assume uma posição neutra. A avaliação do nível salarial geral revela um cenário semelhante: 47,7% dizem estar insatisfeitos e apenas 24,5% afirmam estar satisfeitos.
Quando a compensação vai além do salário
Ainda assim, os resultados indicam que a satisfação profissional é influenciada por um conjunto de fatores
mais vasto do que o salário. A perceção global da compensação (que engloba benefícios, reconhecimento e flexibilidade) revela ter um impacto significativo no bem-estar e na motivação.
“Mais do que o valor do salário em si, destaca-se a relevância da perceção de justiça, adequação e reconhecimento”, refere a análise, acrescentando que “pacotes de benefícios mais completos e bem estruturados estão associados a maior bem-estar, maior satisfação com o trabalho e uma maior vontade de permanecer na organização”.
Os níveis de satisfação com a compensação continuam baixos: 52,6% dos trabalhadores dizem estar insatisfeitos com o pacote que recebem. Os dados mostram, contudo, que os benefícios fazem diferença. Sem qualquer benefício adicional, a satisfação média com a compensação fica nos 3,78 pontos numa escala de zero a 10. Com apenas subsídio de refeição sobe para 4,98 e, entre quem recebe vários benefícios, atinge 6,45 pontos.
Seguro de saúde afirma-se como benefício-chave
Apesar destes resultados, os benefícios continuam longe de ser universais no mercado de trabalho português. Cerca de 64,1% dos trabalhadores afirmam receber algum tipo de benefício extra-salarial, mas 35,9% dizem não ter qualquer benefício além do salário base.
O subsídio de alimentação destaca-se entre os benefícios mais comuns. Dados do estudo mostram que 56,7% dos trabalhadores recebem este apoio, embora apenas 31,3% o recebam em cartão refeição. Quanto ao valor diário, 41,4% situam-se entre seis e 10,20 euros.
O seguro de saúde surge como outro pilar importante na perceção de valor da compensação. Cerca de metade dos trabalhadores têm acesso a este benefício e, entre estes, 77,4% têm o seguro totalmente pago pela empresa. Ainda assim, 60% dos trabalhadores não dispõem de seguro de saúde oferecido pela organização, o que faz com que seja amplamente valorizado por 73% dos trabalhadores, que consideram este benefício um elemento importante no pacote de compensação.
Flexibilidade torna-se fator decisivo
O relatório aponta também para uma mudança nas expectativas em relação ao modelo de trabalho. Apesar da
crescente discussão em torno do trabalho remoto, o regime presencial continua a dominar. Somente um em cada quatro trabalhadores afirma trabalhar em regime remoto ou híbrido.
Mesmo assim, a flexibilidade ganhou peso. Cerca de 67% dos trabalhadores dizem que a flexibilidade horária ou geográfica é determinante para a sua satisfação profissional.
A relação entre compensação e bem-estar torna-se particularmente evidente quando se analisam os níveis de
satisfação com a vida. Entre os trabalhadores insatisfeitos com a compensação, a avaliação média fica nos 6,2 pontos numa escala de zero a 10. Entre os satisfeitos, sobe para 8,3.
O mesmo contraste surge no bem-estar financeiro. Numa escala de zero a 100, os trabalhadores insatisfeitos registam 43,9 pontos. Entre os satisfeitos, o indicador dispara para 68,9.
O novo desafio para os RH Para os responsáveis de recursos humanos, o estudo deixa uma mensagem clara. “Desenhar e comunicar bem o pacote de compensação é um dos caminhos para melhorar a satisfação com o
trabalho dos colaboradores”, conclui o relatório, sublinhando que trabalhadores satisfeitos “reportam muito menos vontade de procurar outro emprego”.
Num mercado cada vez mais competitivo na atração e retenção de talento, as práticas de compensação estão também a evoluir. O estudo aponta para uma crescente aposta em modelos mais flexíveis e personalizados. “A evolução das práticas de compensação passa por complementar o salário com abordagens mais transparentes, justas e personalizáveis.”
A compensação assume-se, assim, como um instrumento estratégico. À medida que as expectativas dos trabalhadores evoluem, o desafio para as organizações já não passa apenas por quanto pagam, mas também por como reconhecem e valorizam as pessoas.
Veja o estudo completo aqui!
Nível de satisfação com pacote de compensação com…
3.78: nenhum benefício | 4.98: subsídio de refeição | 6.45: vários benefícios
Nível de satisfação (numa escala de zero a 10) por tipo de pacote de benefícios
Satisfação com o pacote de compensação
- 52.6%: insatisfeito
- 27.1%: nem satisfeito nem insatisfeito
- 20.3%: satisfeito
Artigo publicado na edição 163 da RHmagazine, referente aos meses de março e abril de 2026
Aproveite e leia já as últimas edições da RHmagazine AQUI