No ano de 2024, assistimos a uma espécie de “oficialização” da mentira como processo de informação; no início do ano de 2025, estamos a assistir a uma assunção do insulto e da manipulação descarada como forma supostamente legítima de exercício do poder. Serão estes bons augúrios para o que nos espera no próximo futuro?
Quando teorizávamos, ou “deambulávamos”, pelas características dos mundos “VUCA” e, mais tarde, “BANI” e as suas respetivas consequências nos ordenamentos das forças sociais e, mais especificamente, no mundo do trabalho e das organizações, talvez não tivéssemos ainda a vívida perceção do que realmente iria acontecer e até que ponto a “Fragilidade” e a “Incompreensibilidade” das realidades sociais nos iriam surpreender e, porventura, atemorizar.
Mas hoje, e com os acontecimentos que se avizinham no horizonte próximo, designadamente com a ascensão ao poder de personalidades como Donald Trump e Elon Musk, que querem fazer uma espécie de confraria com o “amigo” Putin e com todas as forças mais radicais de extrema-direita, por esse mundo fora, parece estarmos a entrar, de facto e de forma definitiva, naquilo que tem vindo a ser designado como uma “nova era”.
Mas o que marca esta “nova era”, e que a diferencia de outras eras anteriores, é o facto de assistirmos a uma possível derrocada de valores fundamentais básicos que acreditávamos terem, apesar de tudo, alguma estabilidade ao longo do devir histórico, com particular incidência nas décadas do pós-guerra do séc. XX: em concreto, o respeito básico pelas instituições que, embora de forma sempre imperfeita, constituem os pilares de uma sociedade livre e democrática e um sentido elementar, básico, embora essencial, de decência.
As tentativas de Elon Musk para, através do seu poderio financeiro e do domínio quase absoluto das redes sociais, influenciar diretamente as decisões políticas de países com sólidas estruturas democráticas configura uma forma intolerável de manipulação e ingerência nos assuntos internos de países soberanos e representa uma forma de legitimação do insulto enquanto instrumento de expressão de poder, feito por uma pessoa cujas decisões vão ter, em parceria com Donald Trump, um impacto enorme a nível mundial.
As tentativas de Elon Musk para (…) influenciar diretamente as decisões políticas de países com sólidas estruturas democráticas configura uma forma intolerável de manipulação
E como, conforme refere uma expressão popular, “ou há moral, ou comem todos”, atribuída à “filosofia de um sapateiro de Braga”, que representa o princípio da igualdade, a ausência de favoritismo e o predomínio da moral coletiva sobre os valores individuais, se os princípios elementares da moral forem grosseiramente violados por líderes cujas práticas representam a associação viciosa entre poder e ausência de escrúpulos, as consequências serão obviamente nefastas para os “todos” da frase, ou seja, para cada um de nós.
Se “o valor do exemplo” constitui um dos principais alicerces do ascendente de um líder, é possível que estes exemplos de lideranças que pervertem os valores mais elementares do respeito pela dignidade humana possam vir a constituir um poderoso fator de influência para populações alargadas de cidadãos, potenciada essa influência pelo domínio de redes sociais que se encarregam de servir como “caixas de ressonância” a um nível quase cósmico dos interesses “claramente confessáveis” daqueles que as comandam.
Mas nem tudo são más notícias, neste cenário de crise. No início deste que é o “primeiro ano do resto das nossas vidas”, é possível que a indecência e a falta de ética que se estão progressivamente a instalar em vários domínios da sociedade possam também vir a gerar outros efeitos que consigam “escapar” à influência dos múltiplos agentes instigadores dessas práticas negativas.
É possível que a indecência e a falta de ética que se estão progressivamente a instalar em vários domínios da sociedade possam também vir a gerar outros efeitos que consigam “escapar” à influência dos múltiplos agentes instigadores dessas práticas negativas.
E, muito embora a influência tóxica de certas redes sociais possa atingir um número cada vez maior de utilizadores, haverá, também, muitos outros que, procurando ter uma leitura mais atenta e crítica das informações e circunstâncias ambientais, saberão desenvolver a capacidade de síntese e de discernimento para distinguirem o que é “bom” do que é “mau” e o que é potenciador de progresso e de desenvolvimento, daquilo que são princípios e práticas que nos arrastam para a obscuridade e para o retrocesso civilizacional.
Embora, como refere Yuval Harari, a informação não represente a verdade e ter mais informação não signifique necessariamente ter uma representação mais completa da realidade, o que é facto é que o mundo atual oferece aos cidadãos em geral um manancial quase inesgotável de informação e, com ele, possibilidades de progresso, tanto em termos coletivos, como individuais, que melhor permita a cada pessoa estruturar mais conscientemente o seu pensamento, para conseguir alcançar o melhor de si próprio.
Como as “grandes narrativas” históricas, filosóficas e ideológicas, já não têm o poder que tiveram para se constituírem como suporte das identidades individuais, é ao cidadão concreto que compete construir a sua “narrativa” pessoal, com base nos princípios e valores que escolher, a partir da sua vontade e da sua determinação pessoal.
Porque, apesar de alguns autores modernos estarem atualmente a reinventar teorias que sustentam a sobredeterminação de fatores genéticos na história de vida de cada pessoa, será sempre a sua coragem moral e a clareza de propósitos que, em última análise, a fará prevalecer.
Por isso, e sendo este o primeiro texto que publico este ano, os meus votos vão no sentido de desejar que cada um de vós, que cada um de nós, tenha a capacidade de, em cada espaço, em cada momento, conseguir sempre alcançar aquilo que cada um escolher como sendo o melhor de e para si próprio, dentro de um quadro de valores que defenda sempre e intransigentemente a inalienável condição da dignidade humana.
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