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Crónica. “A hipermercantilização da mente”, por Mário Ceitil

Entre notificações, e-mails e estímulos constantes, o foco tornou-se um ativo raro. E as organizações começam a pagar o preço dessa distração permanente, como alerta Mário Ceitil, Presidente da Mesa da Assembleia Geral da APG.

IIRH Por IIRH
28 de Abril, 2026
em CRÓNICA, DESTAQUES
0
Crónica: 2025 – O Ano de Todos os Perigos – por Mário Ceitil, Assembleia Geral da APG
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Num excelente texto, intitulado “O Negócio da Atenção”, publicado no Jornal Expresso/Revista, de 27 de março, os autores (1), assinalando que “num mundo saturado de informação, a atenção tornou-se um bem escasso e, por isso, muito valioso”, alertam para o facto de que, nas plataformas digitais, o que sustenta o modelo de negócio “é o tempo de permanência, convertido em receita publicitária altamente dirigida (…) o que transforma a atenção humana numa mercadoria” (2).

Como, e ainda citando os autores, “o mecanismo da atenção está intimamente ligado ao sistema de recompensa, um conjunto de circuitos neuronais que nos permite sentir prazer e motivação”, as plataformas digitais procuram, a todo o custo, criar acontecimentos, mensagens, e-mails, notificações, etcétera, a um ritmo constante e acelerado, de modo a conseguir captar essa “mercadoria” preciosa que é a atenção das pessoas.

No entanto, esta verdadeira e vertiginosa “montagem de atrações”, para usar uma “velha” expressão do grande cineasta Eisenstein, enquanto prende a atenção das pessoas e lhes fornece quantidades de informação inimagináveis há décadas atrás, tem também o seu “reverso da medalha”, designadamente no risco de viciar os utilizadores em manterem-se permanentemente conectados, consumindo produtos cognitivos muitas vezes de muita fraca qualidade e frequentemente veiculando imagens distorcidas e/ou intencionalmente falsas da realidade.

O poder dessas plataformas e redes sociais é de tal ordem que “muitas pessoas sentem mesmo ansiedade quando, por alguma razão, estão afastadas dos aparelhos”, tendo “a sensação de que podem estar a perder alguma coisa ou a ignorar alguma mensagem que poderia ser importante” (3).

Esta situação de estarmos expostos permanentemente a uma sobrecarga de estímulos, é, como refere Miguel Coutinho, especialista em neuropsicologia, citado no já referido artigo, “um modo de funcionamento que encaixa pouco neste “sapato” que é o cérebro” (4). A consequência é que “a capacidade de manter a atenção diminui e a informação é processada de uma forma mais superficial, o que prejudica o raciocínio, o pensamento crítico e a capacidade de resolver problemas”. O resultado previsível é o de que “a qualidade do desempenho baixa, cometemos mais erros e precisamos de mais tempo para fazer uma tarefa” (5).

Ora, numa altura em que, para as organizações, a questão da captação e retenção de talentos continua a estar na ordem do dia e em que se alega que o “mercado de talentos” apresenta um cenário de acentuada escassez, talvez valha a pena os líderes dessas organizações olharem com mais seriedade e proatividade para os sucessivos e crescente avisos de especialistas, vindos, sobretudo das ciências sociais, mas também da medicina e das neurociências, que, justamente, nos alertam para a grande criticidade dos riscos de alguns processos tecnológicos demasiado acelerados e que descurem aspetos fundamentais do desenvolvimento humano.

Em concreto, e se as consequências de uma exposição demasiado prolongada e muitas vezes acrítica às plataformas digitais e redes sociais, tender a, como já foi mencionado atrás, fazer baixar a qualidade do desempenho e a ter impactos na “diminuição do vocabulário, no declínio da capacidade de orientação espacial e no enfraquecimento do raciocínio crítico “ (6) e se, como é manifesto, a vida nas empresas, e nas relações humanas em geral, é cada vez mais condicionada pelas ferramentas digitais, compete então aos responsáveis e líderes criarem as condições para gerar, nas suas organizações, iniciativas que permitam constituir-se como uma espécie de “antídotos” contra as tendência de desumanização que possam seduzir os líderes com menor “raciocínio crítico”, ou, então, mais incautos em relação aos possíveis “malefícios” de uma má utilização da tecnologia.

Se queremos construir empresas de maior eficácia, que sejam realmente capazes de enfrentar, com sucesso, a “prova do futuro”, é imperativo que, tanto nas organizações, como na vida quotidiana, sejamos capazes de contrariar esse “fenómeno de degradação cognitiva” (7) que se insinua perigosamente por toda a sociedade.
No entanto, e numa visão meramente empírica, observamos uma tendência preocupantemente crescente de uma má utilização dos recursos tecnológicos que, a pretexto de serem ferramentas indispensáveis para uma melhoria da produtividade, acabam por descambar em processos de conduzem a um desgaste emocional dos colaboradores e, por extensão, a uma erosão dos talentos.

Refiro-me em concreto, e a título de exemplo, a empresas onde se regista um verdadeiro abuso da exposição forçada à tecnologia, sob a forma de “saraivadas” de mails, em muitos casos até “fora de horas”, e com acentuada pressão nos tempos exigidos de resposta, o que, naturalmente, dificulta a atenção e, nas situações mais críticas, começa a gerar indícios de exaustão emocional.

Dir-se-á, a título de justificação, que tal acontece por motivos inerentes à própria dinâmica da atividade profissional, que é cada vez mais frenética e que obedece em tudo, tanto em mercadorias como em processos, a imperativos relacionados com ciclos de vida cada vez mais curtos, inconstantes e imprevisíveis. E se é verdade que tendemos para um mundo onde o caos e, muitas vezes, o incompreensível, se vão constituindo como elementos omnipresentes da nossa paisagem sócio-organizcional, por maioria de razão se torna imperativo termos, à frente dos destinos das empresas e organizações, líderes que saibam contrariar essa possível deriva que consiste em manter os colaboradores numa situação de “contínua atenção parcial” (8) que leva a “uma desfocagem mental induzida por uma sobrecarga de dados de informação” (9).

Este é um tema que interessa ao talento; e este é um assunto relevante para a produtividade. Porque, como assinala Goleman, o “foco é o motor oculto da excelência” e “aqueles que melhor se focam são relativamente imunes à turbulência emocional” (10).

Por isso, a capacidade de sabermos selecionar quais dos estímulos do ambiente que melhor se alinham com os nossos propósitos mais profundos e de nos mantermos focados no meio do tumulto, são competências essenciais para o nosso tempo. É que, e a partir de uma colagem livre de uma velha expressão em inglês, “When the things get tough, the… focused get going”.

Referências
  1. Helena Bento & Joana Pereira Bastos, “O Negócio da Atenção”, Jornal Expresso/Revista, 27 de março 2026.
  2. Idem
  3. Idem
  4. Idem
  5. Idem
  6. Idem
  7. Idem
  8. Golemn, D. (2013). Foco – O Motor Oculto da Excelência. Lisboa: Temas e Debates – Círculo de Leitores.
  9. Idem
  10. Idem

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