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Autor: Mário Ceitil, Presidente da APG
A realidade apelidada de BANI (Brundle, Anxious, Non Linear, Incomprehensible), ou, para aqueles a quem os acrónimos de origem anglo-saxónica ainda provocam alguma “urticária mental”, FANI (Frágil, Ansiosa, Não Linear, Incompreensível) atravessa cada vez mais, quer queiramos, quer não, o nosso quotidiano, obrigando-nos a um confronto, por vezes bastante incómodo, com os nossos hábitos arreigados, os nossos costumes ritualizados e as crenças que constituem um poderoso alicerce da nossa identidade como pessoas.
Se bem que este confronto possa ser, digamos, mais sofrido pelas gerações dos “baby boomers” e alguns dos mais indefetíveis da geração X, ele atravessa todo o tecido social, provocando uma síndrome cada vez mais generalizada daquilo que os pós-modernistas designam por “insegurança ontológica”, ou não fora esta realidade apostrofada precisamente como “Ansiosa” e “Incompreensível”, dois ingredientes seguros para gerar…insegurança.
Segundo alguns, é nesta insegurança generalizada, provocada pela progressiva e continuada erosão dos valores mais tradicionais que podemos encontrar uma hipótese de explicação do ressurgimento, a uma escala preocupante, de ideologias totalitárias, mascaradas com os arroubos frenéticos de um populismo que anuncia o retorno das “grandes narrativas” como um bálsamo que dá às pessoas o conforto ilusório de terem uma “bengala” cognitiva e emocional a que se agarrarem.
Se assim é na sociedade em geral, também se passa algo de semelhante nas nossas organizações, com as devidas distâncias bem entendido, onde um quadro ansioso pinta os quotidianos de milhares de pessoas que têm cada vez mais dificuldade em encontrar eixos sólidos de identificação que lhes permitam encarar o futuro com maior confiança e acreditar que, como na famosa canção da Marisa, “o melhor de mim está para chegar”.
Perante este quadro ansioso, agora novamente agravado pelo recrudescimento da pandemia, muitos líderes vão experimentando sérias dificuldades para alcançar os resultados requeridos por organizações cada vez mais exigentes, sendo tentados, por desespero de causa, a adotarem eles próprios atitudes com laivos de uma autocracia que já julgávamos “em vias de extinção” nos nossos ecossistemas empresariais.
Este tipo de atitudes, embora psicologicamente compreensíveis num contexto em que forças muitas vezes paradoxais concorrem para criar realidades “Não Lineares”, acabam geralmente por ter o efeito contrário ao pretendido: em vez de constituírem um incentivo para que os colaboradores possam supostamente ser mais “produtivos”, geram processos de resposta ou abertamente agressivos ou passivamente reativos que minam a motivação e desgastam, no mínimo, as suas capacidades de ação.
Líderes empresariais também os há com “tiques” de autoritarismo e com discursos de tal modo apologéticos que prenunciam um futuro que, por ser tão magnificamente promissor, acaba por gerar um efeito de descrença em colaboradores desalentados à mingua de evidências.
Mas se ainda há realidades assim, é importante afirmar que…não tem de ser assim. No muito de positivo que esta era nos traz, há seguramente a convicção inabalável de que há sempre a possibilidade de gerar alternativas.
No contexto profissional, que atravessa uma profunda transformação nas próprias conceções sobre o trabalho, que tende cada vez mais a deixar de ser apenas aquela coisa que serve para “pagar as contas” para se tornar algo de essencial para a construção da nossa identidade como cidadãos, é realmente imperativo que as novas gerações de líderes, e os “antigos” que ainda por cá andam, assumam uma missão que vai muito para além da mera preocupação com os resultados imediatos das suas equipas e dos seus colaboradores: a de serem líderes geradores de novos líderes. E esta meta não pode ser concretizada com atitudes autocráticas e centralizadores que, muito embora possam resultar das pressões exercidas pelos líderes dos líderes para se alcançarem resultados cada vez mais ambiciosos, não são minimamente compagináveis com a missão mais nobre de criar um efeito multiplicador que “ensombre”, mas positivamente, os colaboradores para neles fazer despertar novos ímpetos para alcançar a grandeza pessoal.
Todos os seres humanos precisam de acreditar em algo que para eles faça sentido. Por isso, e em contextos sociais e organizacionais cada vez mais desestruturados e desestruturantes, precisamos de líderes com um profundo sentido do humano, com uma postura ética que respeite as pessoas, que as mobilize para um propósito claro e inspirador e lhes permita construir as “canas” com que vão futuramente “pescar”.
Líderes em suma que saibam estar verdadeiramente à altura das suas novas missões, porque, afinal, e como está inscrito numa estação do metro de Lisboa, a “ética é estar à altura do que nos acontece”.