Esta é uma crónica sobre pistas de reflexão… se tivesse a solução estaria a escrever um livro que me faria enriquecer! As empresas vivem o dilema da performance x sustentabilidade. E as pessoas o dilema do sucesso x equilíbrio. Equações muito desafiantes.
O contexto já conhecemos: mundo VUCA (volatility, uncertainty, complexity, ambiguity) – volátil, incerto, complexo e ambíguo, que mais recentemente passou a BANI (brittle, anxious, non-linear, incomprehensible) – frágil, ansioso, não linear e incompreensível. Desaguando no maior problema de saúde do século XXI – a saúde mental – e todas as suas implicações na vida das pessoas e das empresas.
O lado das pessoas
As pessoas vivem inundadas em informação e desinformação, pressionadas pelas suas próprias exigências … mas também pelas exigências dos outros. Muitas vezes sem clareza sobre o que realmente procuram e com dificuldade em parar para se ouvir a si próprias, a correr entre as obrigações reais e virtuais. A busca da felicidade, que sempre nos moveu, está hoje mais presente que nunca, de uma forma muitas vezes superficial ou irrealista, que merece reflexão.
Numa perspetiva mais prática e realista, as pessoas buscam equilíbrio entre as exigências familiares, laborais, e de realização pessoal. Mas também buscam sucesso. E reconhecimento. Nas várias áreas da vida. Vou-me centrar no trabalho, que ocupa uma centralidade reconhecida na vida humana nas sociedades contemporâneas, interagindo de modo relevante com a construção da identidade e com a perceção de realização de cada um.
A vivência no trabalho depende das exigências da organização, da preparação da pessoa para a função desempenhada, da fase e contexto de vida, e do nível de exigência do próprio colaborador e como ele vê o sucesso.
Ouvi um podcast da Fundação Francisco Manuel dos Santos – INpertinente – sobre perfeccionismo – defeito ou virtude. Uma conversa entre Hugo Van Der Ding e Ana Moniz. Absolutamente revelador. E traz luz para reflexões individuais e das organizações e seus líderes.
O lado das empresas
As empresas vivem num contexto concorrencial mais ou menos marcado, dependendo do sector, sendo a “performance” é a palavra de ordem: a exigência dos resultados, a eficiência (“fazer mais com menos”), agilidade e resiliência tornaram-se a normalidade.
Por outro lado, existe uma maior clareza do papel mais abrangente das empresas, da sustentabilidade não apenas financeira, mas também social e ambiental. É o instinto de sobrevivência a falar, a nível individual e coletivo.
Nesta fase ainda empurrado por uma moldura legal muito exigente, que faz mover a maioria. Mas muitas já se movem por convicção… com uma proposta de valor distintiva que atrai cada vez mais consumidores esclarecidos. E temos o dilema de conciliar estes dois movimentos, de forças diferentes mas não opostas – essa é pelo menos a minha convicção optimista, sempre do lado da solução!
Muitas empresas desdobram-se em ofertas de benefícios aos colaboradores, com planos ambiciosos (e genuínos) de apoio. Muitas investem na capacitação das chefias – o tema da liderança é crítico – a capacidade de cada líder avaliar a situação e a equipa; ser capaz de arbitrar, propor, decidir. Criar um ambiente de segurança psicológica que permita maior transparência e antecipação.
Não existem soluções simples para problemas complexos. Sabemos que nem sempre as pessoas que mais se queixam são as que têm a maior necessidade. Sabemos que as circunstâncias individuais determinam a capacidade disponível. E é difícil ter uma leitura clara e capacidade de agir em todos os níveis da organização.
O que é que já sabemos
Há muita coisa que está estudada e em prática em muitas empresas:
- O modelo híbrido veio para ficar e é facilitador desta busca de equilíbrio por parte das pessoas;
- Colocar apoio disponível para os colaboradores (de forma opcional, gratuita e confidencial) ajuda a que cada um tenha maior clareza e desenvolva competências individuais;
- Estudar os ambientes de trabalho e riscos; investir na capacitação, sobretudo das chefias, para promover a segurança psicológica, a colaboração (que permite que cada um esteja disponível para colocar mais esforço hoje, para que mais tarde possa eu beneficiar do esforço da equipa quando precisar), a construção de equipas mais diversas (que permitem maior complementaridade);
- Criar uma cultura de feedback e comunicação transparente.
Há outras dimensões que precisam de continuar a ser trabalhadas. A legislação laboral completamente desajustada da realidade atual. A inconsistência presente em muitas empresas: um discurso e ações que promovem o bem-estar… que convivem com práticas de exigência e volume de trabalho incompatíveis.
Acredito que a mudança também depende das escolhas que cada um faz para si e a forma como as leva à prática e colabora na co-construção de soluções. E nesta matéria a geração Z – que traz tantos desafios ao status quo das empresas – vai forçar as organizações a repensarem os seus modelos de trabalho. Se embarcarmos nesta viagem com convicção e abertura, certamente seremos organizações mais equilibradas e pessoas mais felizes.