A celebrar 40 anos de existência, o Instituto Piaget tem consolidado o ensino superior, a investigação e as áreas de intervenção nas comunidades onde tem os seus campi, através das suas escolas e institutos.
Em entrevista ao inforh.versionweb.es, António Oliveira Cruz, presidente do Instituto Piaget, fala-nos de uma atividade norteada pelo respeito, pelos valores humanos fundamentais e pela sua inclusão na formação pessoal e intelectual de cada diplomado.
O Instituto Piaget está a comemorar 40 anos. Em que fase da vida se encontra a instituição?
Criámos uma instituição que tem um espaço e um projeto próprios, tendo ido buscar um dos nomes mais fortes da história humana para seu patrono. Jean Piaget nunca tinha dado o seu nome a qualquer tipo de instituição e tivemos de mobilizar várias vontades, entre amigos seus e colaboradores diretos, para que acedesse.
Na altura, muita gente em Genebra, onde Piaget lecionava, se interrogou porque é que o fez, sobretudo vindo o convite de um português. Julgo que aceitou porque sentiu interiormente que éramos capazes de concretizar o nosso projeto. Ele próprio tinha, desde novo, um projeto de ordem social interventivo que ficou por realizar.
Quando me perguntam se o Instituto Piaget já cumpriu a sua missão, eu digo que não.
Neste sentido, e apesar dos 40 anos, estamos ainda numa fase pré-escolar. Somos uma instituição que não depende de partidos, religiões ou qualquer outro tipo de estruturas mais ou menos fechadas. E que mantém como objetivo essencial o desenvolvimento humano integral e ecológico – note que dizemos isto desde sempre, quando ainda pouco se falava de ecologia.
Em resumo, somos uma instituição aberta, atenta à realidade do País, e que tem reajustado permanentemente o seu projeto às necessidades e exigências que surgem quer a nível interno quer externo. Tal como no princípio, continuamos a trabalhar e a lutar pela implementação daquilo a que designo por casa humana.
Quais considera terem sido os grandes marcos do Instituto ao longo destas 4 décadas?
Em primeiro lugar, gostaria de salientar que fomos tremendamente resilientes. Estivemos quase para desaparecer nos primeiros quatro ou cinco anos de vida. Quiseram inferiorizar o nosso projeto, houve tentativas partidárias para tomar conta do Instituto a que nos opusemos tenazmente. Fazíamos coisas que outros não faziam e o Instituto Piaget quando começou foi uma revolução… uma boa revolução.
Em segundo lugar, criámos um sistema novo dentro dos cursos na área da edução e formação de professores que foram aqueles que estiveram na origem da oferta formativa do Instituto Piaget. Criámos aquilo a que chamamos formação em alternância próxima. Isto é, na mesma semana, os nossos formandos tinham a componente teórica na escola e também uma prática direta. No Ministério da Educação chegaram a dizer-nos que assim os formandos iam dar cabo das crianças.
Na parte da estruturação dos planos de estudo também fizemos outra revolução, assumindo o conceito de que um educador é um formador de pessoas concretas e não de entes abstratos. Assim, colocámos logo como disciplina fundamental – que veio a consolidar-se em todos os cursos do Instituto – a Antropossociologia Evolutiva, dando destaque ao trabalho de campo antropológico.
Colocámos igualmente a Epistemologia como cadeira de formação autónoma em todos os cursos, sendo provavelmente dos primeiros na Europa a fazê-lo. Fizemos o mesmo com uma disciplina chamada Epigénese, Desenvolvimento e Ciclos de Vida, de forma a que os alunos ficassem a conhecer melhor a evolução humana. Introduzimos também a Ética em todas as licenciaturas e, mais tarde, uma cadeira denominada Humanidade e o Futuro. Algumas destas inovações tiveram de ser reformuladas com o Processo de Bolonha, mas fizeram parte do ADN do Instituto.
Atingiram também o marco dos 40 mil diplomados. O que diferencia quem se forma no Instituto Piaget?
Há uma diferença de base importante que é a dimensão humana e antropológica como ponto de partida, tanto do educador como dos educandos. O respeito profundo que conseguimos fazer passar aos nossos educadores e professores pela criança e pelo jovem é provavelmente uma das nossas maiores virtudes. Não é fácil, porque a tendência da educação tem sido justamente no sentido contrário, sobretudo nos últimos 20 anos.
Fui um dos defensores do espírito de Bolonha que depois foi deturpado.
A dimensão fundamental é a qualidade, aquilo que não conseguimos nunca quantificar.
Quando estamos a formar alguém, é cada um que se forma, nós damos apenas as condições, os apoios e os questionamentos para que se possam formar. Dizer que um estudante vale um 19 para entrar em Medicina não me diz nada. Também neste campo fizemos uma revolução ao criar um livro de construção da progressão do saber para cada estudante que era o instrumento principal da avaliação – infelizmente, com Bolonha este livro foi desaparecendo. No fim, fazíamos uma transposição daquilo que era qualitativo para uma versão quantitativa porque a isso o sistema nos obrigava.
E o que diferencia o método de ensino do Piaget?
Quando se inclui num curso a disciplina de Antropologia, mesmo sendo na área das engenharias, tem de haver diferenças. Defendemos um humanismo regenerador e estou convencido que fomos capazes de fazer um bom trabalho nesta área, sem nos querermos considerar excelentes. Repito sempre que queremos ser uma boa escola e uma “boa escola” é aquela que funciona bem, que procura fazer melhor, que se modifica e que sabe corrigir e aperfeiçoar.
No Piaget, empenhamo-nos por formar pessoas que venham não só a ser bons profissionais no futuro, mas também ser humanos conscientes, inclusivos, envolvidos com os problemas globais e empenhados na sua resolução. Isto é, pessoas capazes de colocar a sua inteligência à disposição dos valores humanos mais intrínsecos.
Ao nível da oferta formativa, os estabelecimentos de ensino do Instituto Piaget começaram por ministrar cursos na área da educação e formação de professores, mas hoje a oferta é bastante mais abrangente. Contempla outras vertentes, como as áreas da saúde, desporto, gestão ou engenharias.
Ao longo destes 40 anos, o Instituto Piaget tem vindo sistematicamente a aperfeiçoar e desenvolver o seu projeto. Mais do que uma instituição do ensino superior, o Instituto é um projeto educativo, cultural e científico sólido que se dedica à criação de conteúdos e transmissão de conhecimento, com uma forte componente de ação de cariz social, com outras valências complementares, como a edição de livros.
Porquê a aposta do Instituto em criar oferta formativa sobretudo em zonas periféricas aos grandes centros urbanos e no interior?
Eu venho do interior, conheço as suas virtualidades e sempre entendi que o interior merecia ser visto de outra forma. Quando arrancámos fizemo-lo em Lisboa em instalações arrendadas, mas assim que pudemos criar algo de raiz fomos para Almada. Na altura, boa parte daquela região nem sequer tinha escolas. O mesmo aconteceu em Gaia, na zona de Arcozelo, que era também completamente periférica, quase interior.
Fomos para Trás-os-Montes, designadamente Macedo de Cavaleiros e Mirandela, e para Viseu, onde desenvolvemos um dos maiores campus do Instituto. Além de ser um projeto para a cidade e para a região, o polo de Viseu era também um projeto de retaguarda para a futura expansão para África que era um dos objetivos do Instituto desde a sua criação. Mais tarde, fomos para Santo André e Silves.
Apostámos no interior, formámos milhares de educadores e professores, e quando, de repente, veio a crise fomos apanhados em maior força por ela. O Governo apoiou de forma especial os institutos politécnicos do interior pela simples razão de que são públicos. Quando ao Piaget nada se importou que desaparecesse ou não por falta de estudantes. Nós temos uma estrutura cooperativa, sem fins lucrativos, e a Constituição da República tem disposições que se calhar muitos políticos e deputados nunca leram.
A Lei Fundamental refere que as cooperativas têm de ser apoiadas, incentivadas e protegidas – na verdade, são três artigos diferentes. Nunca fomos apoiados nem incentivados de qualquer forma. Esta visão de tudo aquilo que não é público é para acabar é uma visão errada do poder e um absurdo. Qualquer Governo, seja de esquerda, direita ou centro, que não cumpra a Constituição, não está a cumprir a sua missão. Nós fomos naturalmente prejudicados por isto.
Portugal ainda é um país de desigualdades ao nível do ensino e da oferta formativa? Que consequências isso traz para o país e para o seu desenvolvimento?
Em Portugal, as nossas classes média e média-alta estão fundamentalmente nas universidades e politécnicos públicos. Nas instituições privadas e nas cooperativas, como é o nosso caso, está apenas uma parte da classe média, a classe média-baixa e os remediados. É o contrário do que deveria ser: quem poderia pagar mais, paga menos; quem deveria pagar menos, paga mais. Ainda assim, nunca deixámos ninguém para trás, porque sempre incentivámos aqueles que têm um mínimo de condições a continuar.
Apesar da luta – no bom sentido – com o poder político, também houve políticos que nos compreenderam.
Recordo, por exemplo, o Dr. Almeida Santos, a quem iremos prestar brevemente uma homenagem num congresso a realizar em Viseu. Esteve connosco em Moçambique, na inauguração da Universidade Jean Piaget na cidade da Beira, em Angola e em Cabo Verde. Chegou a dizer publicamente, em Luanda, que o Instituto Piaget é a instituição que melhor representa o espírito da CPLP.
O Instituto existe há 40 anos, e em 40 anos muito mudou no ensino, mas principalmente no mercado de trabalho que depois recebe os formados. Como é que o instituto se tem mantido atualizado, de forma a formar pessoas preparadas para o atual mercado de trabalho?
Atualmente, temos menos cursos a funcionar, fruto da reestruturação empreendida, mas uma oferta de áreas mais alargada. Na área da saúde, por exemplo, fizemos uma transformação enorme que outras escolas superiores de saúde públicas vieram a imitar.
Temos de ter consciência que o mundo que aí vem é mais difícil e complexo do que aquele que já tivemos. Temos um conjunto grande de mulheres a entrar no mercado de trabalho, temos robôs a invadir o mercado de trabalho, temos as pessoas a viver mais anos e temos alterações climáticas preocupantes. É preciso discutir coisas sérias em função dos seres humanos concretos.
O próprio Instituto funciona em função do país em que está. Neste momento, temos também uma crise em Angola com o País a atravessar uma fase difícil. Em Angola, já formámos mais de mil médicos que correspondem a um terço dos médicos angolanos (uma boa parte do corpo médico local é estrangeira). Em Portugal, também já podíamos ter formado mais de mil médicos – e isto é um facto que não desculpo aos políticos. Temos em Viseu uma Faculdade de Medicina construída de raiz, só lá faltam os estudantes. Temos uma Ordem dos Médicos que acha que não e uma Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES) a dar pareceres finais sobre a criação de cursos quando quem devia decidir em última instância deveria ser o Governo.
O Instituto tem apostado na expansão nos países da CPLP (Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné). Quais os principais desafios a este nível?
Todos estes países, à sua maneira, estão em crise, embora sejam crises diferenciadas. Nestas fases, a tendência geral é olhar apenas para o curto prazo e baixar os braços, mas não é isso que o Instituto Piaget faz. Tivemos consequências, mas estamos a reajustar.
No Brasil, temos cerca de mil estudantes, na zona de São Paulo, e seja com este presidente ou com outro que lhe suceda teremos de andar para a frente.
Em Cabo Verde, onde fomos a primeira universidade do país, mesmo antes de existir ensino superior público, recordo-me de ter dito ao então presidente da República que um país não é verdadeiramente independente sem ter ensino superior. Para o projeto avançar teve de ser o Instituto Piaget de Portugal a construir a universidade. Hoje, temos cerca de 1.500 estudantes, fazemos muito boa formação e os cabo-verdianos têm uma cultura de exigência formativa. Estamos a tentar construir agora uma residência para estudantes, sendo que o país já acolhe alunos do Senegal, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial e até da Guiné Conacri.
Temos um projeto de articulação das Universidades Piaget em Cabo Verde e na Guiné, onde temos 1.700 estudantes, e criar uma espécie de grande universidade de âmbito regional – abarcando não só a componente africana, mas também o nordeste brasileiro.
Em Angola, temos cerca de 16 mil estudantes, distribuídos por dois polos: Viana e Benguela. Começámos do nada, quando o país ainda estava em guerra, construindo o polo universitário de Viana a 1,5 quilómetros de distância da última casa habitada. Como não havia cimento nem máquinas tivemos de importar tudo de Portugal e construímos a primeira fase da universidade em 9 meses e 3 dias. Hoje, somos uma universidade de referência e a única instituição de ensino superior não pública que tem um protocolo especial com o Governo de Angola.
Em Moçambique, optámos pela cidade da Beira, onde havia menos respostas ao nível do ensino superior do que em Maputo. Temos cerca de 700 estudantes e é igualmente uma universidade de referência, onde já formamos doutores, o que ainda não acontece em Angola e Cabo Verde. Apesar dos prejuízos que tivemos provocados pelo furacão Idai, no início de 2019, é a universidade que está mais equilibrada do ponto de vista financeiro. É também aquela em que os estudantes melhor cumprem com os seus pagamentos.
Olhando ainda para o futuro, espero não morrer antes de podermos criar o Instituto Piaget em Goa.
Estive lá há pouco tempo e constatei que os indianos têm uma apreciação muito positiva dos portugueses. Já temos um mestrado em Saúde Pública na Beira que caminhará com o tempo para uma licenciatura em Medicina – que o respetivo Governo quer e pede. A prazo, também esta Faculdade de Medicina servirá de base a uma faculdade idêntica em Goa.