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inteligência artificial (IA) continua a dominar o discurso estratégico das empresas, mas a realidade avança a um ritmo mais lento do que o entusiasmo. A Gartner reconhece que “as atuais capacidades da inteligência artificial ficam muito aquém das promessas feitas”, um desalinhamento que, em 2026, coloca os diretores de recursos humanos (RH) “ao volante, mas sem um roteiro definido” na transição para a era homem-máquina.
É este o cenário traçado pela Gartner no “CHRO Guide: 9 Future of Work Trends for 2026“, um relatório que identifica nove tendências críticas com impacto nas decisões sobre talento, cultura, desempenho e sustentabilidade organizacional.
1- Despedimentos a caminho?
Apenas 1% dos despedimentos ocorridos no primeiro semestre de 2025 resultaram de aumentos de produtividade associados à IA. Ainda assim, muitos CEOs avançaram com reduções de equipa com base em retornos que não se materializaram. Para a Gartner, este desfasamento cria um risco estrutural para as organizações, com impacto em três frentes:
- Perda de talento crítico difícil de recuperar;
- Necessidade de contratação futura a custos mais elevados;
- Quebra de confiança interna e desgaste da marca empregadora.
Neste contexto, a Gartner é perentória: cabe aos Chief Human Resources Officer (CHRO) gerir decisões sensíveis com empatia e transparência, mas também reequilibrar o debate estratégico com conselhos de administração excessivamente otimistas quanto ao impacto imediato da IA.
2- Pressão por desempenho gera dissonância cultural
A Gartner identifica uma mudança silenciosa nas organizações: maior exigência, mais horas de trabalho e menos flexibilidade, sem uma redefinição clara da cultura. O resultado é uma dissonância cultural que ameaça os níveis de engagement e compromete as ambições de performance das lideranças.
Segundo o relatório, as organizações mais bem-sucedidas serão aquelas que:
- Clarificarem expetativas de desempenho e resultados;
- Forem explícitas sobre horários, flexibilidade e intensidade do trabalho;
- Assumirem que a cultura pode e deve evoluir, desde que essa evolução seja comunicada de forma clara e transparente.
Sem este alinhamento, o risco é uma deterioração gradual do compromisso dos colaboradores.
3- O maior custo escondido da IA: saúde mental e cognitiva
A adoção de ferramentas de GenAI tornou-se quase universal: 84% dos líderes de RH afirmam que as suas organizações já utilizam estas tecnologias. Porém, 91% dos Chief Information Officer (CIOs) e líderes de IT admitem dedicar pouco ou nenhum tempo à monitorização dos impactos comportamentais associados ao uso de IA.
O relatório alerta para riscos concretos, entre os quais:
- Atrofia cognitiva;
- Dependência excessiva de ferramentas de IA;
- Fenómenos descritos como psicose induzida por IA.
Neste contexto, preservar a saúde mental deixa de ser apenas uma prioridade de bem-estar e passa a ser uma condição para garantir produtividade, segurança e desempenho sustentável.
4- AI workslop
A pressão para produzir mais rápido com apoio da IA está a resultar em trabalho de baixa qualidade. O relatório da Gartner indica que cada ocorrência de AI workslop demora, em média, quase duas horas a ser detetada e corrigida.
Além disso, colaboradores que poupam tempo com IA têm três vezes mais probabilidade de receber ainda mais trabalho e os ganhos de eficiência acabam por ser anulados pela sobrecarga subsequente.
Como tal, a consultora defende uma mudança de foco, que consiste em utilizar a IA para reduzir esforço e não apenas tempo. Sublinha ainda a importância da revisão de métricas de desempenho que privilegiam volume e rapidez em detrimento da qualidade.
5- Fraudes no recrutamento
Dados da Gartner dão conta que 84% dos recrutadores reportam fraude nos processos de seleção e que 13% dos candidatos admitem utilizar GenAI em tempo real durante entrevistas.
O impacto é real. Apenas metade dos candidatos confia na legitimidade das ofertas de emprego. Mais: a Gartner estima que 25% dos perfis de candidatos poderão ser falsos até 2030.
A resposta, conforme explica, passa por combinar tecnologia com métodos de avaliação mais humanos e presenciais, reforçando a confiança e a autenticidade nos processos de recrutamento.
6- Espionagem entra nas empresas
Neste cenário, o papel dos RH ganha uma nova dimensão, passando por:
- Formação de recrutadores para identificar riscos desde a fase de contratação;
- Promoção de ética e segurança como pilares culturais;
- Treino dos colaboradores para reconhecer e reportar comportamentos suspeitos.
7- Novos percursos de carreira
Contrariando a narrativa dominante, a Gartner prevê o surgimento de percursos de reconversão profissional, com trabalhadores de áreas digitais a migrarem para profissões técnicas e manuais, vistas como mais estáveis e menos vulneráveis à automação.
8- Valor da IA estará nos processos
Apesar de 81% dos CIOs apontarem lacunas de competências em IA, a Gartner conclui que apostarem exclusivamente em talento técnico não resulta num retorno sustentável. As equipas que redesenham processos com apoio da IA têm duas vezes mais probabilidade de superar objetivos de receita.
9- Colaboradores pagos pelos seus “gémeos digitais”
As empresas estão a começar a criar réplicas digitais baseadas no conhecimento e na forma de trabalhar dos seus melhores colaboradores. Estas réplicas, usadas para treinar sistemas de IA ou automatizar tarefas, continuam a criar valor mesmo depois do trabalhador sair da organização.
Perante este cenário, cresce a expetativa de que os colaboradores sejam compensados não só pelo treino inicial da IA, mas também pela utilização contínua dessas versões digitais. A Gartner diz mesmo que esta prática vai obrigar empresas e legisladores a clarificar regras sobre propriedade, compensação e direitos individuais no trabalho.
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