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ENTREVISTA: Maria João Escrevente, DRH da Unitel

“Os recursos humanos ou são vistos como um aliado do CEO e da equipa de gestão de topo, ou o nosso papel será meramente administrativo”

Mónica Felicidade Por Mónica Felicidade
2 de Dezembro, 2019
em MERCADO RH, PESSOAS
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ENTREVISTA: Maria João Escrevente, DRH da Unitel
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Maria João Escrevente começou a sua carreira em Portugal, mas é em Angola que trabalha para tornar os recursos humanos um aliado da gestão de topo. 

Foi em Portugal que Maria João Escrevente deu início à sua carreira. Terminada a sua formação académica, ingressou na Sonae Distribuição como HR manager, em 1997. Quatro anos depois, e assumindo um cargo com igual designação, integrou a PT Pro, onde permaneceu até 2009 – ano que assinala a sua transição para a PT Contact. Foi, durante três anos, gestora do seu capital humano. Em 2012, decidiu seguir o seu sonho e, por ele, rumou com a família, até ao continente africano para abraçar a direção de recursos humanos da Unitel, operadora móvel de Angola, e assumir uma experiência profissional fora de Portugal. Na bagagem, levava experiências enriquecedoras, ganhas em “duas grandes escolas do mundo empresarial”, e vontade de aprender. Aquando da sua chegada, eram grandes os desafios, e assim permanecem até hoje, num país que “tem um grande caminho pela frente”, pronto a ser percorrido por pessoas com “vontade de aprender, inesgotável criatividade, flexibilidade, capacidade de adaptação à mudança e resiliência”. Na Unitel, Maria João Escrevente, trabalha, todos os dias, apaixonadamente, para tornar os recursos humanos um aliado da gestão de topo.

Desenvolveu a sua atividade profissional durante 15 anos, em Portugal. Como é que descreve a gestão de recursos humanos que se pratica no território nacional?

A minha vida profissional em Portugal permitiu-me trabalhar em duas grandes “escolas” do mundo empresarial. Organizações de grandes dimensões e vários negócios resultam em muita diversidade para gerir. Durante a minha experiência profissional de quase 15 anos em Portugal, foi possível fazer parte de grandes e inovadores projetos e ter diversas responsabilidades que transformaram a minha carreira num portefólio de experiências enriquecedoras. Quer a Sonae, quer a Portugal Telecom sempre procuraram estar na vanguarda do que se fazia em recursos humanos. Foram realidades tão diferentes e que me proporcionaram o contacto com o que de melhor se fazia em Portugal, fazendo com que alcançasse uma experiência profissional multidisciplinar, mas acima de tudo uma vontade de aprender mais e mais. Sem dúvida, a melhor preparação possível para o meu passo seguinte – a Unitel. Contudo, a gestão de pessoas nunca foi igual entre organizações e negócios em Portugal e, na realidade, em lado nenhum. A grande diferença nas abordagens e estratégias deriva sempre do ecossistema em que nos inserimos, da cultura organizacional que encontramos ou promovemos, da inovação que nos rodeia e, acima de tudo, da gestão de topo e da sua visão sobre os seus recursos, talentos ou capital humano – qualquer que seja a designação que se use.

Foi em 2012 que partiu para angola para integrar a unitel, onde é diretora de recursos humanos. como é que surgiu esta oportunidade?

A vinda para Angola foi uma surpresa absoluta na minha vida. Diria mesmo que foi um presente pelo qual estarei, para sempre, grata. A minha vida pessoal estava numa fase de transformação, porque o meu marido iniciava um processo de mudança na sua vida. Estava a mudar de carreira. Depois de 14 anos a trabalhar na Vodafone, decidimos que deveria abraçar a sua maior paixão profissional – a cozinha. Este processo pressuponha tranquilidade e a necessária estrutura para que a família estivesse equilibrada. Contudo, um contacto de Angola e a apresentação do projeto da empresa Unitel, e o que se pretendia que os recursos humanos fossem nesta empresa, fez-me acreditar que era um projeto que queria fazer na minha carreira profissional. Após a primeira conversa, onde seria uma candidata entre outras, fiquei rendida também eu a mudar de vida. Três meses depois, quando me contactaram a informar que tinha sido escolhida, abracei mais uma grande alteração nas nossas vidas – minha, do meu marido e das nossas filhas. Sempre quis ter uma experiência profissional fora de Portugal, mas após o nascimento da Marta e da Matilde este sonho ficou adormecido. Aquele era, aparentemente, o momento para estar quieta e segura no meu mundo. Resolvemos, porque foi uma decisão em família, abraçar os sonhos. Também é um legado que deixamos às nossas filhas, talvez o maior de todos.

Ao longo da sua estadia em angola, que diferenças foi percecionando em relação à gestão de recursos humanos angolana?

O mundo empresarial em Angola era e é diferente de Portugal e considero que as analogias não são justas para nenhuma das realidades. Desde 2011 que Angola tem tido os seus desafios económicos e sociais, mas o seu desenvolvimento é inegável. O setor público representa grande parte do tecido empresarial e um setor pesado, antiquado e onde as práticas de gestão de recursos humanos não são a prioridade. Contudo, começa a sentir- -se a preocupação no controlo da produtividade e assiduidade e uma melhor definição de processos e procedimentos. As SMEs [small and medium-sized enterprises, em português pequenas e médias empresas] são, ainda, um setor em evolução, com muitos altos e baixos, consequência da grande crise económica que Angola vive desde 2014. Esta área do tecido empresarial sofreu grandes oscilações e tem ainda muitas preocupações para a sua manutenção e equilíbrio, mas tem apostado muito na importação de recursos (agora menos) e na melhor preparação dos quadros angolanos, ainda que com um volume pouco representativo. A preparação destes quadros angolanos passa muito pela formação on-the-job. Em alguns casos resulta bem, noutros é preciso retroceder, o que encarece muito a importação de recursos, que se torna onorosa para as SMEs. Por último, temos as grandes empresas internacionais – excetuando a Sonangol que é nacional, todas as restantes são multinacionais – e as grandes empresas nacionais, como a Unitel, Kero, Candando, Refriango, com mais estrutura e muito mais orientadas para a formação e desenvolvimento dos seus quadros com formação relevante nos seus setores. A maior capacidade económica confere-lhes uma atitude mais orientada para a excelência e qualidade dos seus quadros. Temos um grande caminho pela frente, mas existe uma característica inigualável nos recursos em Angola: a grande vontade de aprender.

Aquando da sua chegada à Unitel, que desafio lhe foi apresentado?

Foram e são grandes os desafios. Em 2012, a Unitel era uma empresa com 11 anos, ou seja, uma empresa jovem, com um crescimento acelerado e com uma equipa jovem e muito ambiciosa. Para conseguir fazer face a esse crescimento, precisámos de recrutar e formar para já e para o futuro, pelo que a academia foi um dos grandes instrumentos para esse processo. Encontrei uma equipa RH sem experiência relevante que permitisse criar e desenvolver modelos e políticas adequadas de forma autónoma e imediata. Foi necessário, em especial, desenvolver uma equipa autónoma, eficiente, crítica e pensar o negócio como o mote para o desenvolvimento das políticas RH. Os recursos humanos ou são vistos como um aliado do CEO e da equipa de gestão de topo, ou o nosso papel será meramente administrativo. Foi essa a missão que assumi e que continuo incessantemente a promover. Tudo o que fazemos precisa de ser pensado em função do negócio e de como podemos ser o melhor aliado na estratégia da empresa, para que a gestão do negócio possa atingir os seus objetivos. Hoje, sete anos depois, tenho uma equipa fantástica que se transforma e supera a cada novo desafio.

Para a administação da Unitel, os recursos humanos são um parceiro estratégico?

Posso afirmar que a Unitel foi, até hoje, a empresa onde senti verdadeiramente a visão dos recursos humanos como parceiro estratégico. Naturalmente que a minha posição hoje me permite ter acesso a mais informação e mais conhecimento do processo de decisão. Contudo, o que é determinante neste tema são as características da Unitel enquanto empresa jovem e ambiciosa e que sabe que o seu sucesso teve sempre por base primeiro as pessoas e só depois a tecnologia.

Dizia, em 2018, a propósito do evento TOP Líderes Luanda, que é preciso trabalhar todos os dias as emoções e a forma como são geridas as equipas. Que medidas materializam, na Unitel, esta convicção?

O programa de transformação organizacional que criámos e desenvolvemos desde 2014 foi construído a pensar no contributo que as promessas e comportamentos que assumimos todos os dias dão ao nosso ADN. Falamos sempre em trabalhar emoções e em como essas emoções nos permitiram, e permitem, construir um employer branding assente em inteligência emocional, criando uma identidade única na organização. Cultura organizacional é missão, visão e valores, mas também é emoção. Mais relevante que a nossa posição ou nível de responsabilidade é o nosso comportamento na organização e este é determinante para a nossa marca “Somos Unitel”.

Como é que descreve a gestão que desenvolve com a sua equipa?

Considero que a gestão que tenho desenvolvido na equipa é uma gestão orientada para os resultados, cumprimento de prazos, rigor e qualidade. Este tem sido o  caminho para cumprir os objetivos. Contudo, só com a formação, partilha de experiências, uma relação informal e com o potenciar da comunicação intra-equipas é que tem sido possível o crescimento da equipa e a sua evolução enquanto profissionais RH.

Dizia, também, que o que cada um faz na sua vida profissional inspira sempre alguém. Quem é que a inspira?

Ao longo da minha vida profissional tenho sido inspirada por imensas pessoas, algumas delas nem se aperceberam. Todas elas têm uma característica em comum – são apaixonadas pelo que fazem e dão sempre o seu melhor em cada momento. Quase todos são desconhecidos, mas fizeram uma enorme diferença na minha vida.

E no exercício da sua atividade profissional, como é que inspira as pessoas com quem se relaciona?

O único foco que tenho é que as minhas ações reflitam os meus valores e convicções quer na minha vida profissional, quer na minha vida pessoal.

A Unitel promove uma iniciativa, no seu site, designada “A minha história na Unitel”. É uma forma de reconhecer as pessoas que trabalham na empresa?

“A minha história na Unitel” é uma forma de comunicação muito especial. Torna a Unitel uma empresa com rosto, humanizada. Foi a história pessoal e profissional de cada colaborador que permitiu que a empresa se transformá-se, com muito orgulho, numa empresa de sucesso. Naturalmente que esta exposição é uma forma de reconhecimento, porque pretendemos que a vivência de cada um seja uma promoção não de imagem, mas a inspiração e a motivação de que “Ser Unitel“ é especial. A promoção interna e externa de cada uma dos nossos colaboradores (uma história por mês) procura promover histórias inspiradoras, motivando e conectando cada um dos colaboradores a um ADN que nos é muito próprio – o orgulho de fazer parte da família Unitel.

Em abril de 2018, a Unitel dava conta que empregava 1190 mulheres, número que correspondia a 37,4% dos seus quadros. São as desigualdades entre homens e mulheres, nas empresas, que motivam a partilha destes números?

Adicionalmente, reforço que 40% da nossa equipa de gestão são mulheres. Sim, existe necessidade de reforçar que não existem empregos específicos de homens ou mulheres, mas sim que a excelência e o profissionalismo de cada um dos nossos colaboradores são relevantes para a carreira que cada um deseja abraçar. Numa sociedade em que a mulher ainda tem um papel diferenciado do homem, e quando estamos num setor que está conotado como sendo do “mundo dos homens”, quisemos desmistificar esta ideia preconcebida, mostrando que a Unitel já faz a diferença. A ambição que espelhamos nos nossos valores é que a Unitel seja a marca de todos os angolanos, mas a nossa marca é mais do que aquilo que o nosso setor determina. É que o ADN da empresa seja sempre orientado pelas melhores práticas internacionais. Os desafios que temos em Angola são característicos do nosso ecossistema, mas o nosso foco são sempre as referências do que de melhor se faz no mundo.

Entrevista publicada na edição 120 da RHmagazine.
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