Quase metade dos líderes empresariais portugueses receia não conseguir acompanhar o ritmo da evolução tecnológica. Ao mesmo tempo, mais de um terço questiona a sustentabilidade do atual modelo de negócio e a própria capacidade de inovar, segundo o 29.º Global CEO Survey da PwC.
O estudo, que inquiriu 4.454 CEO em 95 países, 73 dos quais em Portugal, entre 30 de setembro e 10 de novembro de 2025, revela que 48% dos líderes nacionais receiam não acompanhar a velocidade da transformação tecnológica. Outros 38% manifestam dúvidas quanto à sustentabilidade do modelo de negócio a médio e longo prazo e 34% questionam a sua capacidade de inovar, percentagens superiores às médias globais.
Ainda assim, mostram-se mais confiantes no crescimento da economia global e nacional neste ano. Apenas 37% antecipam um aumento das receitas das suas empresas.
IA ainda sem impacto nas receitas da maioria das empresas
A IA surge como um dos principais fatores de diferenciação competitiva, mas os dados indicam que a maioria das empresas portuguesas ainda não está a traduzir o investimento em resultados. Segundo o inquérito, 67% das organizações não registaram qualquer impacto nas receitas decorrente da adoção de IA, apenas 1% reportou aumentos e 19% indicou subida de custos. O estudo aponta ainda para iniciativas fragmentadas, ausência de métricas claras de impacto e insuficiências ao nível da infraestrutura tecnológica e dos modelos operacionais.
“2026 está a configurar-se como um ano decisivo para a IA. Um pequeno grupo de empresas já está a converter a IA em retornos financeiros mensuráveis, enquanto que muitas outras ainda enfrentam dificuldades para avançar para além dos projetos-piloto. Esta diferença começa agora a refletir-se na confiança e na competitividade – e ampliará rapidamente para aqueles que não atuarem”, afirma Mohamed Kande, Global Chairman da PwC, em comunicado.
Cibersegurança lidera lista de riscos
As ameaças tecnológicas não se limitam à IA. Para 37% dos CEO portugueses, a cibersegurança é o principal risco, ao contrário do que se verifica a nível global, onde a volatilidade económica surge como maior preocupação. Em resposta, 64% das empresas nacionais reforçaram medidas de cibersegurança, valor acima da média internacional.
A pressão estende-se à relação com os stakeholders. No último ano, 60% das empresas enfrentaram preocupações por parte de clientes, colaboradores, reguladores ou parceiros, e 48% tiveram de responder a questões específicas sobre o uso responsável da IA. Apesar deste contexto, 77% das empresas portuguesas não antecipam impactos relevantes das tarifas nas margens de lucro, percentagem significativamente superior à média global.
O estudo evidencia ainda um desequilíbrio na gestão do tempo. Em média, 58% do tempo dos CEO é dedicado a decisões de curto prazo, enquanto apenas 10% é canalizado para estratégias com horizonte igual ou superior a cinco anos.
Embora 48% das empresas tenham entrado em novos setores nos últimos cinco anos, 69% obtêm menos de 20% das receitas nessas áreas, o que aponta para uma diversificação limitada e incremental. Apenas 16% consideram a inovação um elemento crítico para a estratégia.
“Os resultados do 29.º Global CEO Survey da PwC mostram que existe, da parte dos CEO entrevistados, uma maior consciência dos desafios, mas ainda não estamos a transformar essa consciência em valor. Pelo menos de forma consistente. As empresas portuguesas sabem que precisam de acelerar – na adoção da inteligência artificial, no reforço da confiança dos stakeholders e na capacidade de se reinventarem, mas continuam condicionadas por pressões de curto prazo. A mensagem desta edição é inequívoca: a reinvenção deixou de ser opcional. O que está em causa já não é acompanhar o ritmo do mercado, mas sim garantir a relevância das empresas portuguesas na próxima década. Com uma visão estratégica existem várias oportunidades de crescimento e de reinvenção, em alguns casos, em novos setores de atividade”, refere Luís Filipe Barbosa, Financial Services Market Leader da PwC Portugal, na mesma nota de imprensa.
Cinco prioridades para acelerar a transformação
Com tudo isto em mente, o estudo identifica um conjunto de prioridades para os próximos meses:
- Definir uma visão estratégica para a adoção de IA no negócio e na operação;
- Estabelecer regras internas de IA responsável e disponibilizar ferramentas de produtividade aos colaboradores-chave;
- Dinamizar programas de capacitação prática dos colaboradores, adaptados a cada função;
- Implementar três a cinco soluções corporativas de IA, priorizando casos de impacto elevado e investimento controlado;
- Medir o impacto e comunicar resultados, reforçando significado, reconhecimento e confiança na gestão.
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