Ter benefícios disponíveis não significa que os colaboradores os conheçam ou tirem partido deles. Esta foi uma das conclusões do diagnóstico realizado pelo Lidl Portugal à sua estratégia de bem-estar. Quem o revelou foi Clara Estanqueiro, Diretora de Talent Development & Culture do retalhista, em conversa com Cristina Martins de Barros, Fundadora do iiRH e Diretora Editorial da RHmagazine, durante o podcast “Pessoas & Talento”.
O Lidl Portugal já disponibilizava um conjunto alargado de iniciativas de bem-estar aos seus colaboradores, desde apoio psicológico e benefícios financeiros a programas de desenvolvimento profissional e atividades de promoção da saúde. “Tínhamos o bem-estar na nossa agenda, mas a dúvida era: vamos acrescentar mais coisas? Não. Temos que medir o retorno do que temos”, começou por partilhar Clara Estanqueiro.
O diagnóstico incluiu a auscultação de colaboradores e de outros intervenientes da organização, a análise de indicadores e a avaliação das iniciativas existentes. O resultado situou a maturidade da estratégia de bem-estar do Lidl no nível proativo, uma classificação que a responsável considerou satisfatória, embora ainda com margem de evolução.
Mais reveladoras foram algumas das fragilidades identificadas. “Surpreendeu-nos esta ideia dos nossos colaboradores acharem que há mais benefícios para uma área da empresa do que para outra”, reconheceu.
A comunicação revelou-se outro desafio. Segundo a responsável, foi nesta dimensão que a empresa registou os resultados menos favoráveis.
Cinco pilares para cuidar além do trabalho
A resposta do Lidl passou pela reorganização das iniciativas existentes no programa “Cuidar de Ti”, lançado no início do verão de 2026 e estruturado em cinco pilares: bem-estar emocional, financeiro, físico, profissional e social. Para cada dimensão, a empresa procurou definir o seu significado, identificar comportamentos que a promovem e reunir os recursos disponíveis num espaço de consulta mais acessível aos trabalhadores. O objetivo não foi apenas facilitar o acesso aos benefícios, mas também mostrar como diferentes dimensões da vida pessoal e profissional se influenciam mutuamente.
Na área emocional, o programa inclui medidas de apoio psicológico e iniciativas destinadas a promover a literacia sobre saúde mental, tanto entre os colaboradores como entre as chefias. Entre os recursos disponíveis encontram-se uma linha de apoio confidencial, a licença Lidl Balance, que permite até 10 dias de ausência em determinadas circunstâncias, e outras medidas relacionadas com o tempo e a conciliação entre a vida pessoal e profissional.
Já no bem-estar financeiro, a empresa decidiu ir além da remuneração e dos benefícios tradicionais. De acordo com Clara Estanqueiro, o Lidl realizou um reforço de 12 milhões de euros na massa salarial. Desenvolveu ainda iniciativas de literacia financeira, incluindo workshops sobre gestão do orçamento e investimentos. O programa contempla também apoio especializado para situações financeiras específicas, através de um serviço confidencial ao qual também podem recorrer familiares dos trabalhadores.
Como o Lidl aposta no futuro dos trabalhadores
A estratégia de bem-estar do Lidl estende-se ao desenvolvimento profissional. Para a empresa, a possibilidade de progressão na carreira constitui uma componente importante da segurança e da confiança dos colaboradores no seu futuro.
Clara Estanqueiro revelou que a organização registou cerca de 570 promoções internas em 2025 e que 70% dos líderes operacionais tiveram origem nas operações. “Isto é bastante significativo numa organização que atrai muitas pessoas. Nós somos muito grandes e isso dá perspectiva. E a perspectiva dá bem-estar”, afirmou.
A responsável destacou também o investimento na formação, através de um campus acessível aos trabalhadores, e em oportunidades de qualificação, incluindo bolsas para licenciaturas e o Programa Qualifica.
Na dimensão social, o Lidl passou a disponibilizar um dia remunerado de voluntariado, procurando incentivar a participação dos colaboradores em iniciativas nas comunidades onde a empresa está presente. O desafio é garantir que estas oportunidades chegam a uma organização com mais de 290 lojas, quatro entrepostos e uma sede, distribuídos pelo território nacional. Uma das iniciativas em desenvolvimento é o Parents Club, um projeto-piloto dirigido inicialmente aos trabalhadores dos escritórios, mas que a empresa pretende adaptar a outras realidades.
Outro eixo da estratégia passa pelo papel das lideranças. Para Clara Estanqueiro, os responsáveis de equipa são fundamentais para promover o bem-estar, mas não devem ser vistos apenas como pessoas encarregadas de identificar e resolver os problemas dos outros. “O líder também tem que cuidar de si em primeiro lugar”, defendeu.
Com isso em mente, o Lidl está a reforçar a capacitação das chefias operacionais nesta área. Entre as medidas referidas está a introdução de conteúdos de primeiros socorros psicológicos na formação, para ajudar os líderes a reconhecer sinais de dificuldade, abordar situações sensíveis e encaminhar os trabalhadores para os serviços de apoio adequados.
O próximo desafio
Embora o programa já esteja em funcionamento, a empresa reconhece que ainda é cedo para avaliar o seu impacto. Nesta fase, uma das prioridades é aumentar o conhecimento e a utilização dos recursos disponibilizados. Um exemplo é a plataforma de descontos.
Clara Estanqueiro adianta que só 60% dos trabalhadores utilizaram um desconto, apesar de existirem mais colaboradores registados. A ambição é aumentar a utilização dos benefícios e, numa fase posterior, avaliar a sua contribuição para indicadores como a retenção, o desempenho e a vivência dos valores organizacionais.
A experiência levou também a uma mudança na forma de pensar a estratégia de bem-estar. Mais do que multiplicar iniciativas, a empresa concluiu que precisava de as articular e tornar mais claras para quem delas pode beneficiar. Para Clara Estanqueiro, o próximo passo é fazer com que o bem-estar deixe de estar associado apenas a um programa ou a uma plataforma e passe a integrar de forma mais consistente as conversas quotidianas entre líderes e equipas. “O bem-estar tem que ser uma conversa contínua”, frisou.
Entre os destaques deste episódio:
- O diagnóstico que levou o Lidl Portugal a repensar a sua estratégia de bem-estar;
- As dificuldades na comunicação dos benefícios e na sua utilização pelos colaboradores;
- A reorganização do programa “Cuidar de Ti”;
- O papel das lideranças na promoção do bem-estar e na identificação de situações que exigem apoio especializado;
- A relação entre desenvolvimento profissional, oportunidades de progressão na carreira e bem-estar;
- A importância de medir a utilização e o impacto dos benefícios na experiência dos colaboradores.
Ouça a conversa completa ou assista ao episódio.
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