Mais de metade dos jovens entre os 18 e os 29 anos já ponderou emigrar para trabalhar, mas apenas um em cada 10 está efetivamente a preparar a saída. A diferença entre considerar a emigração e tomar essa decisão constitui um dos principais resultados do estudo “A Geração Z e o futuro do trabalho em Portugal”, realizado pela Netsonda para a Eurofirms.
De acordo com o inquérito, 51,4% dos jovens já pensaram em emigrar ou têm planos definidos. Destes, 40,9% ainda não decidiram se vão sair, enquanto 10,5% já têm planos concretos. Há ainda 34,3% que chegaram a considerar a hipótese de emigrar, mas preferem permanecer em Portugal, e 14,3% que nunca a equacionaram.
A remuneração (66,9%) continua a ser a principal razão apontada para procurar oportunidades noutro país. A qualidade de vida e o equilíbrio entre vida pessoal e profissional surgem em segundo lugar (42,9%). Seguem-se o custo da habitação (18,1%), a possibilidade de adquirir experiência internacional (12,2%) e a falta de oportunidades profissionais na respetiva área (9%).
Para a Eurofirms, esta relação começa antes da assinatura do contrato de trabalho. A ausência de resposta por parte das empresas durante os processos de recrutamento é uma das queixas mais transversais identificadas pelo estudo. Consoante a situação profissional dos jovens que procuram emprego, entre 47% e 51% referem a falta de informação ou de retorno por parte dos recrutadores.
Entre os jovens que já trabalham e procuram uma nova oportunidade, 41% apontam a falta de transparência sobre salários e condições económicas como uma das principais dificuldades.
“Os dados confirmam aquilo que observamos diariamente no contacto entre candidatos e empresas: a relação com uma organização começa a ser construída ainda no processo de recrutamento. Para a Geração Z, a clareza das condições, o feedback e a coerência entre o que é prometido e o que é encontrado ao longo do processo influenciam diretamente a atratividade de uma oportunidade e a decisão de permanecer numa empresa“, afirma Lucília Queirós, National Leader da Eurofirms Portugal. A responsável defende que as organizações devem olhar para o recrutamento como parte integrante da experiência do colaborador, e não apenas como um processo destinado a preencher vagas.
Entre os jovens estudantes, 37,9% identificam a exigência de experiência profissional para funções júnior como uma dificuldade na procura de emprego. Outros 23,5% admitem não saber como tornar o currículo suficientemente diferenciador, uma proporção que, segundo o relatório, corresponde aproximadamente ao dobro da registada nos restantes grupos analisados.
Os resultados mostram uma contradição frequente na entrada no mercado de trabalho: as empresas procuram candidatos para posições iniciais, mas exigem competências ou experiência que estes ainda não tiveram oportunidade de desenvolver.
A realidade é diferente entre os trabalhadores-estudantes. Neste grupo, 39,4% manifestam frustração com ofertas de emprego mal remuneradas. O relatório assinala ainda que 41,1% destes jovens recebem menos do que o salário mínimo, embora os dados apresentados não permitam distinguir, neste indicador, o efeito de eventuais regimes de trabalho a tempo parcial.
Já entre os jovens que não trabalham nem estudam, os obstáculos são, sobretudo, a duração e adequação dos processos de seleção. Cerca de 41,5% apontam processos demasiado longos, enquanto 29,9% referem que as ofertas disponíveis não correspondem à sua formação.
As dificuldades identificadas podem ser resumidas em quatro problemas distintos:
- Jovens empregados: falta de transparência salarial e das condições económicas (41%);
- Estudantes: exigência de experiência para funções júnior (37,9%) e dificuldade em diferenciar o currículo (23,5%);
- Trabalhadores-estudantes: ofertas salariais consideradas insuficientes (39,4%);
- Jovens que não trabalham nem estudam: processos de seleção demasiado longos (41,5%) e ofertas desajustadas da formação (29,9%).
“A discussão sobre a Geração Z é muitas vezes feita a partir da ideia de que os jovens têm menos compromisso com o trabalho. Os resultados apontam-nos noutra direção: temos de compreender melhor o que mudou nas expectativas e na forma como esta geração constrói a sua relação com as empresas. Isso não significa baixar critérios ou adaptar todas as funções a todas as pessoas. Significa criar maior clareza dos dois lados e encontrar um verdadeiro encaixe entre o que o talento procura e aquilo de que as organizações precisam”, considera Lucília Queirós.
O estudo revela também contrastes significativos entre as seis regiões analisadas (Grande Lisboa, Grande Porto, Litoral Norte, Litoral Centro, Interior Norte e Sul), tanto na intenção de emigrar como na perceção do mercado de trabalho e na correspondência entre formação e emprego.

O Litoral Centro lidera a intenção de emigrar, com 64,5% dos jovens a admitirem ter ponderado seriamente essa possibilidade ou já terem planos concretos. É também uma das regiões com maior desajustamento entre formação e emprego (43,1%), enquanto 15,3% não trabalham nem estudam e 53,6% reportam situações de stress.
Por outro lado, o Grande Porto apresenta a menor intenção de emigrar (31,9%) e o maior alinhamento entre formação e emprego (81%). Regista ainda a menor proporção de jovens que não trabalham nem estudam (4,6%) e a maior utilização de empresas de trabalho temporário (20,8%). Ainda assim, 64,2% avaliam negativamente o mercado de trabalho.
Na Grande Lisboa, 51,1% dos jovens já ponderaram seriamente emigrar ou têm planos definidos. A região destaca-se, porém, pela maior percentagem de jovens com planos concretos de saída (15,1%). Entre os que consideraram emigrar, 47,3% apontam a qualidade de vida e a conciliação entre trabalho e vida pessoal, enquanto 21,6% referem a habitação. Além disso, 39,1% trabalham fora da sua área de formação e 58,1% têm uma perceção negativa do mercado laboral.
No Interior Norte, onde 47,9% consideraram seriamente emigrar ou têm planos para o fazer, destaca-se a mobilidade interna: 25,2% imaginam-se a trabalhar noutra região portuguesa. Já o Sul combina uma elevada intenção de emigrar (54,5%) com uma reduzida proporção de planos concretos (0,8%), apresentando também a avaliação mais negativa do mercado de trabalho (69,7%) e o maior desajustamento entre formação e emprego (50,6%).
Por fim, no Litoral Norte, 55,5% dos jovens ponderaram seriamente emigrar ou têm planos definidos, embora apenas 12,8% tenham tomado essa decisão. A perceção negativa do mercado atinge 54,3% e o desajustamento entre formação e emprego chega aos 36,1%.
Como convencer os jovens a ficar?
“Não podemos falar de retenção como se existisse uma resposta única. O que pesa na decisão de um jovem no Porto não é necessariamente o mesmo que pesa em Lisboa ou no Centro. As empresas precisam de conhecer melhor o contexto em que competem por talento e perceber quais são os fatores que podem fazer a diferença para as pessoas que querem atrair e manter”, defende Lucília Queirós. “Estes resultados demonstram que a capacidade de retenção ultrapassa a existência de uma vaga. É crucial compreender as motivações e circunstâncias dos jovens e construir propostas de valor coerentes, que podem passar por aspetos como desenvolvimento, transparência, qualidade de vida, flexibilidade ou uma liderança mais próxima“, acrescenta a National Leader da Eurofirms Portugal.
O estudo “A Geração Z e o futuro do trabalho em Portugal” foi desenvolvido pela Netsonda para a Eurofirms, em julho de 2026, através de um painel online, com 600 respostas válidas de jovens entre os 18 e os 29 anos, residentes em seis regiões de Portugal. Os resultados foram ponderados por idade e nível de escolaridade, com referência aos dados populacionais do Eurostat. A ponderação procurou corrigir a sobrerrepresentação de jovens com formação superior na amostra inicial, que correspondia a 67,7% dos participantes, face a aproximadamente 36% na população de referência.
Após a ponderação, a amostra apresenta uma dimensão efetiva de Kish de 367 e uma margem de erro aproximada de ±5,1 pontos percentuais, para um nível de confiança de 95%, segundo o relatório. Os autores assinalam ainda a ausência de observações numa das combinações de idade e escolaridade consideradas na ponderação.
Aproveite e leia já as últimas edições da RHmagazine AQUI
























