Autor: Mário Henriques, Managing Partner do High Play Institute
Com a COVID-19, todos reconhecemos que estamos perante um momento que é uma oportunidade única para reformular o conceito de trabalho! Mas, quando redesenhamos o trabalho é importante que as empresas não pensem exclusivamente nos seus interesses institucionais e comerciais, mas acrescentem humanidade a esta nova realidade. Ou seja, tenham empatia e considerem as preocupações das pessoas.
Os estudos consideram que, hoje, uma pequena percentagem de pessoas entende que as suas casas, ou o escritório da empresa, são os melhores locais para se trabalhar. Isto quando comparamos, uma percentagem alargada de pessoas (mais de metade), que considera o modelo híbrido – o qual favorece a mistura da presença no escritório com o trabalho realizado em casa – como o mais adequado.
Quando consideramos o lado humano deste tema percebemos que trabalhar em casa, implica ganhar em média 1 a 2 horas por dia. Isso permite-nos gerir melhor o nosso tempo – continuar a estudar, fazer formação, ter atividades de lazer ou estar mais tempo com a família. Significa, também, trazer para as vidas das pessoas um propósito mais forte, com mais flexibilidade e agilidade, e mais opções para gerirem a sua própria produtividade.
Como dizia Lynda Gratton, professora na London Business School, no seu artigo publicado na Harvard Business Review recentemente (How to do Hybrid Right), este tema obriga-nos a ter quatro perspetivas: função ou responsabilidades e tipo de tarefas; preferência de cada uma das pessoas; tipologia de projetos e fluxos de trabalho; justiça social, equidade e inclusão.
A vantagem do modelo híbrido é que serve os argumentos destes dois mundos que se completam – o trabalho presencial e em casa. Como exemplo, e generalizando, sabemos que as pessoas ganham energia quando estão a trabalhar em casa, pois podem dar um passeio, estar com os filhos, ou fazer exercício a meio do dia. Mas, por outro lado, sofrem com o isolamento e solidão que o trabalho remoto provoca. A sintonia de agendas e horas de trabalho das equipas remotas é outro desafio, principalmente quando o trabalho exige debate de ideias, partilha constante de informação ou a coordenação rigorosa entre todos. Sabemos, também, pela experiência que conquistamos nestes últimos dois anos, que o trabalho que envolve inovação a presença física acaba por ser essencial. As pequenas conversas entre reuniões; sentir os diferentes ambientes em relações cara-a-cara com os colegas ou clientes, e realizar sessões de brainstorming com uma elevada energia em pequenos grupos, acabam por fazer a diferença no final do dia.
Mas nem tudo são fatores que nos incentivam a mudar. Existem alguns receios a considerar que podem atropelar esta revolução:
- O perigo das culturas das empresas não se adaptarem ao ponto de não clarificarem os comportamentos esperados neste novo modelo de trabalho. Incluindo os comportamentos desejados por parte dos líderes das equipas.
- As próprias pessoas, caso não entendam que este modelo híbrido não existe somente para seu conforto pessoal, expressando comportamentos que criem estereótipos negativos à volta de quem trabalha em casa.
- As empresas, se usarem esta transformação, para automatizarem processos de trabalho e de controlo que não estão adequados aos novos tempos que vivemos.
- O aproveitamento político, se criar regulamentos excessivos para as práticas de teletrabalho para cativar as opiniões de alguns. Um caminho que pode obrigar a aumentar exponencialmente os custos das empresas, quase exigindo que estas tenham um posto de trabalho para o colaborador no escritório e tenham de investir, em duplicado, num outro posto de trabalho em casa das pessoas.
Estes receios são atuais, e caso surjam na nossa realidade nos próximos tempos ameaçam a oportunidade que temos para criarmos um mundo melhor, inclusive, em termos ambientais.
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