Autora: Inês de Castro, Head of People da Worten
E “Estou, Artur, olá! É Inês de Castro, estou a ligar porque preciso da vossa ajuda urgente…” Do outro lado da linha, quem atende é um parceiro de longa data. Daqueles que nunca nos deixam na mão, que compreendem as idiossincrasias das organizações e fazem de tudo para honrar o nome de “parceiro” e estar ao nosso lado quando é preciso, mesmo que, para tal, tenha de dar “cambalhotas” à agenda…
Mas comecemos por definir a palavra “parceiro”. Segundo o dicionário Priberam, parceiro é:
- Que tem poucas diferenças em relação a outro;
- Pessoa ou entidade que está em parceria com outra para atingir o mesmo objetivo;
- Membro de um casal, relativamente ao outro;
- Pessoa com quem se joga ou dança;
- 5. …
Gosto particularmente da definição número 4. Pois, não é isto que passamos a vida a fazer? A “dançar” uns com os outros, a tentar uma sincronização perfeita, seja nas nossas relações amorosas, seja nas amizades, ou no mundo do trabalho?
Tenho para mim que as relações de parceria não são muito diferentes dos nossos casamentos: procuramos alguém que nos compreenda, que esteja disposto a acompanhar-nos, com quem consigamos comunicar e caminhar num mesmo sentido e com quem tenhamos uma relação forte de confiança.
Confiança é a palavra-chave. Num mundo cada vez mais acelerado, em que os desafios nos chegam mais ou menos como uma chuva de estrelas, de vários lados e ao mesmo tempo, ter relações de confiança é fundamental.
Ganhei, recentemente, a distinção de Diretora de Recursos Humanos do Ano e, como sempre me acontece em momentos importantes da minha vida, este evento fez-me refletir sobre o meu percurso e os meus sucessos profissionais.
Ter relações de confiança é fundamental.
Há uma parte que está bem visível: a empresa para a qual trabalho e que me apoia e me dá liberdade para criar, as equipas que me acompanham… mas há uma parte que é invisível aos olhos da generalidade das pessoas, mas não menos importante – os meus parceiros. E, portanto, este texto é a minha sentida homenagem a todas as pessoas/empresas que têm gravitado à minha volta, enquanto profissional, e contribuído para os sucessos.
Muito está escrito nos livros sobre a importância de os líderes saberem construir as suas equipas, não à “sua sombra”, mas sim com pessoas melhores do que os próprios, com diferentes competências e conhecimento e com grande potencial de desenvolvimento.
Dizem os peritos que um líder será mais bem-sucedido, quanto melhor for a sua equipa. Diria que com os parceiros acontece exatamente a mesma coisa. Eu escolho os meus parceiros por feeling, quando “cá dentro” há qualquer coisa que me diz que estas são as pessoas certas.
Se tentar concretizar o meu feeling, diria que, provavelmente, procuro pessoas apaixonadas pelo que fazem – há um brilho muito especial no olhar de quem é apaixonado pelo que faz, pessoas que escutam e que, após escutar, conseguem compreender e viver na mesma “onda de energia e de entusiamo” que eu vivo quando acredito muito numa ideia ou projeto. Alguém que consiga pegar na minha ideia, compreendê-la, adicionar-lhe valor e ajudar-me a concretizar.
Mas há outro aspeto fundamental: os valores. Tenho muita dificuldade em trabalhar com pessoas com uma rede de valores muito diferente da minha… Preciso de transparência, assertividade, cordialidade, coragem e um certo “toque humano” que não sei explicar por palavras, para que se crie uma relação de confiança, onde podemos ser sinceros quando não gostamos ou quando não é o suficiente, sem que nenhuma das partes fique melindrada. Construir em conjunto, para fazer sempre melhor.
Assim, concluo que, tal como não há a “pessoa ideal” para casar, depende do perfil de cada um de nós, também não há o “parceiro ideal”, vai depender do perfil profissional de cada um de nós. Eu sou daquelas que crê que em equipa vencedora não se mexe, pelo que, quando mudo de projeto, me faço acompanhar dos meus parceiros de confiança, daqueles que nunca me falharam ou que, falhando, souberam reconhecer os seus erros e corrigir, colocando a relação acima dos aspetos financeiros ou do ego.
Precisamos de pessoas sinceras e genuínas à nossa volta, as organizações já são demasiado densas… precisamos de relações simples e que resultem. Uma coisa que aprendi com a experiência é a não perder muito tempo com parceiros que não resultam.
Há alguns anos, insistia em manter as parcerias, dava imenso feedback, tentava explicar e fazer diversas reuniões… até que percebi que os parceiros são como as pessoas das nossas relações pessoais: quando não querem escutar, podemos repetir a mesma conversa mil vezes, que ficaremos sempre na mesma, sem progredir.
Os parceiros são como as pessoas das nossas relações pessoais: quando não querem escutar, podemos repetir a mesma conversa mil vezes, que ficaremos sempre na mesma
Atualmente, confesso que não perco tempo. Quando me apercebo que o parceiro não tem capacidade de escuta ou de “encaixe” para acolher o que estamos a explicar, parto para outra, sem ressentimentos, até porque, provavelmente, irá ter química com outras organizações e outros gestores.
Mas aqueles que estão comigo defendo acerrimamente, tento cuidar dos meus parceiros e preocupo-me que sejam relações win-win. Já cheguei inclusivamente, ao longo da minha carreira, a ter situações de alguma tensão com alguns superiores hierárquicos, por me recusar a “tratar menos bem” alguns parceiros, ou a liderar parcerias de forma menos transparente ou fair.
Acredito que, a longo prazo, o retorno de tratarmos com respeito os parceiros será maior do que ganhar ou poupar algum dinheiro no momento. E o meu percurso tem-me demonstrado que esta crença se confirma. Quando estou a pensar num projeto novo, penso em quem é que seria(m) a(s) pessoa(s) certa(s) para me acompanhar, quem tem o perfil ideal para o desafio e, por norma, sou eu mesma que faço a chamada, não peço à equipa que faça o contacto, e digo “preciso de ti neste projeto”.
E porquê? Porque preciso que o parceiro que está do outro lado do telefone escute a energia e convicção na minha voz, para que confie e se junte a mim. É das coisas que me dá mais prazer profissional: juntar a equipa certa, no momento certo e fazer acontecer alguma coisa, de preferência grande, impactante e única no mercado ou na empresa.
A juntar aos ingredientes já referidos ao longo deste texto, diria que uma certa dose de “loucura” também é saudável. Aprecio parceiros que me trazem ideias que, à partida, parecem absurdas, ou impossíveis, ou demasiado arrojadas. Por norma, destes brainstorms com “uma certa dose de loucura” surgem as melhores soluções.
Sinceramente, há coisas que não consigo compreender… não consigo perceber (e a idade cada vez me dá menos paciência) quando um potencial parceiro me solicita uma reunião e pergunta: “Quais são os seus desafios atuais, ou do próximo ano?” e ainda nem terminei a primeira frase e sou interrompida pelo mesmo, que começa literalmente a despejar todo o seu portfólio…
Começo logo a imaginar que, mais à frente, num projeto, quando surgir um momento em que não estamos satisfeitos com o output, que o mesmo ficará rígido, a defender por demasiado tempo as suas ideias, em vez de ter a flexibilidade para receber o feedback e ajustar… Confesso que fujo deste tipo de potencial parceiro, cuja capacidade de escuta é assustadoramente diminuta.
Outro estilo também incompatível com a minha forma de gestão é o “demasiado convencido”, isto é, aqueles parceiros que, por já terem tido sucesso em alguns projetos noutras empresas, ou por serem amplamente conhecidos no mercado, se julgam detentores da verdade e aos quais se deve prestar uma vénia… Não dá, meus caros… o mundo avança e a arrogância é uma perda de tempo.
Também há os “demasiado experts”, aqueles que se intitulam quase um “Deus” de algum tema específico e que não conseguem conceber que o cliente sequer considere a hipótese de saber tanto do tema quanto eles… ufff, que canseira…
Uma certa dose de “loucura” também é saudável.
Depois há, é claro, o estilo “demasiado ambicioso”, que só pensa em ganhar dinheiro com o projeto, deixando a qualidade para segundo plano e nos cobra sem terminar ou entregar o que ficou combinado. Não sei o que lhes passa pela cabeça… podemos pagar, mas nunca mais vamos querer voltar a trabalhar com essa empresa… não me parece sequer uma boa estratégia de negócio sustentável…
E há, ainda, os “contadores de histórias”, isto é, está demasiado evidente que cometeram um erro, ou que não estão a entregar o que ficou acordado, mas que conseguem usar toda uma retórica para justificar os factos injustificáveis… Perda do nosso precioso tempo…
Portanto, a escolha dos parceiros certos exige sensibilidade, estar atento aos pormenores, experiência, reciprocidade e, é claro, ter sorte. Eu tenho a sorte de estar rodeada por alguns dos melhores em Portugal, nas mais diferentes temáticas.
Mas, sobretudo, tenho a sorte de estar rodeada de seres humanos espetaculares, que inspiram e se deixam inspirar, que se levantam da cama com o mesmo propósito: fazer cada vez melhor. Não se costumam expressar votos entre parceiros, como se fazem nos casamentos, mas eu diria que os meus votos seriam “juntos até que a reforma nos separe”.