Por Tânia Simões, Head Nurse da MyCareforce
Entre o Dia da Liberdade e o Dia do Trabalhador há apenas seis dias no calendário. À primeira vista, celebram ideias distintas: o 25 de Abril recorda a conquista da democracia e dos direitos fundamentais; o 1.º de Maio afirma o valor social do trabalho e de quem o realiza. Para quem exerce enfermagem, porém, estas datas não correm em paralelo – cruzam-se de forma indissociável, porque falar de cuidar é também falar de liberdade, de dignidade e de condições de trabalho.
Ser enfermeiro é, antes de mais, escolher uma profissão que se alimenta da presença. Não se trata de uma atividade suspensível, adiável ou compartimentada no fim de um turno. A doença não aguarda conveniências, a dor não cumpre horários e a necessidade de cuidado não conhece feriados. Por isso, enquanto muitos celebram datas simbólicas junto da família ou em momentos de pausa, há sistematicamente enfermeiros a assegurar que ninguém fica sem cuidados de saúde.
Em Portugal, existem mais de 83 mil enfermeiros inscritos na Ordem dos Enfermeiros, o equivalente a cerca de 7,9 profissionais por cada mil habitantes, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística. Deste universo, quase 60% exercem funções em contexto hospitalar, com predomínio do setor público. Estes números revelam a dimensão demográfica da profissão, mas também a sua centralidade na resposta do sistema de saúde.
A realidade não é nova. Desde sempre, quem escolhe a enfermagem antecipa uma vida profissional marcada por horários irregulares, noites em claro e fins de semana passados em serviço. Trata-se de uma escolha que brota, com frequência, de um sentido profundo de missão. Contudo, missão não pode ser confundida com resignação.
O Dia do Trabalhador recorda-nos precisamente este princípio: cada profissão reclama reconhecimento, valorização e condições justas para o seu exercício. No caso da enfermagem, falar de trabalho implica falar de responsabilidade clínica, de tomada de decisão contínua e de uma proximidade humana que poucas profissões experimentam com igual intensidade. O enfermeiro é, muitas vezes, o primeiro rosto que o utente vê quando chega fragilizado e o último a quem dirige uma palavra antes de regressar a casa.
Mas ser enfermeiro é também habitar um equilíbrio delicado entre o cuidar dos outros e o cuidar de si. A pressão emocional, o desgaste físico e a exigência permanente fazem parte do quotidiano de milhares de profissionais. Basta atentar em números recentes para dimensionar os desafios: só em 2023, mais de 1.600 enfermeiros portugueses solicitaram à Ordem declarações com vista à emigração, procurando melhores condições de carreira e de trabalho noutros países.
Este fenómeno levanta uma questão essencial para o futuro da profissão e do próprio sistema de saúde: como assegurar que Portugal não apenas forma, mas também fixa os seus profissionais? É aqui que a ideia de liberdade ganha um significado acrescido. A liberdade conquistada enquanto comunidade política deve refletir-se na forma como valorizamos quem trabalha para garantir o bem-estar coletivo. Liberdade é poder exercer uma profissão com dignidade. É dispor de voz nas decisões que moldam o quotidiano laboral. É sentir que o esforço, frequentemente silencioso, é reconhecido.
Na enfermagem, essa liberdade traduz-se também em autonomia profissional, em conhecimento científico e na capacidade de intervenção que hoje caracterizam a profissão. Ao longo das últimas décadas, os enfermeiros conquistaram espaço, responsabilidade e reconhecimento enquanto profissionais essenciais à arquitetura do sistema de saúde. Ainda assim, permanece um caminho por consolidar.
Entre a liberdade e o trabalho existe um ponto de encontro que desenha com nitidez o perfil da enfermagem: o compromisso. Com os utentes, com as equipas e com a própria profissão. Todos os dias, em cada turno, em cada gesto de cuidado, há profissionais que convertem esse compromisso em ação concreta.
Talvez por isso estas duas datas ganhem um sentido tão coerente quando pensadas em conjunto. Porque a liberdade que celebramos só alcança o seu verdadeiro significado quando se materializa em dignidade laboral. E porque o trabalho de cuidar só pode ser plenamente exercido onde existem reconhecimento, respeito e condições que o sustentem.
No essencial, ser enfermeiro é viver nesta interseção permanente: entre o dever e a escolha, entre o sacrifício e a realização, entre a exigência do trabalho e a liberdade de saber que aquilo que fazemos produz um impacto real na vida das pessoas. Enquanto houver alguém que precise de cuidados, haverá um enfermeiro presente – mesmo nos dias em que o resto do país celebra. Porque cuidar é, também, um exercício de liberdade. E cuidar de quem cuida permanece a condição primeira para que essa liberdade não se apague.
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