O segundo dia do World Agility Forum foi dedicado à temática dos recursos humanos, contando com a experiência e conhecimento de diferentes profissionais de todo o mundo.
Na sala Macau, do Museu do Oriente, em Lisboa, foi discutido o papel dos recursos humanos no futuro organizacional e como a Inteligência Artificial pode alterar esse papel.
Ao mesmo tempo, participantes do World Agility Forum tiveram a oportunidade de visitar workshops organizados por alguns dos speakers, enfatizando a interação com o público.
Avançar sobre o desconhecido
Avançar sobre o desconhecido e a importância do trabalho de equipa colaborativo foi aquilo que guiou Carol McEwan, embaixadora e Strategic Advisor na iObeya.
Falando sobre a sua primeira experiência de trabalho, em que a aprendizagem conjunta e a implementação de um melhoramento sequencial das práticas permitiu que ocorresse a requalificação e transição tecnológica de uma empresa dentro do prazo, McEwan admitiu que é ingénuo acreditar que todas as organizações funcionam assim.
“Apesar de nós termos princípios e práticas para trabalharmos de uma forma, nem todas as organizações trabalham dessa forma”, explica Carol McEwan.

Citando Dan Caruso, Carol McEwan refere que a mudança organizacional acontece quando se ajuda equipas a entenderem o seu sentido de propósito e que é algo que vai além do sucesso da companhia.
Igualmente no espírito de avançar sobre o desconhecido, a necessidade de se ser criativo é para René Massatti uma das competências mais importantes e valorizadas no século XXI. “O que acontece é que, com a forma que as organizações estão estruturadas, nós não conseguimos trazer novo talento, as pessoas saem das organizações e estas também perdem o seu talento”, reforça.

Para René Massatti, co-fundador da PLAYROOM by Edding, parte do problema surge na falta de espírito crítico, que não é desenvolvido nas empresas e nas universidades.
“Se as pessoas forem treinadas para fazer as questões certas é um grande alívio e as organizações ganham mais com isso. A parte criativa vem de forma fácil e a solução também”, afirma René Massatti.
Igualmente atenta às questões da criatividade e individualidade de cada pessoa, Sonja Blignaut acrescentou a temática da complexidade humana. Tal como cada estrutura organizacional é complexa, cada pessoa é altamente complexa e Sonja Blignaut observa que muitas organizações não se apercebem desse facto.

“O grande problema é que muitos de nós atuam de forma estrutural e isso deixa-nos presos. Por exemplo, lógica é algo inerentemente humano, porque é um complexo grupo de comportamentos e estruturas”, explica Sonja Blignaut, Cofundadora da Complexity Fit.
Natural de Joanesburgo, na África do Sul, Sonja explica que as pessoas, nos ambientes socioeconómicos em que coexistem, não se dão ao luxo de se “perderem” e tomarem riscos.
“Nós gostamos das conveniências, gostamos das certezas. E isso cria uma relação adversa com a complexidade. Tentamos, por vezes sem sorte, domar a complexidade como se conseguíssemos. Complexidade é o contexto em que atuamos dentro e fora. Basicamente, a complexidade é a vida”, sublinha Sonja Blignaut, Cofundadora da Complexity Fit.
Na perspetiva de encorajar a complexidade, Sonja refere que é necessário criar contextos que levem as pessoas a praticar COOL: ter coragem (Courage); estar aberto (Openness) à novidade e a mudança; observar (Observing) os que prendem o desempenho; e ser leve (Lightness), como forma de incentivar a criatividade.
Como as lideranças estão a falhar
Quando Nigel Thurlow subiu ao palco da Sala Macau para falar sobre os desafios da liderança, não teve retenção nas palavras. Preferindo falar do que considera ser “trabalhos da treta” (bullshit jobs, em inglês) e de como as lideranças falham nas empresas.
“O que acontece muitas vezes é que nós não temos um problema metodológico, mas sim um problema de comportamento. Líder é um conceito individualista, enquanto liderança é um conceito coletivo”, explica Nigel Thurlow, CEO interino na “The Flow Consortium”.

Para Nigel Thurlow, “trabalhos da treta” são as posições ocupadas por pessoas que se limitam a cumprir objetivos, resolvem problemas de forma temporária ou que distribuem mais trabalho por pessoas que já estão muito ocupadas.
“Agile é sobre partilhar tarefas, distribuir a liderança, escolher o modelo de financiamento, desenho organizacional, etc. Mas, muitas vezes, as lideranças não investem o tempo necessário para reconhecer os problemas ou mudar os seus comportamentos. Se as lideranças não gostam do resultado, tem de alterar os seus comportamentos”, sintetiza.
Thrulow também acrescentou que ao usar as ferramentas certas no contexto errado, uma pessoa gasta mais recursos e mais dinheiro. “Até que as lideranças reconheçam qual é o problema que precisa de ser resolvido, não existe necessidade para soluções”, conclui.
Organizações saudáveis necessitam de cérebros saudáveis
A saúde mental foi também um dos tópicos discutidos no World Agility Forum, com Delia McCabe a apresentar um painel sobre a importância de pessoas mentalmente saudáveis nas organizações. Especializada em neurociência, McCabe entende que toda a mudança é “mudança cerebral” e que nada acontece sem a mesma.

“A verdade é que, com esta mudança, a maioria dos cérebros das pessoas estão exaustos e isso está ligado igualmente ao coração. O cérebro é o maior órgão que temos e, como tal, o coração tem que se desenvolver ao mesmo tempo que ele. Logo, a falta de exercício e atividades que possam mover mais oxigênio e sangue para o cérebro, particularmente no mundo do conhecimento, é preocupante”, explica a psicóloga.
“O que sabemos sobre doenças cardiovasculares é que pessoas com stress pós-traumático, desordem bipolar e exaustão estão mais sujeitos a doenças relacionadas com o coração”, acrescenta Delia McCabe.
Uma parte do cérebro que sofre particularmente é o cortex pré-frontal, que reage ativamente ao que a pessoa sente e pensa, mas, ao mesmo tempo, é a “máquina do tempo do cérebro”.
“O cortex pré-frontal reage às nossas ansiedade sobre o futuro e os nosso remorsos do passado. E o que acontece quando estamos cronicamente stressados é que não conseguimos tomar decisões ou interagir com outras pessoas”, avisa Delia McCabe.
McCabe afirmou que é necessário otimizar o cérebro para as mudanças que enfrentamos, sendo algo que afeta igualmente o discernimento e decisões das lideranças. Outros aspectos que também podem afetar a produtividade, de acordo com a psicóloga, é a falta de sono ou os doces, uma vez que estamos expostos a gastar mais energia para manter a atividade cerebral que o cérebro necessita.
“O café, por exemplo, aumenta a atenção mas reduz a criatividade. Ao mesmo tempo, estimula a resposta de emergência do nosso cérebro, criando mais stress”, sublinha.
O papel dos Recursos Humanos num mundo da Inteligência Artificial
Omnipresente no World Agility Forum foi o tema da Inteligência Artificial (IA), ao qual muitas das opiniões convergiram nos aspectos positivos e negativos das ferramentas.

Brian Rivera, autor do podcast “No Way Home”, moderou os dois “Town Halls” do dia, em que os speakers da manhã e da tarde reuniram-se e discutiram qual o papel dos Recursos Humanos na era da IA.
“Como persistem os sistemas humanos no tempo? Como percecionamos a realidade? Como sobrevivem as organizações?”, foram algumas das perguntas colocadas por Brian, que ao mesmo tempo é fundador do The Flow Consortium e um militar da marinha norte-americana na reserva.
Sonja Blignaut, Co-fundadora da Complexity Fit, começou por referir um facto sobre a IA: existem coisas que as máquinas não conseguem fazer. “Nós não precisamos de criar mais estruturas para melhorar o trabalho, mas precisamos de remover estruturas”, afirma.
Nigel Thurlow preferiu abordar as questões da IA através da questão da aprendizagem das ferramentas. “O tópico que muitas pessoas afirmam sobre a Inteligência Artificial é de que ela é muito inteligente. Mas, a IA está a aprender com base nos nossos comportamentos e nos nossos erros. Estes sistemas, ao serem aplicados nas empresas, começam a tomar decisões. E más decisões, na minha opinião”.

Pete Behrens, fundador e Leadership Coach na Agile Leadership Journey, quando questionado pelo público sobre o impacto da Inteligência Artificial nos empregos e nas lideranças, preferiu ser direto. “A Inteligência Artificial vai afetar tudo, de cima a baixo, nas estruturas organizacionais. No entanto, nós devemos separar o papel do ato de liderança. O que a IA pode fazer é criar importância para cada decisão e, por isso, não vejo que a liderança vá desaparecer”.
Outra pergunta colocada no Town Hall foi a possibilidade da Inteligência Artificial dar mais informação ou ajudar uma pessoa a obter mais informação que permita compreender o mundo. Algo que na opinião da psicóloga Delia McCabe não tem grande importância.
“Necessitamos de tanta informação? Eu sei que ficamos excitados quando descobrimos algo completamente novo. Mas, ao mesmo tempo, estamos exaustos com a quantidade absurda de informação a que temos acesso. A mente humana não consegue processar tanta informação em tão pouco tempo, porque cada decisão requer mais energia que não temos. Nós não precisamos de mais informação, precisamos de informação apresentada de forma diferente”, conclui.
“Estamos impressionados com a quantidade de pessoas que tivemos este ano”
Durante 22 e 26 de setembro, a sala Macau do Museu do Oriente acolheu perto de 300 participantes de todo o mundo, incluindo também os que preferiram assistir através dos meios digitais.

“Cerca de 60% dos nossos participantes este ano foram estrangeiros e, no geral, estamos impressionados com a quantidade de pessoas que tivemos este ano. Quebrou todas as expectativas”, afirmou Hugo Lourenço, CEO da Agile Thinkers.
Igualmente impressionados com a quantidade de pessoas no evento foram os próprios speakers, que manifestaram contentamento no regresso presencial do World Agility Forum.
“Eu valorizo muito estar aqui. Eu vim desde Dallas, nos Estados Unidos, porque gosto de estar presente. Eu perco o contacto e a interação humana estando online, especialmente numa questão de produtividade. Numa hora, através da partilha de ideias e algumas notas de post-it, conseguimos partilhar mais ideias e sermos criativos do que com um algoritmo e um telefone”, admite Nigel Thurlow, CEO interino na “The Flow Consortium”.
Já Sonja Blignaut, Cofundadora da Complexity Fit, afirma que é necessário mais de uma pessoa estar no mesmo espaço com outros, sendo a conversa um contexto importante. “Num contexto virtual, nós temos mais ferramentas para remover o contexto da conversação”, explica, acrescentando que estes eventos dão a oportunidade de interagir com contextos de outros países.