O
seguro de saúde tornou-se um dos benefícios mais valorizados pelos trabalhadores, mas também um dos mais difíceis de gerir pelas empresas. Foi este o ponto de partida do webinar “Seguro de saúde para empresas: como preparar uma renovação equilibrando custo e valor para os colaboradores?”, promovido pelo iiRH/RHmagazine, com o apoio da Coverflex, esta quinta-feira, 15 de outubro. Moderado por Cristina Martins de Barros, Fundadora do iiRH e Diretora Editorial da RHmagazine, o encontro contou com a participação de Paulo Fradinho, Head of Insurance and Business Development da Coverflex, João Carp, Diretor de Compensação e Benefícios da Celfocus, e Bruno Nereu, Total Rewards Principal da Hovione.
De acordo com um estudo de benchmarking realizado pela Coverflex, os custos dos seguros de saúde registam um aumento de 6,3% em 2026. Embora represente um abrandamento face aos 10,3% do ano anterior, a subida continua a superar a inflação geral, que rondava os 3,1% em agosto e setembro. A pressão resulta de vários fatores, desde o aumento dos custos dos atos médicos à evolução dos tratamentos disponíveis, passando pela maior utilização dos serviços privados de saúde.
Dados da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões apresentados por Paulo Fradinho, mais de quatro milhões de pessoas em Portugal têm seguro de saúde, sendo cerca de metade abrangida por seguros de grupo. Contudo, a dimensão das empresas influencia a capacidade de resposta aos aumentos. Nas organizações mais pequenas, os seguros são geralmente produtos predefinidos pelas seguradoras, com pouca margem para negociar preços ou coberturas. Nas empresas de maior dimensão, os contratos podem ser desenhados à medida.
Para o Head of Insurance and Business Development da Coverflex, olhar apenas para o preço pode sair caro. “O seguro de saúde é muito mais do que o seguro. É um serviço que é experienciado pelas pessoas”, sublinhou, alertando para o risco de uma escolha financeiramente vantajosa acabar por prejudicar a experiência dos colaboradores.
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Na Celfocus, o seguro de saúde abrange cerca de 1.700 pessoas, incluindo os colaboradores e respetivos familiares. A empresa passou a renovar a apólice entre maio e abril, evitando a concentração de negociações no final do ano e procurando garantir maior disponibilidade das seguradoras.
Contudo, a mudança não resolveu o desafio dos prazos. Segundo João Carp, entre a receção dos dados de nove meses de sinistralidade, a consulta ao mercado e a aprovação pela administração, a empresa dispõe habitualmente de cerca de um mês para concluir o processo.
A Celfocus simplificou também a oferta. Depois de ter disponibilizado vários planos, incluindo a possibilidade de os colaboradores escolherem coberturas inferiores às financiadas pela empresa e canalizarem o valor remanescente para outros benefícios, passou a privilegiar um plano base com opções de melhoria. A multiplicidade de alternativas dificultava a comparação de propostas e a gestão do seguro, além de favorecer a escolha de coberturas em função das necessidades de utilização previstas.
O agravamento dos custos tornou essa simplificação ainda mais relevante. “Os custos têm-se mantido bastante altos todos os anos e a utilização por parte das pessoas também se tem mantido muito alta”, explicou João Carp, contrariando a expectativa inicial de que a pressão sentida durante a pandemia seria temporária.
Outra alteração foi antecipar o contacto com potenciais seguradoras. Em vez de esperar pela renovação para conhecer as alternativas, a empresa começou a reunir-se com outros operadores meses antes, procurando avaliar também aspetos operacionais que nem sempre são evidentes nas propostas comerciais.
Na Hovione, o seguro de saúde contempla cerca de 4.400 pessoas em Portugal, incluindo colaboradores, cônjuges e filhos. Bruno Nereu explicou que a empresa avalia quantas pessoas utilizam cada cobertura, quanto gastam e com que frequência atingem os limites contratados. Hospitalização, ambulatório, estomatologia, parto e próteses são algumas das áreas acompanhadas.
A informação permite identificar onde é necessário reforçar a proteção e onde pode existir margem para ajustar os limites. “Se há coberturas cujos limites não estão a ser atingidos, podemos, eventualmente, até afinar e reduzir, em alguns casos, para poder ganhar em outros”, referiu.
Quando esses ajustamentos implicam aumentar franquias ou copagamentos, a forma como são comunicados torna-se decisiva. “A melhor estratégia parece-me que é sempre a transparência e a frontalidade”, afirmou Bruno Nereu. Explicar os motivos das alterações e apresentar alternativas, como a medicina online, ajuda os colaboradores a compreender as decisões.
Mas há despesas que não podem ser evitadas com prevenção ou telemedicina. É o caso de intervenções cirúrgicas e tratamentos oncológicos, capazes de fazer disparar a sinistralidade de uma apólice.
Na Celfocus, o acompanhamento passou a ser trimestral, permitindo identificar antecipadamente os consumos com maior impacto financeiro. João Carp destacou que o envelhecimento dos colaboradores tem contribuído para uma maior prevalência de doenças e intervenções complexas. “Não são precisos, infelizmente, muitos casos de oncologia ou cirurgias graves para passarmos daqueles rácios que falava o Paulo no início”, alertou.
A distinção entre episódios pontuais e situações prolongadas é particularmente importante. Uma cirurgia pode representar uma despesa elevada num único ano, enquanto um tratamento oncológico pode estender-se por vários períodos. Conhecer esta diferença ajuda a preparar as negociações e a antecipar as necessidades orçamentais.
Na Hovione, Bruno Nereu defendeu igualmente a análise de vários anos de sinistralidade. Um episódio excecional de hospitalização não significa que o mesmo nível de despesa se repetirá, argumento que pode ser utilizado na negociação com a seguradora. A prioridade, sublinhou, deve ser garantir que os colaboradores continuam protegidos quando enfrentam situações clínicas mais graves, precisamente aquelas em que os custos podem ultrapassar a sua capacidade financeira.
Saúde mental também pesa nas decisões
As coberturas de saúde mental ganharam relevância no período pós-pandemia, mas os participantes defenderam que o apoio psicológico deve fazer parte de uma estratégia mais abrangente de bem-estar. Na Celfocus, esse apoio já existia antes da pandemia, através de soluções complementares ao seguro. Na Hovione, a abordagem inclui também a prevenção de fatores que podem afetar a saúde psicológica, como as dificuldades financeiras.
Bruno Nereu chamou ainda a atenção para o impacto destas patologias no absentismo, frequentemente associado a ausências prolongadas. Investir na prevenção e no tratamento pode, assim, evitar consequências para os trabalhadores e custos adicionais para as organizações.
Paulo Fradinho destacou outra dificuldade: o preço das consultas de psicologia, sobretudo quando é necessário acompanhamento continuado. Para o responsável da Coverflex, disponibilizar acesso a estes cuidados através do seguro ou de programas de assistência aos colaboradores permite ultrapassar uma barreira financeira que ainda limita a procura de ajuda.
A tecnologia também está a transformar a gestão dos seguros. A digitalização e a inteligência artificial podem simplificar tarefas administrativas, como a atualização de beneficiários e a validação de faturas, libertando tempo para uma análise mais estratégica. Do lado dos trabalhadores, a facilidade em consultar coberturas, encontrar médicos e utilizar os serviços passou a fazer parte da avaliação do benefício.
Na reta final do webinar, os três participantes convergiram na importância de preparar as renovações com antecedência, embora as prioridades variem consoante a dimensão das empresas. Para as organizações mais pequenas, Paulo Fradinho recomendou uma comparação atempada dos produtos disponíveis, sem descurar as condições relativas a doenças preexistentes e períodos de carência. Nas maiores, aconselhou uma análise aprofundada da sinistralidade, das práticas de empresas comparáveis e da opinião dos próprios colaboradores.
João Carp defendeu que o contacto com seguradoras alternativas deve começar meses antes da renovação, mesmo que a empresa acabe por manter o contrato atual. A experiência da Celfocus mostrou que esse trabalho prévio melhora a capacidade de resposta num período de negociação habitualmente curto.
Já Bruno Nereu insistiu na necessidade de interpretar os dados no seu contexto e de ponderar as consequências de eventuais reduções de coberturas. Uma poupança imediata pode traduzir-se em maiores dificuldades para os colaboradores e, indiretamente, para a própria organização. “Não olhar apenas, de facto, para o seguro de saúde como um custo”, recomendou.
Assista ao webinar em: https://www.youtube.com/watch?v=xMcHJTeFSMs
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