Num mercado onde o trabalho híbrido já é regra, o regresso ao escritório passou a depender da experiência oferecida. Esta é a principal conclusão do Workforce Preference Barometer 2026, da JLL.
Dados do estudo revelam que 65% dos trabalhadores em Portugal estão abrangidos por políticas estruturadas de presença. Ainda assim, mais de 40% já trabalha cinco dias por semana no escritório, um dado que revela que, apesar da disseminação do híbrido, a prática continua a aproximar-se de modelos tradicionais em muitas organizações. A aceitação destas políticas mantém-se igualmente nos 65%, mas com uma nuance: depende cada vez mais da qualidade da experiência proporcionada no local de trabalho.
“Os colaboradores portugueses estão disponíveis para ir ao escritório – desde que isso melhore o seu dia a dia. Flexibilidade, equilíbrio e uma experiência de trabalho cuidada deixaram de ser benefícios adicionais e tornaram-se elementos essenciais para atrair, motivar e reter talento em Portugal“, afirma Andreia Almeida, Head of Research da JLL Portugal, em comunicado.
Metade dos trabalhadores identifica falhas no escritório
Em Portugal, um em cada dois trabalhadores considera que o espaço onde trabalha pode melhorar. A qualidade ambiental da zona envolvente, a identidade do bairro e a oferta de serviços são apontadas como áreas menos satisfatórias. Em contrapartida, a segurança e conectividade – nomeadamente acessos e mobilidade – continuam a ser os atributos mais valorizados, em linha com o resto da Europa.
Ainda assim, os trabalhadores portugueses apresentam níveis globais de satisfação superiores à média europeia, destacando como fatores positivos a colaboração com colegas e, de forma particularmente expressiva, a socialização e o gosto de estar no espaço, bem como a ligação à cultura da empresa.
Benefícios mudam
O estudo revela também uma reconfiguração clara das prioridades dos colaboradores. Por cá, o benefício mais valorizado é o apoio à mobilidade, com destaque para transporte gratuito ou subsidiado. Seguem-se serviços relacionados com saúde e alimentação, refletindo uma crescente preocupação com o bem-estar no contexto laboral.

Essa tendência confirma-se nos critérios de retenção: 71% dos trabalhadores consideram o equilíbrio entre vida profissional e pessoal como o fator mais determinante para permanecer numa empresa, ultrapassando a remuneração (64%).

Flexibilidade aquém das expectativas
Apesar da adoção generalizada do trabalho híbrido, os dados revelam um desalinhamento entre oferta e expectativa. Enquanto 58% dos trabalhadores gostaria de ter horários mais flexíveis, apenas 42% afirma ter essa possibilidade. A imposição de dias fixos no escritório é um entrave para 35% dos inquiridos, que manifesta um sentimento negativo em relação a essa obrigatoriedade, apontando como principal razão o impacto negativo na qualidade de vida.
O bem-estar surge como um dos principais riscos para a retenção. Em Portugal, 57% dos trabalhadores que ponderaram sair de uma empresa indicam o burnout como uma das razões, embora a procura por melhores condições salariais continue a liderar os motivos de mudança. Este dado reforça a pressão sobre as organizações para repensarem não apenas os modelos de trabalho, mas também as condições em que estes são implementados.
“Melhorar a experiência no escritório, reforçar as condições de bem-estar e investir em verdadeira flexibilização são hoje prioridades estratégicas. As empresas que o fizerem estarão mais bem posicionadas num mercado de talento altamente competitivo, onde o imobiliário assume um papel decisivo”, sublinha Andreia Almeida.
Também Sofia Tavares, Head of Leasing Advisory da JLL, reforça esta opinião. “Num contexto de estabilização do modelo híbrido, as empresas que investirem na melhoria do ambiente de trabalho – desde o edifício à localização, passando pelos serviços e pela conectividade – estarão mais bem preparadas para atrair talento e sustentar políticas de presença. A qualidade do escritório deixou de ser apenas uma infraestrutura operacional e passou a ser parte integrante da proposta de valor das organizações.”
A responsável acrescenta ainda que “os dados revelam que os portugueses estão disponíveis para regressar ao escritório, mas apenas quando isso faz sentido e melhora o seu dia a dia”. “O mercado imobiliário tem aqui uma oportunidade clara: criar espaços que respondam às necessidades funcionais, mas que também inspirem, promovam bem-estar e reforcem a cultura organizacional. Com uma força de trabalho mais exigente e uma valorização crescente da experiência no escritório, entramos num novo ciclo do mercado corporativo, em que o foco passa definitivamente do espaço enquanto infraestrutura para o espaço enquanto experiência”, refere ainda.
O estudo baseia-se em 8.700 inquiridos distribuídos por 31 países, incluindo cerca de 200 em Portugal. No contexto nacional, 74% dos participantes pertencem ao setor privado e 26% ao setor público. As áreas tecnológicas representam 18% da amostra, seguidas pelos serviços financeiros, banca e seguros (8%), com participação também de setores como consumo, energia, logística, automóvel, telecomunicações, transportes, saúde, educação e indústria. Geograficamente, Lisboa concentra 56% dos inquiridos e o Porto 29%, sendo que cerca de metade dos participantes se encontra na faixa etária entre os 30 e os 50 anos.
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