Autora: Ana Vargas Santos, autora do livro Atenção na Era da Distração, um guia prático para proteger e recuperar a atenção, dentro e fora do trabalho
Naquela que poderá ter sido a última página que escreveu nos seus cadernos, Leonardo da Vinci procurava resolver um problema de geometria que havia abordado diversas vezes ao longo da vida. Aos 67 anos, a curiosidade continuava a guiar as suas explorações.
Perto do final da folha, interrompeu subitamente as suas reflexões e explicou a razão: “Porque a sopa está a ficar fria”. A partir da última linha escrita que lhe conhecemos, podemos imaginar que da Vinci estava em flow – de tão absorvido no quebra-cabeças que tinha em mãos, tinha deixado passar a hora de jantar.
“Flow” é o termo cunhado pelo psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi para descrever uma experiência de imersão e concentração profunda numa tarefa, a ponto de nos fazer perder a consciência do tempo e de nós próprios. Entramos em flow quando investimos a nossa atenção em algo que nos importa e fazemos um esforço voluntário para realizar uma tarefa difícil, mas alinhada com as nossas capacidades.
Trata-se de uma experiência importante do ponto de vista do foco e da motivação porque, quando nos dedicamos a objetivos claros, realistas e significativos, somos mais capazes de suster a atenção e de resistir a distrações. Além disso, é um estado associado a sentimentos de entusiasmo, alegria e expansão criativa.
Porém, alguns estudos indicam que esta experiência poderá ser pouco frequente no domínio profissional. A Professora Gloria Mark, que se tem dedicado ao estudo do comportamento humano na relação com a tecnologia e que escreveu um importante livro de divulgação científica sobre o tema da atenção, considera que é, hoje, muito difícil ter experiências de flow no trabalho, sobretudo quando ele se baseia em conhecimento, é feito através do computador e envolve múltiplos projetos e tarefas.
Na sua perspetiva, o estado de flow está reservado aos artistas como Leonardo da Vinci, ou a atividades de lazer pontuais, como ouvir música, tocar um instrumento, praticar desporto ou fazer artes manuais. A experiência de atenção no espaço digital, argumenta, tende a ser demasiado curta e dinâmica para permitir estados de flow.
No entanto, ainda que Csikszentmihalyi tenha descoberto a experiência de flow ao investigar o que sentiam as pessoas que dedicavam a maior parte do seu tempo às suas atividades preferidas – artistas, atletas, músicos, jogadores de xadrez e cirurgiões -, estudos subsequentes permitiram validar o conceito de forma transversal a profissões, géneros, idades e culturas.
E, embora se tenha concluído que algumas das atividades que produzem flow de forma mais consistente são o desporto, os jogos, a arte e os hobbies, Csikszentmihalyi apontou, também, um caminho para a experiência de flow no trabalho: garantir que existe variedade, desafios adequados e flexíveis, objetivos claros e feedback imediato.
De acordo com a sua pesquisa, as pessoas que eram capazes de criar experiências de flow no âmbito profissional eram aquelas que reconheciam oportunidades de agir onde outros não as viam, que lhes dedicavam a sua atenção e que desenvolviam competências na sua resolução. Que encontravam no trabalho quebra-cabeças que lhes interessava resolver.
Que dizer, então, de profissões mais indiferenciadas? Existirão oportunidades de flow no exercício de funções de limpeza, por exemplo? Num estudo que incidiu sobre equipas de limpeza em hospitais, e em que os colaboradores introduziram voluntariamente novos desafios nas suas funções, verificou-se um impacto positivo nos seus níveis de satisfação com o trabalho e na imagem que tinham das suas próprias competências. As investigadoras responsáveis pelo estudo, Amy Wrzesniewski and Jane Dutton, propõem que, quando os colaboradores reconfiguram as suas responsabilidades, o trabalho pode adquirir um novo significado.
Assim, creio, não será a natureza do trabalho que inibe ou promove as experiências de flow, mas sim o grau de autonomia para configurar as suas tarefas, o nível de alinhamento face ao propósito das mesmas e a oportunidade de exercer as suas competências com um nível de desafio adequado.
Entre os obstáculos a uma experiência de flow identificados por Mihaly Csikszentmihalyi, estão condições internas aos indivíduos, como distúrbios de atenção ou elevados níveis de auto-consciência, e condições do contexto, como a ausência de regras claras ou a imposição de tarefas que não têm significado para as pessoas, ou que vão diretamente contra os seus objetivos.
O que fazer, então, para promover experiências de flow no trabalho?
- Definir objetivos claros e relevantes para a pessoa;
- Garantir que as tarefas são concretizáveis, ou seja, que as capacidades da pessoa estão alinhadas com os desafios da situação;
- Verificar que as tarefas permitem obter feedback imediato;
- Assegurar que existem condições para que a pessoa se possa concentrar no que está a fazer;
- Gerar o espaço de autonomia necessário para que a pessoa sinta que tem controlo sobre as suas ações.
Com o aumento previsto da esperança média de vida, resolver desafios complexos aos 67 anos poderá deixar de ser uma idiossincrasia reservada a génios renascentistas e passar a fazer parte da realidade profissional do dia-a-dia. Para que isso seja possível, caberá a cada um de nós cultivar a curiosidade e a aprendizagem ao longo da vida e às organizações criar espaços seguros para perseguir objetivos relevantes com autonomia e criatividade.
REFERÊNCIAS
Csikszentmihalyi, M. (1990). Flow: The Psychology of Optimal Experience. Harper and Row.
Hari, J. (2021). Stolen Focus: Why You Can’t Pay Attention – and How to Think Deeply Again. Crown.
Isaacson, Walter. (2012). Leonardo da Vinci. Simon and Schuster.
Mark, G. (2023). Attention Span: A groundbreaking way to restore balance, happiness and productivity. Hanover Square Press.
Wrzesniewski, Amy &; Dutton, Jane. (2001). Crafting a Job: Revisioning Employees as Active Crafters of Their Work. Academy of Management Review. 26. 179-201.