Os objetivos da direção da APESPE RH, para os próximos quatro anos, estão definidos e, segundo Afonso Carvalho, há que trabalhar muito a imagem institucional da Associação.
Os novos órgãos sociais da Associação Portuguesa de Empresas do Setor Privado de Emprego e de Recursos Humanos (APESPE RH) foram eleitos no início do ano, conforme noticiou o InfoRH, e agora é tempo de anunciar os seus objetivos para o próximo quadriénio. Afonso Carvalho mantém-se como presidente da direção da APESPE RH e é ele que, em entrevista, dá voz à Associação, que representa os seus associados e que espera virem a ser em maior número em breve. Depois de, em junho, o Governo ter apresentado um conjunto de medidas que “iriam contribuir para uma maior rigidez do mercado de trabalho”, o presidente da APESPE RH revela que o diálogo social com os principais organismos tem corrido bem. Sensibilizar, clarificar e informar é o trabalho que Afonso Carvalho considera ter de ser feito.
Os novos órgãos sociais da APESPE RH tomaram posse no início do ano. Que objetivos definiu a direção da Associação, onde se mantém como presidente, para o próximo quadriénio?
Diria que o principal objetivo é dar mais visibilidade ao que fazemos, explicando em que é que consiste a atividade dos nossos associados e não estamos a falar só de empresas de trabalho temporário e de outsourcing. Falamos, também, de empresas de formação, consultoria, recrutamento e seleção. Há uma escassez muito grande de informação em relação ao trabalho dos nossos associados, porque os dados não são públicos. Temos de ter informação disponível sobre quantas recrutamos em nome dos nossos clientes para os seus quadros e os seus salários. É uma necessidade que sentimos, até porque alguns parceiros internacionais fazem-no numa base semanal. Estabelecemos, por isso, uma parceria com o ISCTE, para criarmos o Barómetro do Trabalho Temporário, que é uma das nossas atividades mais expressivas. Já publicámos os primeiros barómetros e agora começa a ser mais transparente essa atividade também do ponto de vista numérico.
Queremos alargar o nosso leque de atividades. Fazem-nos falta mais associados de pequena e média dimensão. Temos de criar valor, também, para estes associados e trabalhar muito a imagem institucional da Associação, porque têm tentado constantemente que seja denegrida, sem grande fundamentação. Para dar um exemplo, normalmente, quando saem as estatísticas do INE, ou outras, somos englobados em contratação precária e a lei distingue, claramente, aquilo que é o nosso setor de atividade. Uma vez mais, o trabalho temporário não é contratação a termo, não são recibos verdes, é trabalho temporário. Os trabalhadores temporários estão muito bem defnindos e isso é uma corrida de fundo que temos de continuar a incetar. Iremo-nos centrar no diálogo social junto dos organismos principais, que temos feito e que tem corrido bem. Precisamos, enquanto associação, de ter alguém, que se dedique de alma e coração à APESPE e a tempo inteiro. É primeira prioridade operacional e, na nossa opinião, vai ser aquilo que vai ditar o sucesso deste mandato. Já estamos, inclusive, a ver algumas coisas a acontecerem.
Que contributo pode a APESPE RH dar ao setor privado de emprego em Portugal, para a construção de um setor cada vez mais transparente e credível?
O primeiro é conseguirmos mais associados, mais uma vez do diferente portefólio que temos, começando por aqueles que são menos expressivos, como a consultoria, a formação, recrutamento e seleção. Acho que também aumenta a credibilidade do setor. É importante que esses associados vejam na Associação um pólo aglutinador. É mais fácil falar a uma só voz junto dos parceiros sociais, por exemplo, do que estar tudo desfragmentado e é o que acontece. Se for, hoje, uma empresa de pequena, média ou grande dimensão, de formação, recrutamento ou seleção, não tenho força, e quando digo não tenho força é se quiser fazer um périplo ou um roadshow pela Assembleia da República, para poder explicar aos diferentes partidos qual é o nosso trabalho, porque acho que é assim que se credibiliza um setor, ninguém me recebe. O que temos feito, por exemplo, relativamente ao trabalho temporário, é este percurso. Recentemente, estivemos com o Secretário de Estado do Emprego, Miguel Cabrita, quando estavam previstas algumas alterações à legislação laboral que iriam afetar, e que afetaram, o trabalho temporário. O nosso trabalho foi de sensibilização, explicar o que existe e não é o que existe só para a nossa conveniência. É o que existe para as diferentes empresas utilizadoras, o que é que as empresas, conforme o setor de atividade, estão a sentir, porque, normalmente, quando se cria uma lei é uma lei genérica, um modelo que serve a todos. Tentamos explicar que o setor de hotelaria se calhar não consegue viver com esta de tipologia de contratos, os contact centers a mesma coisa, mas com os serviços é diferente. Esse é o grande trabalho da Associação – informar e clarificar.
Temos de trabalhar muito a imagem institucional da Associação, porque têm tentado constantemente que seja denegrida, sem grande fundamentação.
Como é que pensam aumentar o número de associados?
Acho que fomos algo tímidos no passado, porque também não nos queríamos expor demasiado. Foram tempos turbulentos, em que fez mais sentido estarmos a trabalhar na sombra, mas isso também provoca algumas críticas de associados e não associados. Acho que, neste momento, é preciso dar mais visibilidade ao trabalho que temos feito em bastidores, se calhar a maior parte das pessoas não faz ideia que fomos a cada partido da Assembleia da República explicar o que fazemos, aos sindicatos e outros organismos. Neste momento, estamos a trabalhar com a nossa empresa de comunicação para podermos colocar a nossa oferta junto de mais associados. Há algumas variáveis que fazem com que valha a pena ser associado, mas, como todas as associações, temos as nossas dificuldades. O associativismo vive tempos difíceis e nós não somos exceção. O nosso programa eleitoral tem propostas de valor muito concretas.
Em junho, o executivo apresentou um conjunto de medidas que, de acordo com a APESPE RH, iriam contribuir para uma maior rigidez do mercado de trabalho. Que resultados tiveram as conversações com o Governo, que diz terem corrido bem?

Costumo usar uma expressão que não é minha, é de um dirigente associativo português, que diz que trabalha para minimizar os estragos. Acho que também temos de ter os pés bem assentes na terra. Temos uma dimensão importante no setor empresarial português, mas somos o que somos e a capacidade de influência é relativa. É importante ter essa consciência, mas dou-lhe alguns exemplos, temos no Governo uma associação de partidos, sendo que um deles tem no seu programa eleitor erradicar por completo as empresas de trabalho temporário e tem feito disso cavalo de batalha. Como é que medimos o sucesso? O trabalho temporário continua cá e há no governo e fora dos partidos pessoas ou elementos que reconhecem as mais-valias deste setor. Acho que este último movimento, relativo à alteração do tempo de contratos, podia ter sido muito mais danoso não só para para nós, como para as empresas que se socorrem deste setor e não foi. Queremos acreditar que foi, também, por esta sensibilização que fizemos, mostrando que é importante em Portugal e o o que se tem passado pelo mundo fora.
Que mais-valias são essas?
Nós não somos só trabalho temporário e isto é um movimento muito interessante que acontece em todas as associações ou confederações a nível europeu, ou mundial. As pessoas também se aperceberem do nosso portefólio de serviços, que é muito mais completo. Arrisco-me a dizer, mesmo sem alguns dados, mas conhecendo a atividade dos associados, que, hoje, grande parte das pessoas que entram nas empresas é recrutada pelos nossos associados. Se uma grande empresa está a recrutar em Portugal, muitos desses recrutamentos são feitos pelos nossos associados. Hoje, a maioria das empresas oferece este portefólio de serviços de recursos humanos que é muito 360.º. Se precisar de recrutar alguém diretamente, de certeza que há uma boa empresa para fazer isso. A mesma empresa pode até ajudar a fazer formação ou consultoria e desenvolvimento de RH, ou implementar uma equipa em outsourcing e a mesma coisa em trabalho temporário. Se olharmos para o tecido empresarial português, serão mais as exceções dos não utilizadores do que os utilizadores. Com a volatilidade que existe hoje são raras as empresas que não se socorrem deste serviço. Já se tornou uma ferramenta de gestão, sem a qual as empresas não podem passar e não é por vontade nossa, é porque o mercado dita a regra.
O trabalho temporário continua cá e há no governo e fora dos partidos pessoas ou elementos que reconhecem as mais-valias deste setor.
Dizia, na mesma altura, que os trabalhadores temporários em Portugal carecem de proteção. De que proteção necessitam?
Dentro da tipologia de contratos que existe em Portugal, por ventura os contratos de curta duração são aqueles, se quisermos dizer, que estão mais desprotegidos, apesar de estarem bem enquadrados na lei. É muito transparente aquilo que fazemos, o tipo de contrato que podemos oferecer, o que as empresas devem pagar, o que o trabalhador tem de descontar. Não digo desprotegido nesse sentido. Agora, acho que é preciso haver das autoridades competentes uma fiscalização efetiva daquilo que se faz, porque se é tão transparente que se fiscalize essa transparência. Quanto mais transparente é, mais fácil é de ver. É preciso é que alguém atue nesse sentido e que inspecione verdadeiramente as empresas, mas que não seja uma inspeção fácil, ou seja, ir sempre às mesmas, fiscalizar sempre as mesmas coisas, porque há garantia que cumprem ou, se não cumprirem, têm a capacidade de pagar uma coima rapidamente. É preciso mudar esta direção, porque a lei é clara. Um utilizador é corresponsável pelo que se passa neste portefólio de serviços, por isso porque é que é tão difícil inspecionar?
Como é se caracteriza o setor privado de emprego e de recursos humanos em Portugal?

Ainda não temos dados muito concretos. É-me neste momento difícil dizer quantas empresas de recrutamento e seleção, consultoria ou formação existem. É mais fácil dizer quantas empresas de trabalho temporário existem, porque são obrigadas a cumprir alguns requisitos, através do IEFP. Neste momento, oscilam entre as 270 e as 300 empresas com alvará, dessas cerca de 30 são nossas associadas. No universo de associados, representam mais de 85% do mercado. Mas faltam-nos mais associados, sobretudo de pequena e média dimensão, como dizia. Cada associado tem uma tipologia de necessidades. Uma multinacional terá uma necessidade, uma empresa de pequena dimensão, que só opera no mercado internacional, tem outra necessidade e, por isso, possivelmente precisa mais da APESPE para fazer força do ponto de vista de alguns temas mais fiscais. Ainda há um desconhecimento muito grande por parte dos organismos que tutelam esta atividade sobre o que significa colocar pessoas no estrangeiro. Falta, também, credibilizar, porque ainda se fazem alguns disparates no setor e queremos acreditar que as empresas que estão dentro da Associação são aquelas que seguem à risca aquilo que são não só os padrões éticos nacionais, mas também internacionais das confederações pelas quais nos regemos.