Autora: Catarina Ferreira, Learning and Development Partner da Mercer Portugal
Alguma vez parou para pensar sobre como realmente aprendemos? E não será necessário fazê-lo, ao saber que apenas 10% a 20% do que um colaborador recebe em formação é realmente aprendido e transferido para o seu dia a dia profissional? Qual o nosso papel, profissionais de L&D, gestores e líderes?
Em termos latos, a aprendizagem pode ser entendida enquanto o processo de mudanças cerebrais que nos permitem responder e comportarmo-nos em modos particulares. Neste, a ideia de que cada um é como é e assim permanecerá, está ultrapassada. “Eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim”… conhece esta canção? Bom, hoje em dia, é possível afirmar que este síndrome “Gabriela” não corresponde à verdade, e que todos nós somos seres em constante mutação, devido a um processo chamado neuroplasticidade.
A aprendizagem dá-se pela criação de novos neurónios e sinapses e pela extinção de outros. Procurando criar um quadro visual, podemos imaginar que cada nova aprendizagem realizada corresponde a um novo neurónio, quase como se cada um correspondesse a uma casa. Cada aprendizagem poderá e deverá ligar-se a outras aprendizagens, como quem diz a outras casas, que se conectam através de estradas chamadas, na realidade, sinapses. Está a visualizar o bairro da sua mente?
Quanto mais usarmos determinadas estradas e visitarmos determinadas casas, mais demarcadas estas ficam no terreno. Passamos uma e outra vez pela estrada que conecta as diferentes casas e esta começa a ganhar forma e decalque e, amanhã, quando for hora de revisitar essas casas e essas estradas, será mais fácil aceder-lhes (passará a ser um processo sempre mais automático). Por oposição, as casas não visitadas, ligadas pelas estradas não percorridas, acabam por se perder no terreno, escondidas no meio da vegetação – os neurónios e sinapses não usados acabam por se extinguir.
Assim, aprendemos, reforçamos uma aprendizagem, ou a esquecemos. Importante ainda reforçar que a informação chega até ao bairro, através dos nossos sentidos. Visão, audição, tato, olfato e paladar. Sabemos, hoje, que tanto mais rapidamente aprenderemos, quanto mais explorarmos o uso dos diferentes sentidos nas nossas iniciativas de formação.
Vamos lá, qual é a primeira aprendizagem chave a retirar daqui? Pode, desde já, tomar nota da relevância de, por um lado, criar pontes entre aprendizagens, associando novas aprendizagens a outras já consolidadas e, por outro e muito importante, como a repetição, uso e/ou evocação de uma nova aprendizagem é um dos processos pelos quais uma aprendizagem se consolida.
Em formação, podemos definir objetivos que se insiram no domínio do saber, ou no domínio do saber fazer, sendo que é importante compreender que, tanto num caso como noutro, ninguém aprende porque ouviu ou observou e é só quando colocamos “as mãos na massa” para experimentar, ou ainda que tão somente para explicar, repetindo-o uma e outra vez, é que o processo de aprendizagem está realmente a acontecer.
Ainda, desenhar os conteúdos com vista ao uso de múltiplos sentidos – usando imagens, vídeos, mindmaps, áudios, música, aromas, metáforas, objetos, alimentos, dinâmicas experienciais e de colaboração, etc. – será um importante suporte à consolidação da informação.
A percorrer essas estradas ou sinapses, no nosso bairro ou cérebro, estão diferentes veículos ou, no caso, neurotransmissores e hormonas. Pode procurar imaginar que se tratam de marcas de veículos. O Glutamato e a Seretonina são indispensáveis à criação de novas memórias – estes podem ser induzidos, por exemplo, pelo consumo de chocolate negro, frutas e verduras, mas também pela prática de atividade física, movimentação do corpo e pela troca de afeto.
A Oxitocina parece ser o veículo que nos permite pensar de forma mais expansiva e criativa – esta é considerada o químico do amor, porque, aparentemente, o contacto físico e a proximidade a figuras de quem gostamos aumentam os seus níveis.
A Noradrenalina ajuda-nos a prestar mais atenção – também podendo derivar de determinados alimentos, como leguminosas e oleaginosas, parece ser o veículo libertado em situações de presença de stress de curta duração, considerado stress positivo. A definição de metas e objetivos, competição, ou um deadline passível de concretizar podem ser formas de estimular este neurotransmissor.
E, por fim, a percorrer as estradas que ligam estas casas ou, por outras palavras, a percorrer as sinapses que conectam os nossos neurónios, pode estar, também, presente um veículo chamado Cortisol. O Cortisol é conhecido por muitos como o químico do stress, mas não do stress que nos ajuda a prestar atenção, mas sim daquele que nos bloqueia. O stress do leão que persegue a gazela.
Quando o Cortisol está presente, existe uma inibição da aprendizagem. Faz sentido em termos evolutivos que a nossa sobrevivência tenha primazia em relação à aprendizagem e parece ser isso que está em causa quando o Cortisol percorre as estradas do nosso bairro mental.
Ora, segunda paragem para revermos outras aprendizagens chave que advêm daqui: sabemos, agora, que existem diferentes neurotransmissores e hormonas com diferentes funcionalidades e que podemos inclusive procurar induzi-los ou inibi-los.
Para que uma aprendizagem se realize e consolide, para além de ativarmos vários sentidos, a conectarmos a aprendizagens anteriores, para além de a devermos reutilizar uma e outra vez, é ainda importante que prestemos atenção à forma como descansamos, nos alimentamos e movemos, aos níveis de stress percebidos, às relações com outros estabelecidas através de dinâmicas experienciais e/ou de cooperação, bem como à definição de objetivos e deadlines.
As nossas iniciativas de formação devem ser lugares seguros, com uma meta bem definida e conhecida pelos participantes, com espaço para troca e contacto social e, porque não, com uma pitada de competição. Ainda que se tratem de iniciativas em self-paced, virtuais, quanto mais oportunidades de intercâmbio social (através de fóruns de conversação, webinars de partilha, mecanismos de feedback, etc.) gerarmos, melhor.
Quando existe a conexão entre neurónios, através da estimulação dos neurotransmissores e hormonas, “faz se luz!”, literalmente. O nosso cérebro cria padrões elétricos perante o que entendemos como a chegada de uma nova ideia – os famosos momentos Eureka – mas também enquanto dormimos ou sonhamos. Estes impulsos elétricos variam em frequência, sendo que os mais lentos presentes enquanto dormimos se denominam de delta e os mais rápidos presentes nos momentos eureka se denominam de gamma.
Ora, criar jornadas de aprendizagem, ao invés de formações “one-shot”, é muito importante, porque é exatamente durante o sono que as nossas memórias se consolidam. Como saber se alguém aprendeu e cumpriu os objetivos definidos, se é quando esse colaborador regressa à sua casa que o processo se completa?
Funciona mais ou menos assim: as informações que são continuamente repetidas/evocadas/usadas/aplicadas são transferidas da memória de curto prazo para a memória de longo prazo, bem como as informações que surgem conectadas a uma forte ativação emocional. É no período de sono que o nosso cérebro aciona a brigada de limpeza, excluindo, assim, a informação que não parece ser relevante e transportando para o armazém da memória de longo prazo a informação que parece dever ser consolidada.
Outras partes do nosso cérebro têm particular relevância no que toca à aprendizagem. Vamos relevar duas: a amígdala e o córtex pré frontal. A amígdala faz parte do nosso cérebro primitivo, reptiliano, ao passo que o córtex pré frontal faz parte do nosso cérebro mais evoluído. Um influencia o outro, constantemente. A amígdala é como um polícia sinaleiro; afinal de contas todos os bairros têm que ter um sistema de proteção. Sempre que a amígdala deteta um possível perigo, aciona um alarme.
A amígdala processa as nossas emoções e uma forma de demarcar no terreno um caminho ou sinapse, ligando casas ou neurónios, é efetivamente através da ativação emocional. Se uma nova aprendizagem existe associada a uma forte emoção, há uma enorme probabilidade de que esta aprendizagem se consolide.
Quase como se o nosso cérebro processasse que essa aprendizagem é realmente muito importante de cristalizar, da mesma forma que por repetirmos uma e outra vez uma informação este assume que essa é relevante e deve ser consolidada.
O córtex pré frontal é, por sua vez, o órgão de administração e controlo do bairro. Afinal de contas, todos os bairros precisam também de alguém que possa geri-los. É responsável pela consciência e tomada de decisão e, assim, responsável pela decisão de aprender algo. Claro que nem sempre aprendemos só o que estamos dispostos a aprender mas, na tomada de decisão consciente, esta é a estrutura do nosso cérebro que nos permite fazê-lo.
O desafio nesta relação é que, quando a amígdala salta perante um estímulo aversivo stressante e se aciona o alarme, salta também o córtex pré frontal, inibindo uma nova aprendizagem, com veículos de Cortisol a inundar as estradas. Para nós, animais que somos, a sobrevivência terá sempre primazia, pelo que na leitura de uma situação que possa ser ameaçadora, aprender algo novo não é o mais relevante. O órgão de administração e controlo abstém-se, deixando a gestão do bairro ao órgão de proteção.
Faz todo o sentido em termos evolutivos, como já vimos, mas é um obstáculo quando estamos a tentar aprender. Por outro lado, induzir emoções consideradas positivas no processo de aprendizagem, segundo a teoria da Construção e Ampliação de Bárbara Frederickson, expande os nossos recursos cognitivos e sociais e auxilia em muito a cristalização de novas aprendizagens.
Ora, pontos principais deste último excerto: pela existência de uma estrutura cerebral bastante primitiva, qualquer aprendizagem estará dependente de que, no nosso bairro, se percecionem as condições ideais. Equivale isto a dizer que não é possível aprender perante a perceção de disstress quando, de alguma forma, a nossa sobrevivência parece estar ameaçada.
Por outro lado, emoções cientificamente conotadas como “positivas” parecem potenciar a aprendizagem pela expansão de recursos nos colaboradores. De que forma está a garantir que estes encontram em si, no grupo e no espaço ou contexto um lugar seguro e positivo? Está a fomentar alegria, surpresa, curiosidade, autonomia, confiança, competição, nos seus colaboradores? Sem o assegurar, todas as restantes estratégias parecem ficar comprometidas.
Em jeito de conclusão, uma pequena checklist que todos nós, profissionais de L&D, gestores e líderes, podemos querer considerar para validar se estamos a criar contextos de aprendizagem eficazes:
Pergunto a mim mesmo…
- Estou a criar um lugar seguro à aprendizagem? Ou seja, crio conexão, abro espaço para experimentação, apoio o erro, evito stress desnecessário?
- Conecto a nova informação com informação já consolidada? Ou seja, uso histórias e metáforas, trago exemplos que conhecem, pergunto o que já sabem sobre o tema, deixo-os experimentar e logo complemento?
- Desenho situações cujos diferentes sentidos são ativados? Ou seja, incluo vídeos, áudios, música, objetos, comida ou bebida, odores, atividades experienciais e de colaboração nas iniciativas de formação?
- Estou a criar uma jornada de aprendizagem (vs. intervenção one-shot)?
- Estou a desenhar uma jornada que permita ao colaborador elaborar a informação, experimentar, evocar e repetir, repetir, repetir?
- Os colaboradores são ativados emocionalmente, de forma positiva, ao longo da jornada de aprendizagem? Ou seja, experienciam mais emoções, como alegria, surpresa, curiosidade, autonomia, confiança, competição, por comparação a outras consideradas não tão interessantes em contexto de aprendizagem?
- Os colaboradores têm a chance de se conectarem a outros, trocar impressões e partilhar?
Quando comecei a trabalhar em formação, acreditava que a equação do sucesso teria que ver com dominar muito bem o conteúdo e criar apresentações que tivessem um elevado impacto. Durante anos, esse era o meu foco. Hoje, quando me perguntam se tenho algum arrependimento, digo que sim e menciono esta equação. Quantos “aprendizes” frustrados terei eu desenvolvido…
Sei, agora, que para criar contextos de aprendizagem, é preciso mais que isso. Quão mágico seria se, ao compreendermos e aplicarmos os princípios da aprendizagem, pudéssemos desbloquear o potencial de evolução em cada indivíduo, criando um mundo onde o conhecimento se expande e as oportunidades se multiplicam.
REFERÊNCIAS
Neuroscience for learning and development. Stella Collins
The six disciplines of breakthrough learning. Roy V. H. Pollock, Andy Jefferson, Calhoun W. Wick
Mindset: A nova psicologia do sucesso. Carol S. Dweck