Autora: Rita Soares, Head of People Recruiting, Development & Training no El Corte Inglés Portugal
P
oderia falar de vários autores, estudiosos desta temática que tanto interesse tem despertado ao longo dos tempos. Podia. E se o fizesse falaria de certeza de Ken Blanchard e da sua teoria da Liderança Situacional. As primeiras abordagens foram publicadas em 1969 e 53 anos depois continuam, ou são cada vez mais atuais. Defende esta teoria de que a eficácia do líder depende da adequação do estilo de liderança ao grau de maturidade dos liderados. E só por aqui se percebe que o foco se coloca no liderado, deixando (também) para o líder o desafio da adaptação, em concreto às necessidades do liderado, ao quanto e como este precisa de orientação. E eis que temos a palavra, quanto a mim, chave. Orientação. Porque liderar é isto, orientar. Simples, está-vos a parecer? Não, muito complexo. Muito mesmo. Se pensarmos que orientar não tem o mesmo significado nem o mesmo impacto para todos, identificamos onde começa o desafio. Já para não falar em questões como, “Orientar para quê? Para onde? Com que objetivo?”, etc.
Então, para falar de liderança, teria de continuar a citar estudos, autores e teorias. Mas não quero. O que quero é falar-vos de experiência. Da minha experiência. Como liderada e como líder. Aliás, não será a segunda fruto das influências da primeira?
Bom, e para falar de experiência, nada melhor do que fazê-lo ao sabor de um bom e quente café, sobretudo agora que o frio insiste em apertar e endurecer as articulações (e ainda bem que só as articulações).
Dizem por aí que o café tem inúmeros benefícios, e passo a citar: diminui o risco de insuficiência cardíaca, ajuda no emagrecimento (isto é bom), previne a diabetes, dá energia (muito útil, nos tempos que correm), combate a depressão, aumenta a expectativa de vida e, fico por aqui. Haveria mais. Mas fico por aqui nas citações.
Porque para mim o café significa proximidade, comigo própria, e com os outros. Quando quero fazer uma pausa no trabalho, paro para beber um café. Quando preciso de dar-me tempo, refletir, silenciar a azáfama do dia, paro para beber um café. Quando, por outro lado, estou a meio de um trabalho em equipa, presencialmente ou online, e a concentração começa a falhar, sugiro uma pausa para beber um café. Quando se quer ter uma determinada conversa, o que é que normalmente se diz “queres ir beber um café?”. E não é, muitas vezes, nesse momento do café que se resolvem ou previnem assuntos mais sensíveis, que não cabem numa mesa formal de reuniões?
Não posso comprovar as propriedades medicinais do café. Mas posso comprovar as suas propriedades emocionais. Todas estas de que me lembrei e tantas outras. E não é graças ao tipo de grão, ao fruto do cafeeiro ou à gramagem. É graças ao ato de beber café. Esse momento, que apesar de durar poucos minutos, é de verdadeira partilha e entrega, e que por isso une as pontas, as partes, as pessoas, no que elas sentem e pensam. Porque se entregam em comum ao objetivo que está por detrás daquela chávena. Porque se inspiram no seu sabor, no seu cheiro e principalmente naquilo que ele, café, consegue, sendo apenas um café.
Quente, mas que se bebe em qualquer estação. Informal sem perder carisma. Útil para tanto. Prejudicial se excessivo. Que une. Que gera consenso. Que produz ideias. Que inspira.
A origem, o aroma, o cheiro, já são sofisticações. O essencial continua o essencial. Aquece o coração de quem o bebe.
Tal como a Liderança.