Este mês um tema que me inquieta e perante o qual não consigo ficar alheia: a (des)igualdade de género. Vivemos numa era de profundas transformações sociais, onde, infelizmente, o debate sobre igualdade de género continua a ser relevante. Apesar dos avanços legislativos e culturais, persistem desafios significativos, refletidos em estatísticas nacionais e internacionais.
Motivada por uma formação que dei recentemente, voltei a atualizar-me sobre o tema e senti que tinha que partilhar convosco o panorama atual em Portugal, analisando a polarização de discursos sobre o papel da mulher e aprofundando o impacto das microagressões no contexto organizacional e social. Por fim deixo também algumas pistas para a equidade.
Estatísticas: Portugal, União Europeia e mundo
O Gender Equality Index (Índice de Igualdade de Género) é uma métrica desenvolvida para avaliar o progresso dos países em direção à paridade entre homens e mulheres. Em 2024, Portugal ocupa a 15.ª posição na União Europeia (UE), abaixo da média europeia, refletindo desafios na conciliação entre trabalho e vida familiar.
Principais indicadores (2024):
- Portugal: 68,8 pontos (em 100);
- Média UE: 71 pontos;
- Líderes europeus: Suécia (82), Dinamarca (78,8), Países Baixos (78,8).
Distribuição de responsabilidades e mercado de trabalho
Responsabilidades de cuidado: 43% das mulheres em Portugal cuidam diariamente de crianças, idosos ou pessoas com deficiência, contra 32% dos homens. Entre casais com filhos, 74% das mães vs 54% dos pais assumem cuidados diários.
- Tarefas domésticas: 73% das mulheres fazem tarefas domésticas diariamente, contra 43% dos homens;
- Taxa de emprego a tempo inteiro: 52% para mulheres, 61% para homens;
- Diferença salarial: mulheres ganham, em média, menos 174 PPS (Purchasing Power Standard) por mês que os homens;
- Representação em cargos de decisão: 35% dos membros de conselhos de administração das maiores empresas são mulheres;
Comparação Global
Segundo o Global Gender Gap Report 2024 do World Economic Forum, serão necessários 134 anos para atingir a paridade total a nível mundial. Apesar de progressos, a estagnação e polarização de discursos têm abrandado o ritmo de mudança. A Europa lidera o ranking global, mas mesmo assim enfrenta desafios estruturais, especialmente na conciliação e na participação das mulheres em cargos de liderança e setores STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
Polarização: feminismo vs. papel tradicional
Nunca é demais reforçar, afinal o que é o feminismo? O feminismo transporta muitas vezes uma carga negativa pela sua história ou por ser considerado como o oposto de machismo. Mas enquanto o machismo defende a superioridade masculina, quando falamos em feminismo estamos a defender a igualdade de acesso de ambos os géneros a todas as esferas da vida pública e privada, incluindo o acesso ao trabalho, progressão na carreira, remuneração justa e partilha de responsabilidades familiares, entre outras. E gosto sempre de reforçar que o equilíbrio não tem que estar nos 50-50, o equilíbrio, na minha perspectiva, está na possibilidade de escolha e acesso seja de quem for.
A era da polarização
Atualmente, vivemos uma era de polarização, onde coexistem defensores do feminismo e grupos que promovem o retorno ao papel tradicional da mulher, associado à submissão e à centralidade das tarefas domésticas e de cuidado. Além desta polarização se manifestar em debates públicos e redes sociais, entristece-me o facto desta polarização estar a chegar à nossa esfera privada e a convívio entre amigos. Não vos aconteceu já ficarem chocados com uma afirmação de um amigo sobre temas de igualdade e inclusão? Eu já, e é algo que me tem inquietado nos últimos tempos.
A polarização dificulta o diálogo construtivo e a implementação de políticas inclusivas. O resultado é uma sociedade dividida, onde me parece que estamos a dar passos atrás.
Microagressões: o impacto invisível
Tomei contacto pela primeira vez com o tema “microinequalities” ou “microagressões” numa formação de várias horas designada de “Inclusive Mindset” que todos tivemos que fazer na PwC e é com orgulho que sinto que estou numa casa onde se fomenta a diversidade e inclusão e existe muito espaço para o diálogo sobre este tema, deixo o link para quem quiser saber mais.
Microagressões são comportamentos, comentários ou atitudes subtis (por vezes aquelas piadinhas não intencionais) que transmitem preconceito ou hostilidade em relação a grupos minoritários, incluindo mulheres. Diferentes estudos com os quais me deparei mostram que as mulheres são mais frequentemente interrompidas nas reuniões, alvo de comentários condescendentes ou ainda, de assumirem que as mulheres estão menos disponíveis para cargos exigentes devido a responsabilidades familiares.
Caminhos para a equidade: boas práticas e recomendações
Deixo algumas iniciativas que podem ajudar no campo organizacional:
Assertividade: encorajar as pessoas a expressarem desconforto de forma clara e direta quando confrontadas com microagressões.
- Formação e sensibilização: promover sessões sobre vieses inconscientes e microagressões;
- Liderança inclusiva: incentivar líderes a adotar práticas de comunicação neutra e a valorizar a diversidade de opiniões;
- Políticas institucionais: implementar mecanismos de denúncia e acompanhamento de casos de microagressão e discriminação.
No campo individual deixo também algumas dicas a implementar no dia a dia:
- Utilizar linguagem inclusiva;
- Praticar escuta ativa e incentivar a participação equilibrada;
- Partilhar responsabilidades de forma justa e questionar práticas excludentes (costumo reforçar com algo do género: “Se o que vai dizer provocava desconforto junto de algum grupo não o diga mesmo que alguém desse grupo não pareça estar presente, pois o mais certo é estar a gerar desconforto a alguém sem se aperceber”);
- Se necessário, traçar um plano com ações concretas para promover a inclusão e combater microagressões.
A igualdade de género continua a ser um tema. Portugal tem feito progressos, mas ainda existem obstáculos significativos, refletidos em estatísticas e práticas do dia a dia. A polarização de discursos e a persistência de microagressões mostram que o caminho para a equidade é longo e requer vigilância, compromisso e coragem para questionar o status quo.
Por tudo isto, não consigo deixar de me sentir inquieta, sobretudo por sentir que não estamos a progredir. Obrigada também à Carolina Weil da minha equipa que partilha da minha inquietude e deixou valiosos contributos para esta reflexão.
Referências:
Global Gender Gap Report 2024, World Economic Forum
Gender Equality Index 2024 – UE
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