Quase uma em cada três empresas em Portugal está a demorar mais tempo a preencher vagas do que há um ano. A falta de candidatos com as competências necessárias continua a ser o principal entrave ao recrutamento, num mercado em que as intenções de contratação se mantêm positivas, mas onde encontrar os perfis certos está a tornar os processos mais demorados, segundo o ManpowerGroup Employment Outlook Survey relativo ao quarto trimestre de 2026.
Os dados revelam que 30% dos empregadores portugueses afirmam precisar agora de mais tempo para preencher as vagas em aberto. Por outro lado, 24% estão a recrutar mais rapidamente e 44% não registam alterações significativas face ao ano passado.
A situação portuguesa reflete a tendência global: 29% dos empregadores dizem estar a demorar mais tempo a contratar. Para 52% dos empregadores portugueses que estão a demorar mais tempo a preencher as vagas, a principal dificuldade está em encontrar candidatos com as competências necessárias para as funções. Outros 45% apontam a falta de profissionais qualificados no mercado local.
Portugal apresenta uma das taxas de escassez de talento mais elevadas entre os países analisados pelo ManpowerGroup. O Talent Shortage Survey 2026 indica que 82% dos empregadores nacionais têm dificuldade em encontrar os profissionais de que necessitam.
Contudo, a falta de competências não explica todos os atrasos. Cerca de 29% dos empregadores referem que estão a encontrar menos candidatos através de recomendações ou das suas redes de contactos, enquanto 20% apontam um desfasamento entre aquilo que os candidatos esperam e os requisitos das funções disponíveis.
A nível global, as dificuldades repetem-se, embora com menor expressão: 39% das empresas apontam a falta de candidatos com as competências necessárias e 34% a dificuldade em encontrar profissionais qualificados no mercado local.
Comércio, indústria e hotelaria sentem mais dificuldades
O problema vive-se em praticamente todos os setores, mas é mais notório naqueles que dependem de competências técnicas e operacionais. Entre as empresas que estão a demorar mais tempo a contratar, 59% dos empregadores do comércio e logística apontam a dificuldade em encontrar as competências necessárias como uma das principais razões para os atrasos. Na indústria, a percentagem é de 58%, seguindo-se a hotelaria e restauração (57%), os serviços e tecnologias de informação (56%) e o setor público, saúde e serviços sociais (51%).
O retrato muda quando a pergunta se concentra na disponibilidade de profissionais qualificados no mercado local. Neste caso, as maiores dificuldades são sentidas nos serviços profissionais, científicos e técnicos, onde 67% dos empregadores identificam este problema. Seguem-se o comércio e logística, com 54%, e a construção e imobiliário, com 53%.
Um novo desafio para quem recruta
À falta de competências junta-se agora uma dificuldade mais recente. O recurso à inteligência artificial (IA) para produzir currículos começa a ter consequências no tempo necessário para analisar candidaturas e contratar. No conjunto do mercado português, o impacto é ainda limitado, sendo que 7% dos empregadores que estão a demorar mais tempo a preencher vagas apontam o aumento do número de currículos criados com IA como uma das razões.
Mas a média nacional esconde diferenças acentuadas. Nas finanças e seguros, 43% dos empregadores identificam este fenómeno como uma das principais causas para o prolongamento dos processos de recrutamento. É mesmo o principal fator apontado pelas empresas deste setor. Na tecnologia e serviços de informação, a percentagem chega aos 33%.
Fora de Portugal, o problema parece estar mais disseminado. A nível global, 16% dos empregadores atribuem ao aumento dos currículos produzidos com recurso a IA um impacto negativo no tempo necessário para recrutar.
Porque conseguem algumas empresas contratar mais depressa?
Se três em cada 10 empresas estão a demorar mais tempo, quase uma em cada quatro está a conseguir fazer o contrário. E as diferenças não passam apenas pela disponibilidade de talento.
Entre as empresas que estão a recrutar mais depressa, 29% apontam uma melhor colaboração entre as equipas de recursos humanos e os responsáveis pelas contratações. Outros 26% referem processos de aprovação mais rápidos.
As redes de contactos também continuam a desempenhar um papel relevante: 24% dos empregadores dão prioridade a candidatos que chegam por recomendação ou através de networking. Já 22% recorrem a parceiros externos, como empresas especializadas em recrutamento.
A tecnologia surge dos dois lados do problema. Se a utilização de IA pelos candidatos está a tornar alguns processos mais demorados, as empresas também estão a recorrer a ferramentas tecnológicas para tentar encurtá-los. Cerca de 22% dos empregadores que estão a contratar mais rapidamente referem melhorias na triagem das candidaturas, incluindo dos currículos produzidos com recurso a IA. Outros 18% apontam uma melhor segmentação na atração de candidatos e 13% referem diretamente a utilização de IA e de outras tecnologias de recrutamento.
O ManpowerGroup Employment Outlook Survey relativo ao quarto trimestre de 2026 ouviu mais de 39 mil empregadores em 42 países e territórios. O próximo estudo será divulgado em dezembro, com as perspetivas de contratação para o primeiro trimestre de 2027.
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