Autora: Helena Casanova, autora do programa Awareness saúde mental, life balance e prevenção do burn out
Não é por acaso que a obra inspiradora de Jon Kabat Zinn se chama “The full catastrophe living”. Aquilo que ela nos propõe tem menos a ver com a compreensão dos mecanismos psicológicos do mindfulness, do que com a nossa capacidade de lidar com as circunstâncias da vida com enorme ternura para connosco. Tem a ver com o desejo de enfrentar de forma mais amorosa e compassiva o nosso próprio sofrimento e o dos outros, o stress, a doença nas nossas vidas; aquilo a que Jon Kabat Zinn chama a catástrofe total da condição humana. “Isto não é fácil. De certa forma (…) pode ser realmente o trabalho mais desafiante para nós, humanos”.
Mas, se pensarmos um pouco, não é isto o mais importante nas nossas vidas? E quem poderia fazer este tipo de trabalho por nós? Os nossos familiares ou amigos? Por muito que as outras pessoas queiram e possam apoiar os nossos esforços para atingir melhores níveis de saúde e bem-estar, o empenho tem de vir de nós. De si. Afinal de contas, ninguém está a viver a sua vida por si.
A abordagem de Jon Kabat Zinn é um convite para iniciar uma viagem de autodescoberta, aprendizagem e cura. Baseia-se em 34 anos de experiência clínica com mais de 20.000 pessoas da Clínica de Redução do Stress no Centro Médico da Universidade de Massachusetts. Existem mais de 720 programas baseados na atenção plena em hospitais, centros médicos e clínicas nos Estados Unidos e noutros países. Muitos mais milhares de pessoas participaram nestes programas em todo o mundo.
Tem a ver com encontrar formas de honrar a dimensão total das nossas vidas, de forma mais sã, satisfatória e significativa. Embora a prática da atenção plena possa resultar em mudanças benéficas na atividade de certas regiões do cérebro, bem como na sua estrutura e conetividade, a motivação de JKZ é, talvez, mais simples: porventura o desejo de viver uma vida mais integrada e satisfatória, de ser mais saudável, mais sábio e estar mais feliz.
Devido à nossa atividade interna, perdemos muito da essência e do sabor das nossas experiências de vida. Recorde-se, por exemplo, de um momento em que esteve sentado a aguardar pelo pôr do sol. Depois, o pensamento entrou em ação e talvez tenha dado por si a dizer algo sobre o pôr do sol, sobre a sua beleza ou sobre qualquer outra coisa que ele lhe tenha feito lembrar. A experiência real do momento desvaneceu-se: foi levado pelo seu próprio pensamento e pelo seu próprio impulso de o expressar. O seu comentário quebrou o silêncio. E mesmo que não tenha dito nada, o tipo de memória que surgiu já o afastou, em alguma medida, do pôr do sol naquele momento. Passou, por isso, a apreciar o pôr do sol na sua cabeça, em vez do pôr do sol que estava realmente a acontecer.
Tudo isto pode acontecer completamente abaixo do nível da sua consciência. Para além disso, todo este episódio pode durar apenas um momento. Desvanecer-se-á rapidamente à medida que um novo pensamento, uma nova emoção levar a outra. “O que está a perder é mais importante do que imagina. Se estiver apenas parcialmente consciente durante um período de anos, se passar pelos seus momentos sem se sentir plenamente neles, pode perder algumas das experiências mais preciosas da sua vida, como a ligação com as pessoas que ama ou o pôr do sol. Porquê? Porque está demasiado ocupado na sua mente”.
O importante a cada momento é parar, ouvir, reparar nas coisas. “Talvez estejamos a ir demasiado depressa para perceber a importância do contacto visual, do toque, de estar no nosso corpo. E quando estamos a funcionar neste modo, podemos comer sem realmente saborear, ver sem realmente ver, tocar sem realmente sentir”.
Quando se trata de saber se a meditação conduz a melhor saúde, a pergunta essencial é “o que é verdade e o que não é verdade”. Daniel Goleman e Richard Davidson aplicaram padrões rígidos na pesquisa e publicação da obra “Traços alterados”. Do que analisaram, os estudos mais sólidos, comprovam a diminuição da perturbação psicológica, mais do que a cura da situação clínica ou a descoberta dos mecanismos biológicos subjacentes. Quando se trata de melhorar a qualidade de vida para os portadores de doenças e dor crónicas, a resposta irrefutável é “sim à meditação”. Este cuidado paliativo é muitas vezes ignorado pela medicina sendo importantíssimo para os pacientes.
Foram selecionadas apenas as descobertas realizadas no laboratório do Richard Davidson e alguns estudos que consideraram credíveis. Comprovam mudanças neurológicas, biológicas e comportamentais como consequência da meditação, podendo portanto ajudar a manter a saúde, nomeadamente ao melhorar a regulação das emoções e ao alterar o processo de atenção.
Historicamente, a meditação não se destinava a melhorar a nossa saúde ou a fomentar o sucesso no trabalho. Os resultados mais evidentes da pesquisa destes autores e os efeitos verdadeiramente notáveis, encontram-se entre os praticantes de 12 a 62.000 horas ao longo da vida, incluindo muitos anos de retiro profundo. Os estados meditativos transformam-se em traços permanentes, e surgem características extraordinárias.
Mas todos eles praticam no interior de uma tradição espiritual. O mundo ocidental prefere uma prática curta, uma abordagem pragmática que deixa o resto para trás. Jon Kabat Zinn, Daniel Goleman e Richard Davidson são unânimes em considerar que, algumas componentes importantes da prática, não são a meditação em si própria. O que nos leva a refletir que a meditação representa apenas uma parte que ajuda a aumentar a consciência de si mesmo e alcançar uma verdadeira transformação do self.
Quando desligamos o piloto automático, a magia acontece.