Autor: Bruno Silva, Talent Advisor da Grafton Portugal
Nas últimas semanas os desafios que a Geração Z enfrenta no mercado de trabalho geraram um debate aceso nas redes sociais e no mundo empresarial. O ponto de fervura foi o estudo recente da revista Fortune, que revelou que seis em cada 10 empregadores afirmam já ter despedido jovens recém-contratados desta geração. Entre os motivos apontados, destacam-se a falta de soft skills, motivação e compromisso. Mas o que está realmente a faltar à Geração Z? Será justo atribuir a culpa apenas a estes jovens trabalhadores?
Por um lado, a Geração Z é, sem dúvida, a mais bem preparada em hard skills. Cresceram num mundo digital, familiarizados com tecnologias avançadas e preparados academicamente para enfrentar tarefas técnicas. No entanto, são precisamente as soft skills – como a comunicação, o trabalho em equipa, a capacidade para a resolução de problemas e a iniciativa – que parecem faltar.
Segundo a Intelligent.com, mais de metade dos recrutadores considera que os licenciados não estão prontos para o mundo do trabalho, enquanto mais de 20% refere que estes jovens têm dificuldade em saber lidar com a carga de trabalho
Os empregadores também se queixam da falta de profissionalismo, desorganização e uma certa tendência inflexível – jovens que, habituados a um ambiente académico mais facilitado, parecem não entender as exigências de um mercado laboral altamente competitivo.
No entanto, esta análise levanta questões importantes: não estarão os empregadores a exigir de recém-licenciados a mesma performance que esperam de trabalhadores experientes? Não estará o mercado a cair na armadilha de querer bons trabalhadores a preço de saldo, sem aproveitar o conhecimento avançado que trazem?
Na minha opinião, este tema tem várias layers, entre elas, a necessidade de se olhar o sistema de ensino. Recordo-me no meu tempo de faculdade, um professor referir que o “mercado de trabalho é uma selva” e a realidade é que é bastante competitivo. Se precisamos das futuras gerações, temos de as ajudar. Muitos recém-formados chegam ao mercado sem estar preparados para as realidades práticas do trabalho e algumas instituições lá fora já começaram a agir.
Destaco iniciativas como a da Michigan State University, nos Estados Unidos, que ensina os alunos sobre a importância do networking e uma escola de Notting Hill, em Londres, que testa dias escolares de 12 horas para familiarizar os jovens às rotinas adultas. Mudanças fundamentais para ajudar a viver em realidade.
Apesar de não podermos ignorar a responsabilidade dos Zoomers, temos também muito a aprender com esta geração. É a geração que mais está a defender o work life balance e que mais protege a saúde mental, ao contrário dos Millennials, que são os que sofrem maior nível de stress, ansiedade e risco de burnout. Além disso, são uma geração prática, autodidata, preocupada com o planeta e muito inclusiva – um contributo importante para ambientes de trabalho mais sustentáveis.
São uma geração prática, autodidata, preocupada com o planeta e muito inclusiva
O que lhes falta? O CEO da Amazon, Jeff Bezos, referiu recentemente que, aos 20 anos, a sua maior arma era a atitude. Para muitos líderes, ter atitude e iniciativa são tão ou mais importantes do que ter um currículo extenso. Mark Zuckerberg, CEO da Meta, também aponta a importância do “talento em bruto” e da personalidade, acima das credenciais académicas.
Por isso, será que a solução passa por despedir ou desenvolver os Zoomers? Se as empresas querem reter talento a longo prazo, têm de investir na formação e acompanhamento destes jovens. Não basta recrutar para depois despedir. Afinal, como dizia Richard Branson, CEO da Virgin, “os jovens precisam da escola da vida” e é no equilíbrio entre orientação e exigência que se constrói uma carreira de sucesso. Afinal, o futuro do trabalho depende deles.