A Associação Pedalar Sem Idade pretende, aliando-se a empresas, instituições e sociedade civil, providenciar passeios gratuitos de bicicleta a idosos ou pessoas com mobilidade reduzida.
O conceito foi importado da Dinamarca e, em Portugal, manteve a sua essência, através da Associação Pedalar Sem Idade, que a operacionaliza. Recorda-se da sensação de andar de bicicleta com os cabelos ao vento? É o que a Associação pretende proporcionar a idosos ou pessoas com mobilidade reduzida, que serão conduzidos em trishaws – o mesmo é dizer veículos com três rodas –, por voluntários treinados para o efeito, de acordo com as rotas e passeios definidos. É aqui que as empresas se podem aliar à Pedalar Sem Idade, no âmbito, por exemplo, dos seus programas de responsabilidade social, para quebrar as barreiras associadas ao isolamento e solidão, com “impactos visíveis, mensuráveis e duradouros” no que ao engagement dos profissionais e ao reconhecimento do mercado diz respeito, como explica Rui Guedes de Quinhones em entrevista ao InfoRH. O presidente da direção da Associação irá pôr o seu passado profissional na área da gestão de pessoas ao serviço da Pedalar Sem Idade, com a implementação do seu programa e benefícios em organizações.
O conceito da Associação Pedalar Sem Idade foi importado da Dinamarca. Do país nórdico, trouxe a sua essência e operacionalização?
É verdade. O movimento nasceu em 2012 na Dinamarca pela mão do Ole Kassow e cresceu extraordinariamente nestes anos. Hoje, estamos em mais de 40 países, em todos os hemisférios e todos os parceiros publicam diariamente as suas experiências e metodologias numa plataforma partilhada, exclusiva do movimento e acessível a todos os membros. É uma enorme fonte de boas práticas que permite atuar de forma muito direcionada, evitando “erros de principiante” e que nos ajuda a atuar segundo os cinco princípios do movimento – generosity, slowness, storytelling, relationships, without age.
Que objetivos estão subjacentes à sua criação?
O objetivo da Pedalar Sem Idade é muito simples: providenciar passeios gratuitos a idosos ou pessoas com mobilidade reduzida, em bicicletas de três lugares adaptadas para o efeito, conduzidas por pilotos voluntários treinados, quebrando as barreiras do isolamento e da solidão. Passear de bicicleta é sempre uma experiência incrível e puder propiciar isso a um familiar, a um vizinho ou a um total desconhecido é tremendamente recompensador.
Como é que a Associação se propõe alcançá-lo?
Em alguns países são casas de repouso ou residências que adquirem o seu próprio trishaw para utilização dos seus utentes e noutros, como é o caso da Irlanda, o movimento está inserido num programa governamental disponibilizado aos utentes do sistema nacional de saúde. A nossa opção foi a criação de uma Associação sem fins lucrativos, que deverá tornar-se numa IPSS dentro de alguns meses, para que tivesse uma estrutura organizada e competente para a implementação. O segundo passo é a aquisição das bicicletas que é feita diretamente aos parceiros do movimento. Posteriormente, avançaremos para a constituição do nosso “exército” de voluntários, para o seu treino e formação. Durante esta última fase, vamos começar a disponibilizar as primeiras rotas e passeios quer a particulares, quer a instituições e empresas. Acredito que em 2020 já teremos uma plataforma para a realização de marcações e reservas.
A Associação tem, em curso, uma campanha de crowdfunding. Como é que as pessoas podem apoiar o projeto?

Optámos pelo crowdfunding porque é um sistema simples, acionável através dos canais digitais e extremamente transparente. Todos sabem quem doou, quanto foi doado e qual é o seu propósito. Para aceder à campanha basta seguir os nossos canais digitais (Facebook, Instagram e Twitter) ou aceder ao site. Depois de entrar na plataforma estão descritos os apoios e as recompensas. Quisemos associar a cada apoio – julgo que apenas o apoio de 5 euros é que tem apenas a menção do nome do doador no site – uma recompensa que pode ser um passeio ou um conjunto de passeios, uma sweatshirt ou um chapéu com o logótipo da Pedalar Sem Idade. No futuro, e através de outros canais, vamos continuar a associar as contribuições à posse, ao usufruto de algo ou à anuidade para ser associado. Acreditamos que é importante as pessoas envolverem-se ativamente na vida da Associação, no movimento e no conceito que lhe está associado. Em 2050, mais de metade da população europeia terá mais de 60 anos e Portugal estará na linha da frente desta realidade. A “velhice”, o seu próprio conceito e estereótipos associados já estão a mudar, com impactos profundos na sociedade, nas famílias e na forma como organizamos o trabalho. Eu próprio terei 60 anos dentro em breve, mas vou continuar a beber uma Coca-cola, enquanto atualizo o meu Instagram com uma foto do passeio de mota feito no fim-de-semana anterior. Isto seria impensável para os meus avós ou mesmo para os meus pais.
É uma relação que se estabelece, não é um serviço de transporte, um frete feito à pressa para despachar.
Considerando, por um lado, o conceito da Associação e, por outro, o seu propósito, as organizações podem apoiá-la através dos seus programas de responsabilidade social?
De facto, esse é um dos meus principais objetivos como presidente da Associação – ligar o meu passado profissional na área da gestão das pessoas com os benefícios do programa e ajudar as organizações na sua implementação. Acredito que um programa de responsabilidade social com a Pedalar possui impactos visíveis, mensuráveis e, sobretudo, duradouros. Imagine que a sua empresa lhe permite ter um dia da semana mais curto, ou mesmo uma hora de almoço mais prolongada, para passear de bicicleta com os seus avós, com os seus pais, os seus tios ou mesmo com desconhecidos e conhecer as histórias incríveis de quem já viveu 90 anos, observar os seus sorrisos, parar para comer um gelado ou simplesmente observar o que de novo se passa na cidade. É extremamente envolvente, é motivador e saudável, tem propósito e é facilmente acionável.
E como é que podem apoiar o projeto? Têm programas específicos para empresas?
Sim, teremos os programas de responsabilidade social e soluções adequadas a cada uma das organizações, dependendo sempre dos objetivos que estão em causa. Um dos aspetos que terá que estar sempre presente é a lógica da “gratuitidade” entre passageiros e piloto. É uma relação que se estabelece, não é um serviço de transporte ou um frete feito à pressa para despachar. E esses princípios serão sempre garantidos pela formação aos pilotos, mesmo que estejam a passear com um familiar.
Para além do apoio à causa, que outros benefícios podem as organizações ganhar?
Vai ser possível colocar o brand de marcas e organizações nos trishaws, seja parcialmente, seja numa lógica de exclusividade. E todos sabemos que as marcas que assumem a sua responsabilidade social com as comunidades que as envolvem são reconhecidas pelos seus públicos. Além da presença nas viaturas, vamos estar presentes em eventos relacionados com a mobilidade urbana, com a sustentabilidade ambiental e com este assunto tão sério que é o envelhecimento demográfico do hemisfério norte do planeta. As empresas que se associarem a nós estarão também associadas a estas preocupações e a agirem para a sua melhoria e correção.
Passear de bicicleta é sempre uma experiência incrível e puder propiciar isso a um familiar, a um vizinho ou a um total desconhecido é tremendamente recompensador.
Neste momento, quantos trishaws já adquiriram?
Enquanto lhe respondo a esta entrevista ficámos a saber que reunimos os fundos necessários para a aquisição dos dois primeiros trishaws para Lisboa. Mas vamos querer chegar às quatro unidades até ao final deste ano. Vai depender da vontade e da aposta das empresas, dos parceiros e da sociedade civil.
E quantos voluntários fazem parte da equipa?
Os membros dos órgãos sociais são nove e são todos voluntários. Esse será o seu enquadramento futuro conforme está previsto nos estatutos da Associação. Assim que se iniciarem as operações, provavelmente em julho ou agosto, estamos determinados a criar dois postos de trabalho na associação, mas os restantes apoios serão em regime de voluntariado. Queremos ter uma força de voluntariado superior a cinquenta pessoas até ao final do ano.
Que ações irá desenvolver a Associação para pôr efetivamente o seu objetivo sobre rodas?
Por agora, vamos focar os nossos esforços em adquirir os primeiros trishaws. Depois disso, fazer um trabalho de parceria, em rede com instituições, empresas, outras associações, juntas de freguesia, lares, centros de dia, etc. Queremos estar próximos de todos os que têm o direito de voltarem a sentir o vento nos cabelos.