A
inteligência artificial (IA), as tensões geopolíticas e as mudanças profundas nas expectativas da força de trabalho estão a redefinir não apenas os modelos de negócio, mas também a forma como as empresas organizam o trabalho, lideram pessoas e criam valor, segundo o relatório The State of Organizations 2026, da McKinsey, que recolheu as respostas de mais de 10 mil executivos seniores de 15 países e 16 setores de atividade.
Como sublinham os autores do estudo, “estes são tempos desafiantes para as organizações em todo o mundo”, num cenário marcado por “disrupção contínua”. Mais do que uma sucessão de tendências isoladas, o estudo identifica três grandes “forças tectónicas” que estão a reconfigurar as organizações.
A primeira é tecnológica. O avanço acelerado da IA, em particular dos modelos generativos e dos sistemas capazes de executar tarefas complexas, trata-se de “uma mudança de paradigma que promete benefícios significativos, incluindo ganhos de produtividade, maior rapidez no lançamento de produtos e redução de custos”.
A segunda força prende-se com a fragmentação geopolítica e económica. Tensões comerciais, mudanças regulatórias e reorganização das cadeias de abastecimento estão a obrigar muitas empresas a rever estratégias de produção, investimento e expansão internacional.
Por fim, as mudanças na própria força de trabalho estão a alterar profundamente as dinâmicas organizacionais. As expectativas dos trabalhadores evoluíram, as trajetórias profissionais tornaram-se menos lineares e os modelos de trabalho híbridos ou digitais passaram a fazer parte da realidade de muitas empresas.
Apesar de reconhecerem o potencial das mudanças em curso, muitos líderes admitem que as suas organizações ainda não estão preparadas para lidar com elas. De acordo com o relatório, 72% dos executivos afirmam que as suas empresas não estão totalmente preparadas para enfrentar as transformações que se aproximam. Mesmo entre os líderes mais confiantes, apenas uma minoria acredita que a organização está realmente pronta.
A pressão sobre a liderança também está a mudar. Hoje, as prioridades dos executivos centram-se sobretudo em crescimento de receitas ou estabilização do negócio, redução de custos e satisfação do cliente. Métricas que ganharam grande destaque nos anos imediatamente após a pandemia, como engagement ou bem-estar dos colaboradores, continuam presentes, mas deixaram de ocupar o topo da agenda. “O desempenho sustentado e a criação de valor são agora a prioridade, à frente dos ganhos de curto prazo.”
IA com pouco impacto
O relatório indica que 88% das organizações já estão a testar IA. Contudo, 81% ainda não registam impactos relevantes nos resultados financeiros. A dificuldade está na forma como as organizações a integram nos seus processos e modelos operacionais. “Menos de 20% das empresas que tentaram adotar a tecnologia registaram impacto tangível significativo nos seus resultados.”
Muitas empresas continuam numa fase inicial de preparação: 86% dos líderes admitem que as suas organizações não estão preparadas para integrar a IA no dia a dia e uma em cada seis organizações não tem sequer um responsável claro ao nível do C-suite para liderar esta transformação.
Humanos e agentes de IA: uma nova aliança
À medida que a tecnologia evolui, as organizações caminham para um modelo em que pessoas e sistemas inteligentes trabalham lado a lado. Os chamados agentes de IA estão a começar a integrar fluxos de trabalho empresariais mais complexos. Porém, a maioria dos líderes acredita que, no curto prazo, o papel da tecnologia será sobretudo de apoio aos colaboradores.
De acordo com o estudo, 53% dos executivos esperam que a IA funcione principalmente como ferramenta de suporte ao trabalho humano nos próximos dois anos, enquanto apenas 25% antecipam agentes digitais a operar como verdadeiros “colegas” autónomos.
Mesmo assim, as expectativas quanto ao impacto na produtividade são elevadas: 55% dos líderes acreditam que desenvolver competências de IA entre os colaboradores poderá gerar ganhos significativos de produtividade, além de melhorar o acesso à informação e a qualidade da tomada de decisão. O relatório estima que cerca de 75% das funções atuais terão de ser redesenhadas, combinando maior fluência tecnológica com competências humanas, como pensamento crítico, criatividade ou inteligência emocional.
A instabilidade geopolítica voltou também a ocupar um lugar central na agenda empresarial. O estudo mostra que 72% dos líderes afirmam que as tensões geopolíticas já tiveram impacto significativo nas suas organizações. Tarifas comerciais, conflitos internacionais e mudanças regulatórias estão a levar muitas empresas a redesenhar cadeias de abastecimento e estratégias de produção.
Apesar disso, a preparação estratégica ainda é limitada. Apenas 26% dos executivos dizem realizar planeamento de cenários geopolíticos de forma trimestral, o que sugere que muitas organizações continuam a reagir mais do que a antecipar riscos.
Liderança e cultura organizacional em mudança
Num contexto marcado por transformações tecnológicas e económicas aceleradas, o papel da liderança também está a evoluir. O relatório aponta para o aparecimento de um modelo de liderança mais reflexivo e centrado no desenvolvimento pessoal. A capacidade de adaptação, a aprendizagem contínua e a gestão de equipas híbridas tornam-se competências cada vez mais relevantes.
Segundo o estudo, 30% dos líderes acreditam que as suas organizações conseguem adaptar-se rapidamente à mudança, enquanto apenas 17% dos líderes menos reflexivos partilham essa confiança.
A investigação sugere que esta dimensão humana da liderança poderá tornar-se ainda mais crítica à medida que a tecnologia ganha peso nas organizações. Como resume o relatório, “liderar outros também significa liderar a si próprio”.
A função de RH no centro da transformação
Para os líderes de recursos humanos (RH), as conclusões do estudo têm implicações diretas. A integração da IA, a transformação das competências e a necessidade de reinventar modelos organizacionais colocam a função de RH no centro da mudança. Mais do que gerir talento, os RH são chamados a desempenhar um papel determinante na construção de organizações capazes de combinar tecnologia avançada com culturas de aprendizagem e adaptação.
Num cenário marcado por incerteza e transformação permanente, o sucesso das organizações dependerá não apenas da tecnologia que adotam, mas da forma como conseguem mobilizar pessoas, competências e liderança para transformar essa tecnologia em valor real.
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