João Mateus Figueiredo
Psicólogo clínico no departamento de saúde mental e consultor na Comissão de Humanização do Centro Hospitalar de Entre o Douro e Vouga
Teresa Proença
Investigadora do CEF.UP e professora na Faculdade de Economia e na Porto Business School da Universidade do Porto
Hoje em dia quando ouvimos um CEO ou um Diretor de RH, é quase dito de forma automática expressões como: “as pessoas são o nosso ativo mais importante”, “o principal da empresa é o capital humano”. Seguramente que em muitas empresas estas expressões encontram total concordância entre as palavras ditas e a prática do dia-a-dia.
Porém, existirão muitas outras em que a dissonância entre as palavras e a prática corresponde a um fosso quase intransponível. Tratar as pessoas como ativo ou capital humano subentende um valor e um investimento, o que racionalmente implicaria seguramente tratar delas da melhor forma possível, para que esse investimento se pudesse refletir em melhores resultados.
No entanto, em alguns momentos, parece que somos mais resolutos a cuidar das máquinas, dos equipamentos informáticos, dos espaços laborais, etc., mas quando falamos em cuidar das pessoas, parece que a lógica se inverte. Senão vejamos: uma máquina tem a sua capacidade definida de produção, tentamos otimizá-la, mas poucos se atrevem a ultrapassar o seu limite, pois facilmente entrará em rutura, deixará de produzir e trará prejuízos para a empresa.
Nas pessoas este limite nem sempre é claro e a retórica motivacional que equipara o ser humano no trabalho ao atleta ou à equipa de alto rendimento, que ultrapassa os seus limites, é atrativa para o colaborador bem-intencionado e faz crer algum endeusamento do Ser Humano, alimentando a ideia de que “o céu deve ser o limite” e todos os dias temos de nos superar. Na verdade, do que muitas vezes estamos a falar é de uma enorme pressão para os resultados, para a produtividade, para a lógica do excelente, ultrapassando aquilo que foi estabelecido como meta, esquecendo ou negligenciando as necessidades dos colaboradores e a sua natureza humana, que é o mesmo que dizer a sua natureza precária e limitada.
Esta ideia foi recentemente partilhada por Melanie Wild-Schleiffelder, senior business transformation manager da Nokia Networks, numa entrevista publicada pela PBS em 2017: “Diariamente somos confrontados com termos como aceleração e inovação, com a importância de aumentar vendas, de nos reinventarmos, de sermos criativos. Mas todos estes termos são palavras vazias para os colaboradores de uma organização. Temos de refletir mais sobre o que as pessoas precisam. Nós somos seres humanos, por isso vamos parar de falar só de chavões de negócios. Vamos recuar e perguntar: Como se sente no seu novo emprego? Há alguma coisa que possa fazer para o ajudar nesta nova função? A um nível com um maior grau de empatia, preocupação e demonstrar interesse pela outra pessoa”.
Estaremos verdadeiramente a tratar as pessoas como ativos, ou antes a tratá-las como um passivo e numa lógica de win-lose? Diariamente na prática dos autores, no consultório do clínico ou na sala de aula da professora, somos confrontados com múltiplas dificuldades que os profissionais trazem, sejam eles “doentes” ou “saudáveis”. Responder a e-mails de trabalho durante o fim-de-semana, período de férias ou mesmo durante as horas “de descanso” diárias, funcionários doentes que recebem diariamente telefonemas dos RH a questionar “quando vens trabalhar?”, ou “eu sei que estás de baixa, mas isso também não é nada de especial, vem ajudar”, ou “preciso deste relatório para ontem”, ou ainda mulheres em licença de maternidade com ameaças de despedimento são infelizmente prática corrente.
Vivemos uma cultura crescente de invasão da vida profissional na vida pessoal e já pouco ou nada se respeita o período em que a pessoa deve estar desligada do trabalho. Esta visão é também partilhada por Pedro Afonso, psiquiatra e professor na AESE, que numa entrevista ao Jornal de Negócios, em 2015, referia a existência de “um divórcio entre as características humanas e aquilo que está a ser exigido às pessoas”, realçando a ideia que “se não existir um equilíbrio não só diminuímos a produtividade, como colocamos a nossa saúde em risco”.
Para os clínicos que estão no terreno, isto já não era novidade em 2015, nem nos dias de hoje, mesmo anunciando-se o afastamento da crise e a diminuição da taxa de desemprego. Este fenómeno tem adquirido maior notoriedade, não só pelo crescente sofrimento que infringe nas pessoas (sendo o stress considerado o mal do milénio), como pelo valor financeiro que representa em perdas para as organizações em todo o mundo. Este impacto levou a Organização Mundial da Saúde, que todos os anos assinala o Dia Mundial da Saúde Mental no dia 10 de outubro, a dar destaque em 2017 à saúde mental no local de trabalho, referindo que os empregadores que investem em iniciativas para promover a saúde mental e apoiar os funcionários conseguem ganhos não somente na área da saúde, mas também nos níveis de produtividade (OMS, 2017).
A OMS afirma ainda que um ambiente de trabalho negativo pode levar a problemas físicos e mentais, ao uso de substâncias nocivas, ao absentismo e perda de produtividade. Segundo a mesma fonte, só os quadros de depressão e ansiedade custam, em média um bilião de euros/ano à economia global em perdas no trabalho. Este desafio coloca-se todos os dias aos diretores de RH com baixas e absentismo laboral. Obviamente que seria incorreto colocar toda a tónica na GRH, no entanto parece inegável que, para muitas empresas, o capital humano continua a ser visto ainda numa linha de passivo, mais do que ativo, e que as pessoas são vistas como parte do problema e não da solução. Maior evidência deste facto é o tratamento contabilístico que a categoria “pessoas” tem no balanço da organização, representando uma das maiores parcelas do passivo.
Acreditamos que grande parte desta situação se relaciona com valores, ou com a falta deles. Falar de GRH implica falar de valores, embora existam vários que possam ser associados aos serviços orientados para uma boa gestão de RH, há um valor chave que na nossa ótica é pedra angular para a estruturação de todas as práticas e políticas de GRH, a dignidade humana. Immanuel Kant (1991) referia que “no reino dos fins, tudo tem um preço ou uma dignidade. Quando uma coisa tem um preço, pode pôr-se, em vez dela, qualquer outra coisa como equivalente, mas quando uma coisa está acima de todo o preço, e, portanto, não permite equivalente, então ela tem dignidade” (p.77).
A transformação do ser humano numa lógica simplista de métrica e de meio para apenas atingir um fim permite facilmente deturpar o valor da dignidade humana. Assumir as pessoas enquanto capital humano implica dignificar e não apenas quantificar. Esse processo pode ser adaptado a qualquer setor e em qualquer ciclo, implica muita formação e consciencialização dos RH, das lideranças, dos decisores e de todos nós. Ainda dentro desta linha, Melanie Wild-Schleiffelder (2017) referia que é essencial que as organizações valorizem o capital humano: “As empresas vão ter melhores resultados rumo a uma mudança positiva se tiverem em conta a opinião das pessoas que possam expressar os seus receios, os seus pensamentos, apresentar as suas soluções, possam fazer parte das soluções”. Para finalizar enfatiza-se que “a dignidade é atributo de todo ser humano, não é algo que a pessoa tenha, é algo que se é”.
Referências
Crespo, Lúcia (2015). Psiquiatra Pedro Afonso: Há um endeusamento do trabalho. Jornal de Negócios. Acesso em 17/12/2018 https://www.jornaldenegocios.pt/ weekend/detalhe/psiquiatra_pedro_afonso_ha_um_endeusamento_do_trabalho
Wild-Schleiffelder, Melanie (2017). Gestão da Mudança: “Nós somos seres humanos, por isso vamos parar de falar só de chavões de negócios” Notícias PBS. Acesso em 17/12/2018 http://news.pbs.up.pt/noticias/501/gestao-da-mudanca-nos-somos-sereshumanos-por-isso-vamos-parar-de-falar-so-de-chavoes-de-negocios
Kant I. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. [1785], 1991, Tradução de Tradução de Antônio Pinto de Carvalho. Portugal: Edições 70.
Organização Mundial de Saúde (OMS) (2017) Mental health in the workplace. Acesso em 17/12/2018 https://www.who.int/mental_health/world-mental-health-day/2017/en/
Artigo publicado na edição 120 da RHmagazine.